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segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Seu Filho Ainda Tem Medo de Dormir Sozinho?

"O Quarto da Criança, um Reflexo do seu Espaço Interno"

Com alguma frequência, mães de crianças entre os ​7 e os 11 anos pedem-me ajuda porque os filhos não adormecem sozinhos. A mãe tem de se sentar/deitar ao seu lado até adormecer, e sempre que acorda à noite chama pelo pai ou pela mãe. Existem muitas teorias, crenças e falsas ideias sobre esta questão. Por essa razão, gostaria de partilhar algumas reflexões que me parecem importantes.

1. Entender a Situação

​Cada criança, família e situação é única. E por essa razão, é fundamental primeiro entender, explorar e contextualizar. A idade da criança, por exemplo, faz toda a diferença. Por outro lado, não existem fórmulas mágicas, nem universais. É por essa razão, que antes de mais nada, é preciso responder a algumas perguntas. 
​P​or exemplo, porque é que a mãe tem de se deitar com ele? O que acontece se não o fizer? Como é que ele reage? Chora? Fica triste? Zanga-se? Levanta-se? Apenas insiste? Não consegue adormecer? Alguma vez a criança dormiu sozinha​? Se sim, quando é que começou a precisar de companhia? O ​quarto dos pais fica muito longe do da criança? Como seria se a mãe ou o pai, ao invés de se deitar com o filho, lhe fizesse apenas companhia durante algum tempo, sentada na cama, ou numa cadeira ao lado da cama? Os pais já conversaram com o filho acerca da situação? Se for o caso, quais são as razões que ​a criança dá para querer a sua presença ao adormecer e durante a noite? 
​É frequente responderem que o filho tem medo de​ "estar só​". Aí, é importante perceber melhor o que é estar só. É estar habituado a estar sempre acompanhado? Tem medo? Se sim, do quê? Sente-se ansioso, triste ou angustiado? 
Por fim, seria importante saber como a mãe ou o pai se sente​m​ com esta situação? Preferem dormir ao lado do filho, ou na sua cama (ao lado do seu ​companheiro/a, se for o caso)? Já se sentaram os três e conversaram sobre o que cada um sente relativamente a esta questão​, e como se poderão ajudar uns aos outros? O que é que cada ​elemento da família precisa?

2. A capacidade da criança dormir no seu quarto​

A capacidade de dormir sozinho, envolve na pessoa (da criança ao adulto) uma série de recursos e competências que são fisiológicas numa fase inicial, e gradualmente, cada vez mais emocionais. Se considerarmos um bebé, que acaba de chegar ao mundo e que não tem em si ainda a capacidade de se ver e reconhecer como um ser individual e “separado” da sua mãe, e que, para além disso, necessita de mamar de duas em duas ou de três em três horas, faz-nos todo o sentido, pensar que o seu lugar será precisamente junto à mãe. Desta forma, sentir-se-á mais seguro, poderá interiorizar a ideia de que as suas necessidades têm resposta, e, em termos logísticos, dar mama à noite fica claramente mais fácil. 
Mas a verdade é que o ser humano, pelo “bicho” complexo que é, vai evoluindo gradualmente da necessidade de cumprimento de necessidades básicas (sejam fisiológicas e/ou de afecto), e começa a desenvolver em si, uma estrutura psíquica, que ainda que em constante transformação, o irá acompanhar ao longo de toda a sua vida. A qualidade desta mesma estrutura, irá determinar a forma como vai viver, fazer as suas escolhas e sentir-se, ao longo de todo o caminho. Pois bem, cabe aos pais, estarem atentos a este processo evolutivo, e é aqui que entra a questão do dormir no seu próprio quarto e da capacidade de “estar só”. 
Importa dizer que dormir no seu próprio quarto e dormir sozinho, são coisas diferentes. Veja-se o caso de crianças que têm irmãos mais velhos e nunca chegam a dormir efectivamente sozinhas. Isso não é um problema. A grande questão, é que, se numa fase inicial faz sentido o bebé estar junto à mãe, gradualmente, é importante que sinta que pode afastar-se dela e retornar a ela, sem danos para si mesmo, nem para a mãe. Isto, permite-lhe desenvolver o sentido de existência “dos objectos”, para além da sua presença física. Onde os vai encontrar? Dentro de si. Dentro da tal estrutura psíquica. Com o desenvolvimento da capacidade de guardarmos pessoas (e não só) “dentro de nós”, aprendemos a sentir-nos mais seguros. É isso que permite à criança ficar na escola durante o dia, sem se desestruturar, permite-lhe pensar em si mesma como um ser que poderá estar longe, estando muito perto. Aqui, eu voltaria a perguntar: o que é estar só?
Pense no adulto, que podendo estar a dormir na cama com outra pessoa, pode igualmente sentir-se profundamente só, e estando a dormir sozinho num quarto, pode sentir-se absolutamente acompanhado, seguro e amado. O verdadeiro sentido de proximidade é vivido dentro de nós. Está na capacidade de confiar que as pessoas significativas estão cá para nós, no sentido lato da expressão e não apenas no sentido físico. 
A par com esta competência profundamente estruturante para o Ser Humano, existe outro aspecto que entra em acção nestas situações. O sentimento de segurança interna. O que há de tão ameaçador na vida ou neste mundo, que leve a que ​a ​criança não possa dormir num quarto (provavelmente separada​ do quarto dos pais apenas por uma parede), sozinh​a​? A resposta é nada. É isso que temos que sentir, e que temos que passar aos nossos filhos. 
Mas a questão é que os pais vivem com os seus próprios medos (muitas vezes inconscientes) de que poderão perder os seus filhos, ou de que este mundo é efectivamente uma ameaça. Quando confrontados com a fase normal e saudável dos medos, pesadelos e terrores nocturnos da criança, são os pais quem mais se assusta. Depois, perante as suas inseguranças, enviam mensagens confusas aos seus filhos. Alguns exemplos são os pais que abrem os armários para mostrar que não está lá nenhum monstro (se eles não existem, porquê que é preciso espreitar?), outros dizem aos filhos para rezar muito quando chegam os medos (para estarem protegidos, do quê?), ou dizem que mandaram embora o que quer que fosse que estivesse no quarto (então mas se não existe...). Estas mensagens são contraditórias. Tanto quanto ficar a dormir com o seu filho. Está a dizer-lhe indirectamente que ele precisa que fique ali com ele, para que possa estar protegido (e consiga dormir em paz) - “Se a minha mãe fica aqui, é certamente porque eu preciso disso para estar bem”.
Dormir sozinho põe ainda à prova e ajuda a desenvolver, uma terceira competência que me parece digna de ser mencionada aqui​: ​a capacidade da criança gerir as emoções (e os seus fantasmas pessoais). A noite é óptima para lhe ensinar isso mesmo. Quando dizemos a um filho -“o teu lugar não é na minha cama e o meu lugar não é na tua cama”, estamos a permitir-lhe viver algumas das frustrações que fazem parte da vida e que ele vai ter que aprender a gerir. Quando dizemos a um filho, “eu percebo e é normal teres medos, vou ajudar-te no que me for possível, mas sei que boa parte da conquista vai ser tua”, estamos a ajudá-lo a gerir os seus próprios medos, e a entender que se a mãe não fica assustada e o deixa lidar com eles, então não deverão ser assim tão "gigantescos”. Quando diz ao seu filho – “eu consigo estar fisicamente separa de ti, continuando a amar-te da mesma forma”, está a dizer-lhe que o amor é constante, genuíno e seguro. 
Sempre que se aborda este tema, normalmente os pais focam a questão da autonomia, como sendo um ponto ou uma preocupação central. Pensam, na maioria das vezes, em autonomia funcional. Esquecem, no entanto, que a verdadeira autonomia, é a autonomia emocional. A capacidade de enfrentar desafios sem se desestruturar, a capacidade de ser ver como um ser individual e único (que não se funde ou baralha com os outros), capaz de construir o seu próprio caminho, encontrar as suas próprias soluções, ainda que, possa escolher fazer esse caminho acompanhado (e escolher, é muito diferente de precisar). Ou seja, escolher aconselhar-se com os pais sempre que tem um problema, é diferente e muito mais libertador do que acreditar que precisa da ajuda dos pais sempre que enfrenta um desafio. 

3. Ajudar o seu filho/a a dormir no seu próprio quarto​

​Para ajudar a criança a dormir no seu próprio quarto, aceitando que os pais façam o mesmo, ​​é fundamental que possam todos conversar abertamente sobre esse tema, sem acusações, recriminações ou castigos. Os pais devem falar sobre o que cada um pensa e sente sobre a situação. Depois, perguntar ​ao filho o que pensa, sente, e acha que consegue fazer. 
​É igualmente importante que sejam clar​os sobre a organização familiar,​ e a vivência do espaço da casa,​ definindo as regras e explicando o que as coisas são. “Eu e o pai somos um casal e, por isso, dormimos na mesma cama. Um dia, poderás querer o mesmo para ti”, “​t​u és nosso filho, e por isso, preparámos o teu quarto, um espaço teu, e que fica junto ao nosso quarto”. ​Para o seu filho, o respeito pelo quarto torna-se ainda mais importante na adolescência, ​altura em que os pais não deverão entrar sem bater, por exemplo. 
​Porque me perguntam muitas vezes, devo dizer que quanto a mim, deixar chorar não é uma opção. Na minha opinião, nunca foi. Fazer escolhas claras, ser coerente e determinada​/o​ não é deixar de ser sensível às necessidades do seu filho​/a​. O que acontece às vezes, é confundirmos o que ​a criança pede, com o que el​a realmente precisa, e o que el​a​ pensa que não consegue fazer, com uma verdadeira incapacidade. Ora, ​a criança não sabe até onde consegue ir, até chegar lá. Precisa por isso, que alguém acredite por el​a​ numa fase inicial, para que el​a​ possa começar a acreditar sozinh​a​, numa fase mais adiantada. Todo este processo de conquista, pode e deve ser feito com o seu acompanhamento. Precisa de alguém ao seu lado para adormecer? Não se deite com el​a​. ​E​steja ao lado del​a​. Tem pesadelos, acorda e chama os pais? Vá lá, confort​e-a​, diga-lhe que virá sempre que ​ela​ precisar, mas que​,​ ​uma vez que esteja mais calm​a​ ou te​nha​ ​adormecido, ​voltará para a sua própria cama. Isto é muito cansativo no in​í​cio, mas gradualmente, el​a​ deixará de sentir necessidade de chamar ​os pais ​(estará a desenvolver ​um​ sentimento de segurança). 
Outra estratégia importante é, se ​ambos os pai​s​ fizer​em​ parte do agregado, que alternem “os turnos”. Um dia fica para um, no outro dia, é o outro. Tenha em atenção que são os pais que decidem, e se organizam, e não o seu filho. Ou seja, hoje será o pai porque eu tenho que fazer umas coisas, amanhã serei eu porque o pai vai estar mais ocupado, etc. Uma das coisas que mantém muitas vezes, este tipo de comportamento, é uma falsa sensação de controlo sobre a mãe e sobre a relação dos pais. A criança fica refém dessa necessidade, e acredita que só pode sentir-se segura se controlar as pessoas à sua volta. Imagine o que é crescer com este sentimento!
Organize e crie uma rotina “amiga” do sono. Tente que o horário durante a semana seja estável, sendo que podem fazer do fim de semana, a exceção. Actividades mais calmas e relaxantes perto da hora de dormir são benéficas. Por outro lado, a hora de ir para a cama, pode ser um bom momento para partilhas com o seu filho, conversar calmamente sobre os seus sentires, planos para o dia seguinte, etc. Se houver medos, ou ansiedades, falar sobre elas é benéfico. O papel dos pais é estar ali, ouvir, entender, conter. Não minimize, desvalorize ou tente resolver as questões à sua maneira. Esteja apenas lá, e diga-lhe que entende que aquilo esteja a ser difícil, abrace-o sempre que for preciso, e diga-lhe que confia que ele vai conseguir lidar com a situação. 
Para terminar, é fundamental ​que os pais saibam que é seguro deixar o​s​ seu​s​ filho​s​ crescer. Não o​s​ estão​ a perder. A relação está apenas a transformar-se e ​a criança a fazer um caminho saudável. 

​Como nota final, deixo o alerta de que se estas estratégias não forem suficientes, ou se houver outros sintomas associados (alimentação, auto-estima, comportamento, aprendizagem, etc.), ​então não deve hesit​ar em procurar a ajuda de um psicólogo. A questão pode ser mais profunda e é fundamental que não deixe o seu filho crescer logo à partida com estas dificuldades.
Ana Guilhas,

Publicado originalmente em "UP TO KIDS"
Poderá lê a publicação original aqui

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Verdade Sobre os Refugiados

Eu diria que a grande maioria de nós, pessoas que não estão a viver directamente a realidade dos refugiados, dificilmente poderá ter acesso à ou às “verdades” por detrás deste fenómeno. E embora considere que toda a humanidade esteja implicada, de uma forma ou outra, neste processo, quando falo de quem esteja a viver directamente esta realidade, refiro-me a quem está lá, fisicamente, na linha da frente, como refugiado de guerra, migrante, funcionário ao serviço dos países que recebem, voluntário, jornalista ou simplesmente curioso. Acredito que até para estas pessoas, o que os seus olhos vêem, tem tantas interpretações quanto consciências. E consciência, bem ou mal, cada um vive com a sua e alimenta-a da forma como desejar.

Mas para mim, este é sobretudo um momento de outra verdade. Verdade, que estava escondida neste nosso modo “automatizado” de viver, em que só nos damos a conhecer, a nós e aos “nossos”, em tempos de crises internas, e aos outros, em tempos de crises colectivas.

A verdade sobre os refugiados? A única que me parece incontestável é a de que toda e qualquer pessoa apenas consegue dar o que tem em si mesma. E de repente, algumas pessoas só conseguem focar-se nos seus medos (“E se eles vêm cá para nos fazer mal? E se isto tudo for apenas um grande "complot" contra a Europa? E se nos tirarem o trabalho, casas e nos deixarem na miséria?”), outras apenas têm raiva e ódio para dar (“não são como eu, não são iguais ou parecidos comigo, não são, portanto, dignos do mesmo que eu, nem da minha compaixão”), outras negam a realidade e agem como se nada fosse (movimento alimentado por um desprezo, de resto, muito parecido com o ódio). Do outro lado, temos o grupo de pessoas que se transforma e transforma o mundo com o seu amor, solidariedade e capacidade inesgotável de valorizar a Vida. Pessoas que têm necessariamente em si, coragem, força e esperança para dar. Pessoas quem têm apenas um medo, o medo de um dia deixarmos de ser suficientemente “humanos” …

Se tivéssemos o azar das “profecias” cinematográficas, sobre o fim dos tempos, se realizarem, o que seria de nós? O que veríamos em nós? Temos pois, pessoas que se unem, ajudam e partilham o que têm em nome de uma sobrevivência colectiva. Temos pessoas que se juntam em grupos restritos de sobrevivência (genética, geográfica ou qualquer outro critério que consigam inventar), aniquilando ou desprezando quem consideram não pertencer. Outros, paralisados pelo medo, deixariam morrer crianças diante dos seus olhos e, quem sabe, deixar-se-iam morrer também.

A nossa verdade está na resposta a estas perguntas: De todas estas pessoas, quem é que gostaria de ser? Quem é que gostaria de ter por perto? E quem verdadeiramente é?


Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá", nas crónicas "Com Sentido...", edição de Setembro 2015.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Escolhas Educativas - Parte 3


O que os pais podem dar de mais precioso a um filho, são sem dúvida AMOR e RESPONSABILIDADE. Com isto, estão reunidas duas grandes condições para que a criança possa ser, na sua infância, e mais tarde, na vida adulta, uma pessoa madura, capaz de amar a si mesma e ao outro (com as respectivas empatias, solidariedade, inteligência emocional) e capaz de fazer escolhas que a permitam assumir a sua vida, para si mesma (enquadrando direitos e deveres no grupo a que pertence, e equilibrando o que cabe a si e o que cabe ao outro).

Vimos anteriormente (Escolhas educativas, parte 1 e parte 2) que a repressão, a força e a manipulação dificilmente nos levarão a esse objectivo. Não têm um efeito verdadeiramente educativo, os resultados são de curto prazo, e prejudicam a relação pais-filhos e a auto-estima da criança. Então, como fazer para educar um filho baseando a nossa actuação no respeito e na confiança?


1. Clareza nas intenções, regras e comportamento esperado

É fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança sabe qual é o comportamento "mais adequado" a assumir numa determinada situação. É também fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança já tem, em si, os recursos para o fazer. Por exemplo, só por volta dos 2 anos de idade é que a criança começa a integrar a noção de regra. Até lá, está apenas a tentar desvendar o misterioso e incómodo "NÃO". Por isso, formular regras elaboradas antes deste período, e esperar que a criança as cumpra, é irrealista. Até esta altura, devemos manter a simplicidade do permitido vs interdito. Depois, e gradualmente, podemos avançar para uma organização mais elaborada das regras, apresentando-as da seguinte forma:

  • O discurso deve ser, sempre que possível, formulado pela positiva (ver porquê aqui)
  • Usar as orientações e as regras numa vertente preventiva. Por exemplo, antes de ir ao supermercado com a criança, diga-lhe o que é que vão lá fazer e o que é que vai ser possível ou não fazer, com frases como: "vamos ao sítio x, para comprar coisas para a casa. Temos pouco tempo e por isso vou precisar da tua ajuda. Preciso que fiques perto de mim. Podes ajudar-me a pôr as coisas no carrinho, ajudar a lembrar-me das coisas que temos que comprar e ajudar-me a escolher os teus iogurtes. Podemos parar um bocadinho para veres as novidades na zona dos brinquedos, mas hoje, não vamos comprar nenhum. Combinado?". Neste exemplo, está a envolver a criança na tarefa, o que a vai ajudar a sentir-se parcialmente responsável pelo sucesso da saída. Para além disso, estará muito mais motivada e com vontade de colaborar. Sabe, à partida, que não vai comprar nenhum brinquedo, o que evita que essa frustração seja vivida no momento. No entanto, poderá ver o que há de giro, e quem sabe poderão comprá-lo, numa outra oportunidade.
  • Devemos avisar com antecedência as mudanças de actividade. Por exemplo, é frequente os pais chegarem à sala e dizerem "desliga a televisão porque vamos jantar". A criança que pode estar a meio do episódio, e que, muitas vezes, ainda não tem noção da hora de jantar, sente-se frustrada e injustiçada porque não compreende a arbitrariedade dos horários. Se por um lado, existem situações em que não é possível avisar com antecedência, por outro, é muito importante que quando isso seja possível, os pais o façam. É uma forma de demonstrar que existem horários, sim, mas que os pais compreendem o facto dos filhos terem o seu próprio tempo e que respeitam aquilo que estão a fazer. Por isso, é importante dizer coisas como "vamos jantar daqui a um quarto de hora. Isso quer dizer que, nessa altura,vais ter que desligar a televisão. Talvez seja melhor não começares a ver o episódio que se segue" ou "mais 10 minutos e vamos para casa. Talvez queiras aproveitar para andares, uma última vez, nas coisas que mais gostas aqui no parque".


2. Confiar no nosso filho
Na grande maioria das vezes, colocamo-nos numa espécie de campo oposto ao do nosso filho, como se tivéssemos que travar uma espécie de luta de poderes. Na realidade, é fundamental confiarmos na criança e expressarmos essa mesma confiança na sua capacidade de colaborar positiva e activamente, na estrutura familiar em geral, e connosco em particular. Dizer coisas como "estou a contar contigo para me ajudares na arrumação" ou "como estamos atrasados preciso da tua ajuda para sermos mais rápidos", permite dar responsabilidade à criança. Simultaneamente, estamos a reforçar a sua auto-estima e confiança.


3. Desenvolver uma comunicação genuína e emocional

É muito importante para a criança que os pais exprimam o que sentem perante os comportamentos dela. Mais do que fazer acusações, diga coisas como "depois de um dia de trabalho, sinto-me ainda mais cansada quando tenho que apanhar todos os teus brinquedos" ou "é muito frustrante para mim quando voltas a fazer uma coisa que eu te pedi para não fazeres". Desta forma, estará a ajuda a criança a perceber o impacto que as suas acções têm nos outros. Para além disso, estamos a ensiná-lhe a fazer o mesmo, e a aprender a perceber e expressar o que sente, relativamente aos comportamentos que os outros têm com ela.


4. Apresentar o que tem que ser feito, sob a forma de escolhas

Resulta muito bem, responsabilizar os nossos filhos pelas suas escolhas. Querer uma coisa, muitas vezes, significa abdicar de outras. E é importante deixar claro que são as escolhas da criança que farão a diferença. Se a criança não quer sair do banho porque está a brincar, mais do que ficar numa eterna insistência, é importante mostrar-lhe que tem que optar - "queres sair do banho e ver uns desenhos animados antes do jantar ou queres ficar a brincar e jantar sem ver os desenhos?". À medida que o seu filho for crescendo, as opções podem ser discutidas directamente com ele.


5. As famosas consequências
Apesar de todas as estratégias de prevenção, "idealmente", o nosso filho vai, ainda assim, assumir comportamentos que devem ser "trabalhados". Uma boa forma de intervir, e ajudar o seu filho a desenvolver a noção de responsabilidade, é através do uso das consequências. Mais do que a punição, esta estratégia educativa permite uma aprendizagem e desenvolvimento efectivos do nosso filho. As consequências podem ser naturais ou lógicas.
As consequências naturais são aquelas que acontecem independentemente da nossa acção. Por exemplo, depois de avisar algumas vezes que, a plasticina, não sendo guardada depois da utilização, seca, então é importante que os pais deixem que a acção natural das coisas aconteça. Se a criança não arrumou, deixamos que a plasticina seque. A aprendizagem dar-se-á de forma natural, quando a criança, querendo brincar, não consegue. Para não perder o seu efeito, é importante que os pais não comprem outra plasticina no imediato (isso seria assumir a consequência pela criança, e gera uma aprendizagem muito perigosa). É fundamental que os nossos filhos possam sentir na pele as consequências das suas escolhas. Podemos acompanhar a situação com alguma empatia, o que ajuda a criança a entender o valor protector das regras - "A tua plasticina secou? Por isso é que te expliquei que quando não a arrumamos depois de usar, ela seca. Não deve ser fácil para ti ver que já não dá para brincares com ela".
As consequências lógicas, são aquelas em que os pais fazem uma ligação lógica a algo que fica em prejuízo, devido ao comportamento da criança. Por exemplo, "pintaste a parede do teu quarto, agora vou ter que ficar a limpá-la e já não vamos poder ir ao parque". Também podemos, quando é possível, e a criança já tem idade para isso, criar consequências reparadoras - "pintaste a parede do quarto, agora, em vez de brincares a outras coisas, terás que ficar a limpá-la".
Na realidade, as consequências lógicas, podem ser vistas como uma forma de castigo saudável e ligado ao comportamento. Dizer à criança "pintaste a parede do quarto, agora vais ficar no teu quarto a pensar!" funciona como uma punição, que gera essencialmente zanga por parte da criança. Muitas vezes, esta não entende porque é que pintar a parede é um problema, nem o que é que isso tem a ver com ficar fechado no quarto. A consequência lógica, permite à criança atribuir-lhe um sentido de justiça que vai ser fundamental para a integração da aprendizagem, mais do que alimentar a zanga com os pais.

6. Outras estratégias

É importante ter em consideração que, em crianças mais pequenas, poderão existir situações em que a intervenção dos pais pode ter que ser mais física. Se a criança faz algo que a magoa ou magoa outra criança, tenta subir a uma janela, ou faz outra coisa perigosa, os pais devem impedi-la, pegando-a ao colo, retirando-a da situação ou agarrando as suas mãos ou pés. É muito importante agir sem agressividade, o objectivo é ajudá-la a controlar-se quando ela ainda não é capaz de o fazer por si mesma. 

Nas crianças mais crescidas, é importante conversar com elas em momentos em que ambos estejam mais calmos. Explorar e procurar soluções conjuntas para as situações difíceis e que se têm vindo a repetir, é importante. Assim cria-se um plano conjunto, com responsabilidade de ambas as partes. Isso ajuda a envolver a criança e a motivá-la mais para a colaboração. Perguntas como "o que é que se passou à bocado? Como é que te sentiste? O que achas que podemos fazer para que não volte a acontecer?" vão ajudar a encontrar um espaço comum de entendimento.

Não esquecer que, acima de tudo, os pais devem focar-se em trabalhar a cooperação dos filhos. E os filhos cooperam, quando se sentem ligados e em sintonia com os seus pais. Relações de poder e força tornam a criança mais dependente e separam emocionalmente, relações de confiança e respeito, autonomizam, aproximando emocionalmente. E este é o "paradoxo" que queremos nas nossas vidas.

Autora: Ana Guilhas
Artigo escrito para o Blog "As Viagens dos V's"

terça-feira, 14 de julho de 2015

Protejo-te porque não confio em ti?

Sobre-protecção ou a protecção necessária? Um artigo para reflectir...

"Recentemente, um pai dizia-se assustado, porque o colégio do filho (neste caso seguidor da pedagogia Waldorf) deixava as crianças subirem às árvores. Contudo, dizia conseguir compreender que era uma forma das crianças aprenderem com a queda. Reflectindo um pouco sobre esta questão, é fácil entender o registo em que nós, pais, ainda vivemos. Seja porque a deixamos subir para cair, seja porque não a deixamos de todo subir, assumimos à partida que a criança não consegue. Aparentemente, o sentimento que está na base da nossa escolha, enquanto educadores, é o de que a criança não é capaz. E assim lidamos com os nossos filhos, como se tivéssemos a certeza do seu fracasso ou incapacidade de viver determinadas situações."

Ler o texto na integra aqui
Publicado em Up To Kids

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Escolhas Educativas - parte 2

Evolução das Práticas Educativas

Hoje sabe-se que existem respostas melhores do que os castigos, gritos e humilhações. Sabe-se que os nossos filhos, sem uma autoridade salutar, poderão tornar-se adultos inseguros, com baixa auto-estima e/ou que tentam sistematicamente cumprir as expectativas de outras pessoas (perdendo a sua essência e a sua verdade pelo caminho). No entanto, ainda é muito frequente confundir-se autoridade e autoritarismo, respeito e medo. Dar uma "boa educação" ainda é, para alguns pais, criar filhos obedientes. Para algumas pessoas, o “bom filho” ainda é aquele que corresponde às expectativas dos pais.

Gradualmente, vai ganhando terreno uma visão, das relações em família, assente no respeito mútuo, na confiança, no investimento a longo prazo e na liberdade com regras e limites. São também algumas as sugestões para se chegar a uma forma de parentalidade mais alinhada com uma "nova consciência". Mas, comecemos pelo que já não queremos fazer. 

Gritos, palmadas e afins...

É preciso que os pais se consciencializem de que bons resultados e resultados imediatos, são coisas diferentes. Porque, inevitavelmente, se o que pretendemos são resultados imediatos, então o caminho faz-se pelo autoritarismo. Da mesma forma, se quisermos uma obediência “cega”, e se quisermos que os nossos filhos moldem os seus comportamentos por medo das consequências, o caminho de uma parentalidade autoritária é, sem dúvida, a escolha certa. Há no entanto, que estar consciente das consequências desta escolha.

Palmadas, gritos, punições e chantagem, são de eficácia a curto prazo. Na grande maioria das vezes, as crianças começam a procurar formas de continuar a fazer o mesmo, mas sem serem apanhadas. Outras crianças, só se limitam nas acções enquanto acreditam poder haver um castigo. Assim que já não há esse perigo, ninguém sabe verdadeiramente como vão agir (e podem colocar-se, inclusivamente, em situações de perigo). Na realidade, são crianças que não aprenderam o valor das suas escolhas, não desenvolveram a noção de responsabilidade e não aprenderam mecanismos de auto-regulação e de protecção de si-mesmos. 

A longo prazo, os pais que escolhem esta forma de educação ganham uma insegurança para toda a vida, a de nunca saberem exactamente com o que podem contar da parte dos filhos. Para estes pais, vai ficando cada vez mais difícil ver os seus filhos a crescer, e têm muita dificuldade em lhes dar liberdade. Na realidade, e no seu íntimo, não confiam no resultado das suas práticas educativas. Quanto mais a criança cresce neste registo, maiores as probabilidades de vir a viver uma adolescência "arriscada".

Acresce a isto, que as relações assentes em autoritarismo, afastam, mais do que aproximam. Filhos de pais autoritários, ainda que muitas vezes, mantendo-se num estado de grande dependência emocional dos pais (da qual, alguns, se vão tentar libertar na adolescência) sentem, simultâneamente, distanciamento afectivo. São crianças que partilham muito pouco dos seus receios, emoções e necessidades. Carregam o sentimento de não serem verdadeiramente amados.

Se, por exemplo, a palmada rapidamente interrompe uma birra (trocando-a pelo choro da dor física e/ou emocional), por outro, passa uma mensagem pouco óbvia para nós, mas muito significativa para a criança. Os nossos filhos aprendem que bater no outro é uma forma adequada de agir para solucionar determinadas situações. Aprendem que a agressão de uma pessoa mais forte sobre uma mais fraca é aceitável. E, por fim, aprendem que é normal agredirmos quem amamos (ou dizemos amar). Para além disso, os sentimentos vividos na situação são, da parte da criança, de tristeza, ressentimento, sentimentos mistos e ambivalentes de culpa e raiva, e por vezes, desejo de retaliação. Os pais, eles, são invadidos por outros tantos sentimentos, também eles pesados e penalizantes para si mesmos e para a relação. Há que ter presente, que sempre que batemos num filho, (re)colocamo-nos a nós mesmos, nas situações, do passado, em que nos bateram (ou vimos bater). Com toda a carga emocional que isso implica. 

Ainda assim, devo dizer que, os gritos e as palmadas não são motivo para que os pais se sintam de repente pessoas terríveis e que tenham que carregar uma culpa interminável (que também vai afectar a sua relação com os seus filhos). Devem sim, encarar esses momentos, como situações pontuais e oportunidades de aprendizagem. Há que assumir que aquela reacção, diz muito mais sobre os pais (e o seu estado emocional) no momento, do que propriamente sobre a criança.

A polémica palmada pedagógica...

Parece-me importante percebermos que existe como que uma gradação no que diz respeito à resposta educativa e relacional, que vai desde o não reagir à situação (que é o mesmo que não reagir à criança), passa pelo reagir de forma desadequada (pouco consciente e informada) e vai até ao agir o melhor que se consegue. Esta última, corresponde a uma resposta suficientemente boa para que a situação desbloqueie, seja ultrapassada e possa representar um crescimento para todos os elementos envolvidos.

Mesmo que isto seja difícil de aceitar, pior para o desenvolvimento emocional de uma criança, é a total ausência de reacção por parte dos pais. Crianças a quem não é colocado nenhum tipo de limites, de nenhuma forma, sofrem mais que crianças que recebam, pontualmente, uma palmada. Estes, não deixam de estar, naquele momento, a investir no seu filho, e mal ou bem, tentam fazer o melhor que podem. 

Não reagir a uma criança quando ela faz algo que sabe no seu íntimo não poder (e fá-lo precisamente para sentir que tem a seu lado adultos atentos e que a vão proteger de si mesma), é abandoná-la a um vazio afectivo extremamente desestruturante e perigoso. Parece-me que esta é a razão, pela qual se vêm, ainda, na área da saúde mental e pediatria, alguns defensores da "palmada pedagógica". Essa palmada, é dizer "eu estou aqui, mal ou bem, sou teu pai/mãe, e o que tu fazes afecta-me e envolve-me o suficiente a ponto de eu reagir com tamanha intensidade". Note-se que fazendo-o, não estamos perante uma resposta educativa adequada, apenas perante envolvimento, por oposição a um não envolvimento parental.

Pessoalmente, palmadas e gritos, apenas fazem sentido como reflexo da incapacidade dos pais de reagirem de forma diferente naquele momento, e como oportunidade de tomada de consciência para o desenvolvimento de outras formas de (re)agir. 

Note-se que contar até 100 e esperar para conversar com a criança mais tarde, quando todos se encontram mais calmos, não é considerada uma não reacção (antes pelo contrário).


A pergunta que agora se impõe, é...

Não devemos gritar, não devemos bater, então como é que se faz?! A resposta chega no próximo artigo, terceira e última parte deste tema, na qual desenvolveremos as estratégias de acção para a vivência das regras e das frustrações (aprendizagens fundamentais e estruturantes para a vida em família e para a vida adulta) de forma construtiva, respeitosa e mais harmoniosa.

Autora: Ana Guilhas
Texto escrito originalmente para o blog "As Viagens dos V's".

sábado, 13 de junho de 2015

Escolhas Educativas - Parte 1

Atrever-me-ia a dizer que os pais de hoje, têm uma dificuldade acrescida. Encontram-se em plena viragem dos modelos educativos. O papel dos pais está em transformação, assim como os critérios para as suas escolhas pedagógicas. Já não é suficiente para a maioria das pessoas fazer de uma determinada forma, só porque os seus pais e avós assim o fizeram. Hoje, felizmente, queremos perceber o que é melhor, que consequências (positivas ou negativas) as nossas escolhas têm para o bem estar presente e futuro dos nossos filhos. Isso é bom. Mas implica toda uma reorganização! Essa é a parte difícil!

Antes de mais, é importante saber-se que não existe nada mais protector para a estrutura psíquica humana que a vivência de um profundo e equilibrado amor. Isto quer dizer, que a forma como a família vai viver os sentimentos que os ligam entre si (e em particular aos filhos), vai ser central no processo educativo. Para um desenvolvimento saudável, a criança deve sentir que os pais a amam incondicionalmente, aconteça o que acontecer. O que na realidade não é o mesmo que deixá-la fazer tudo o que quer. Antes pelo contrário, é precisamente por a amarem e se preocuparem com ela, que fazem questão de a orientar (e ensiná-la a viver) num mundo que ainda só está a começar a conhecer.

Isto leva-nos a um segundo aspecto fundamental na parentalidade. Os pais devem estar conscientes do seu papel e de que, invariavelmente são os lideres legítimos da estrutura familiar. São (e é importante que sejam) as figuras de autoridade, que vão acompanhar e orientar as crianças (filhos) no seu processo de crescimento e conquistas. Fazem-no até que estes tenham aprendido, e desenvolvido o suficiente, as competências que lhes permitem começar eles mesmos a assumir estas funções. É por essa razão que não deixamos um bebé mexer numa faca, mas pedimos a um filho mais crescido que nos ajude a cortar o pão. Este é um exemplo simples, mas é válido para tarefas muito mais complexas e centrais como aprender a cuidar de si mesmo.

Um terceiro aspecto a ter em consideração, é o de que estamos a falar de pessoas. E como não podia deixar de ser, cada uma traz para a “equação” o seu próprio valor(es). A criança nasce com um temperamento muito próprio e, é fundamental que os pais aprendam a conhecê-la e a perceber o que é que resulta melhor para ela no equilíbrio amor/limites. É desta forma que se vai definir o tipo de relação que é estabelecida. Por outro lado, temos uma mãe e um pai, que carregam eles mesmos (à par com a suas personalidades) uma história, uma aprendizagem e referências educativas muito próprias. Também aí, é necessário encontrar um equilíbrio pai/mãe (que têm muitas vezes posições contrárias) e adaptar-se às adversidades de um quotidiano desafiante, que deixa pouco espaço para parar, analisar e construir coisas novas com serenidade.

Considerando estes três aspectos, cada família irá depois fazer as sua escolhas e criar o seu próprio modelo, de forma a cultivar o amor, o crescimento de todos os elementos e desta forma também, desenvolver maiores níveis de bem estar e harmonia familiar.

Autora: Ana Guilhas
Texto originalmente publicado em As Viagens dos V's

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Lado Bom dos Gritos!

"Porque ali, naquele momento, surge a oportunidade de olharmos para nós mesmos. Temos a oportunidade de perceber que algo está a retirar espaço em nós. E com isso, passamos a ter a possibilidade de transformar a situação. É preciso saber que o desejável não é termos pais que se conseguem conter no seu desconforto (até um dia…). O que se pretende, é que os pais não gritem porque estão suficientemente bem para não precisarem de o fazer (pelo menos não de forma sistemática)." Leia o texto na íntegra aqui


Texto originalmente publicado em Up To Lisbon Kids

segunda-feira, 25 de maio de 2015

8 Razões para não Sermos Pais Sedutores

"Nos dias que correm, fala-se muito de comunicação positiva com a criança e do exercício de uma parentalidade com maior respeito pelos filhos e pelas suas necessidades. A forma como os pais exercem o seu papel está, desde há cerca de 50/60 anos, em profunda transformação. O que, com tudo de bom que possa ter (e tem!), traz consigo algumas armadilhas."

Leia o texto na íntegra aqui.
Texto originalmente publicado na Up To Lisbon Kids

7 razões porque é que é tão difícil mudar!

Para todas as pessoas, e pais em particular, que estão a tentar mudar, deixo-vos aqui este texto publicado originalmente no meu facebook. Pode lê-lo também aqui.
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Porquê que reclamamos muito e mudamos pouco? Já pensou sobre isso? Porque é que às vezes temos este sentimento de desejo de mudança e logo de seguida reprimimo-lo com desculpas, razões e tudo o mais que nos ajude a justificar que continuemos “presos” a situações que não nos fazem bem, ou por vezes até, nos fazem mal. Muitos dos padrões que repetimos nas nossas vidas, são adquiridos nas relações precoces, com os nossos pais, outras vamos desenvolvendo ao longo da nossa vida, construindo fragilidades sobre fragilidades. De repente, percebemos que estamos presos. E acreditamos que já não conseguimos sair.

Porque é difícil mudar?
1.    Temos medo do desconhecido, do que vem a seguir. Mais ainda, medo de não se seguir nada e ficar um vazio. É, fundamentalmente, um problema de imaginação. Porque só conseguimos imaginar a partir do que já vivemos ou já existiu e não conseguimos visualizar algo novo e diferente dos nossos “velhos” padrões.
2.    Aceitar o novo, implica desistir do velho. E a verdade é que o velho, para nós, é também o seguro. Ainda que desagradável ou desconfortável, é seguro. Para algumas pessoas, isso é precioso. O que vem a seguir à decisão de mudança, é uma infinidade de possibilidades. Isso é o melhor do “novo”. É que é uma possibilidade de nos (re)conhecermos e nos (re)construirmos. Assim tenhamos nós a coragem para o fazer.
3.    Achamos que é mais fácil pôr uma coisa antiga a funcionar, do que aprender a “manejar” uma nova. A questão é que se fosse fácil, já estaria a funcionar. Se não dá sinais de melhorar, então talvez tenha chegado a hora de aceitar que é assim que vai continuar a estar - "avariado". Ter medo de não conseguir funcionar com o novo, é como deixar de provar alimentos, que nunca comemos antes, porque não sabemos se os vamos digerir bem.
4.    Por uma espécie de teimosia ou ingenuidade - “Estou há tantos anos a tentar mudar isto (sem sucesso), não vai ser agora que vou desistir”. No entanto, diz um ditado chinês que “insanidade, é repetir várias vezes a mesma coisa e esperar um resultado diferente”.
5.    Achamos que vamos ficar em défice ou perda. Porque não vamos receber daquela situação o que esperávamos receber. Para seguir em frente, é necessário aceitar que já não vamos retirar dali o que idealizámos. E como é difícil aceitar isso! Sentimos que saímos “de cena” com saldo negativo. Isto acontece porque estamos focados no que efectivamente não recebemos. A verdade é que tudo o que de bom e de mau foi vivido, não desaparece. Foi real e gerou sentimentos, emoções e aprendizagens. Estas, vêm connosco, assim como todas as memórias. Neste ponto de vista, estamos,“contas feitas”, sempre a ganhar.
6.    Ficar indefinidamente numa situação, ou num padrão que nos faz mal, é muitas vezes também, ter medo do sucesso. Ou porque achamos que não o merecemos, ou porque achamos que ter sucesso é “demasiada areia para o nosso camião”. Aqui, só uma boa dose de auto-conhecimento e de amor-próprio, podem ajudar.

7.    Porque achamos que somos mais fracos e impotentes, do que o que verdadeiramente somos. E quanto menos nos permitimos colocar-nos à prova, mais cresce este sentimento de incapacidade. Muitas vezes, só quando a própria vida decide lançar-nos um desafio é que descobrimos que afinal até somos capazes de mais. Muito mais!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Birras com Gritos Muito Intensos - como lidar com isso.

Antes de mais, é importante dizer que os gritos são uma manifestação frequente das birras. O grito, é na realidade uma manifestação da própria vida em si, de força, de intensidade, vitalidade e desejo de viver e ser livre. A verdade é que é para nós adultos, já "socializados" e obrigados desde cedo a controlar os nossos impulsos e manifestação emocionais, muito difícil gerir e acolher os gritos dos nossos filhos. Olhamos para os gritos como algo que incomoda, que perturba os outros e a nós mesmos. Algo intenso, que deve ser controlado desde logo. Na verdade, é uma questão cultural também. Noutros contextos culturais, os gritos fazem parte de rituais e festas. E, enquanto que por cá choramos baixinho, noutros países, um funeral sem gritos de dor bem audíveis, não é um funeral digno.

Ainda assim, não quer dizer que não possamos debruçar-nos sobre o assunto e tentar perceber se, efectivamente, é possível ou desejável fazer alguma coisa. Antes de mais, é importante começar pela prevenção (ler algumas estratégias aqui). Isso vai permitir diminuir a frequência das birras e, eventualmente,  reduzir a sua intensidade (esta última não é garantida). Em segundo lugar, é preciso entender a razão pela qual o seu filho escolhe especificamente os gritos intensos como "ponto forte" das suas birras. Podemos pôr algumas hipóteses: 

- É uma questão de temperamento da própria criança e está enquadrado nesta etapa das birras de forma natural.
- É resultado da forma de comunicação que tem em casa. Se estiver rodeado de uma comunicação muito agressiva e com muitos gritos, a criança exterioriza depois toda essa tensão gritando ela também. 
- É resultado da vivência das emoções na estrutura familiar. Por exemplo, pais que carregam emoções negativas e que as retraem no seu dia-a-dia, podem ver a criança manifestá-las no seu lugar (de forma mais descontrolada porque são demasiado pesadas para ela). Raiva, frustração e/ou depressões latentes nos pais, podem ser alguns exemplos. 
- A criança grita porque resulta. Isto quer dizer que os pais, de alguma forma ou cedem ao pedido (mesmo que seja muito raramente) ou ficam focados na criança (o que é um ganho secundário da birra). Sendo assim, mesmo que o processo ocorra de forma inconsciente na criança, ela tende a usar as estratégias que são, ainda que sem querer, reforçadas pelos pais.
- Os gritos tocam numa sensibilidade natural dos pais. Estes, reagem intensa e emocionalmente, fixando, ainda que sem querer, a criança naquele comportamento. Neste caso, quer dizer que a criança encontrou algo a que os pais ou um dos pais é particularmente sensível. Este processo é inconsciente para ambos. Por um lado, a criança sente que a mãe/pai reagem de forma diferente quando surgem os gritos. E da parte dos pais, a reacção é mais intensa precisamente por ter essa sensibilidade. A causa dessa sensibilidade normalmente pertence ao passado dos pais. O segredo está em perceber porque é que é tão difícil para os pais ouvir os gritos do seu filho. O que é que isso lhes recorda? Em quê que isso mexe com os adultos? Quando eram pequenos gritavam? Como reagiriam os seus próprios pais se gritasse daquela maneira? Tinham liberdade para expressar livre e intensamente a zanga e a frustração? Estes impulsos eram imediatamente reprimidos?

Há que referir que estas são algumas hipóteses, existem outras e servem apenas para que os pais possam acima de tudo perceber o que é que está em jogo naqueles momentos. Quando as causas são externas, então devem ser trabalhadas e mudadas de forma a libertar a criança de algo que não é dela. Aí passará a viver as birras de forma mais livre e dentro daquilo que lhe é natural (sim... as birras não desaparecem magicamente). Se a razão por detrás dos gritos for o temperamento da criança, e a forma como esta exterioriza a frustração, a zanga e/ou tristeza, então aí, a sugestão será ajudá-la a transformar essa forma de reagir, noutra mais "evoluída" e que a família possa aceitar melhor. 

As estratégias:
1. Aceitar a criança tal como ela é e entender que naquele momento, está a lidar com emoções que ainda não consegue gerir e que a deixam desestabilizada e/ou até descontrolada. Ou seja, evite gritar, insultar, ameaçar, castigar. 
2. Acolher a energia que ela está a libertar através dos gritos, choro, etc. Para isso é importante perceber o que é que aquele momento representa para nós também. 
3. Seja o que for que tenha decidido, proibido, negado à criança e que tenha desencadeado a situação, mantenha-se firme e não ceda. Não é isso que a criança precisa de si. Precisa sim de perceber que os pais podem ser firmes mas sem ficarem eles mesmos desestabilizados e agressivos. 
4. Diga-lhe que com gritos e choro não consegue entender o que ela está a dizer e que, por isso, vai esperar que ela se acalme para poderem conversar. Diga isto de forma firme mas calma e depois evite continuar a falar (isso alimenta a continuidade e intensidade do momento).
5. Fique por perto, mesmo que decida levá-lo para o quarto por exemplo, fique com ele. Mas não interaja com a criança até que esteja mais calma. 
6. Depois da criança estar calma, aí sim poderá conversar. Diga-lhe o que sentiu, e dê-lhe espaço para fazer o mesmo. Explique que quando está no momento da "birra" não consegue ajudá-lo e só pode esperar que se acalme. Que a birra não serve para que mude de ideias, mas que entende que seja a forma que tem de mostrar que está zangado. Diga-lhe que no entanto, existem outras maneiras de mostrar que se está zangado que podem ser melhores para todos.
7. No momento em que já é possível conversar com a criança, pode ser necessário dizer-lhe que a birra vai ter consequências. Estas devem ser lógicas e associadas ao acontecimento. Por exemplo, se a birra acontece de manhã porque a criança não quer desligar a televisão para ir para a escola, então pode fazer sentido que na manhã seguinte não haja televisão. Para que continue a haver, é importante que a criança faça a sua parte de a desligar na hora combinada. 

Desta forma, os pais vão ajudar a que a criança, gradualmente, encontre outras formas de se manifestar. Ao mesmo tempo, é importante entender que naquele momento ela ainda tem muita dificuldade em lidar com determinadas emoções e principalmente com a frustração. Mas se os pais não cederem, vai aprender que as consegue gerir cada vez melhor. Para isso, é também importante que os pais valorizarem os momentos em que os filhos conseguem acalmar-se e/ou sempre que estes usarem outras formas de agir.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Dica para pais perfeitos!


Muitos pais desabafam que, depois de muito ler e aprender, já sabem como é que devem agir perante alguns comportamentos dos seus filhos, mas que, ainda assim, em muitos momentos, não conseguem agir em conformidade.

1º - A crença de que é possível reagir sempre bem, ou da melhor forma, é utópica e muito pesada. É preciso aceitar em nós a imperfeição, pois isso é ser "perfeitamente humano"! Saber que os seus pais não são perfeitos e perceber assim, que também ela não precisa de o ser, é tremendamente libertador.

2º - Conhecimento (racionalidade) e acção são mediados por emoção. E mais do que saber como devemos agir, é importante cuidar do nosso próprio "sentir" como pais sim, mas principalmente como pessoas. Se não estamos emocionalmente bem, dificilmente teremos disponibilidade mental para aceitar, compreender e encontrar soluções para as diferentes situações.

3º - Um dos erros na forma como os pais reagem ao comportamento dos filhos, é o de se focarem mais no comportamento do que nas suas causas ou significado. Pois o mesmo acontece aqui. Mais do que o que fazemos, e como fazemos, é importante perceber de onde partem as nossas práticas. Estas, são consequência da forma como nos relacionar com as pessoas à nossa volta (o que inclui os nossos filhos). Ou seja, o segredo está em, mais do que usar o conhecimento para mudar os nossos comportamentos, usar esse conhecimento para nos conhecermos melhor a nós próprios e aos nossos filhos e assim mudarmos a forma como nos relacionamos. Isto porque se nos focarmos em transformar a relação, as nossas respostas não precisarão de ser pensadas e nunca estarão erradas. Serão sempre as respostas que a relação que temos nos permite dar.

Em suma, a questão não é se os pais agem sempre da melhor maneira perante os comportamentos dos filhos, mas sim, se se estão a relacionar com os seus filhos da melhor maneira.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Afinal o que são os "terrible twos"?

São já muitos os pais que ouviram falar nos "Terrible Twos". Uma fase, que diz-se, pode acontecer entre os 18 meses e os 3 anos de idade. Diz a literatura, que corresponde a um período em que a criança começa a desenvolver comportamentos de oposição, desafiando deliberadamente as solicitações dos pais. Diz-se também, que é normal e que praticamente todas as crianças passam por isso, ainda que de forma mais, ou menos suave. Alguns pais esperançosos, lançam o desafio ao universo dizendo "eu não acredito que as birras existam!" e atribuem as mesmas a erros de interpretação por parte dos pais, outros a falta de "pulso" e "limites".

Afinal o que são os "terríveis dois anos?" e serão assim tão temíveis?
Imagine o que é acordar de manhã e ter uma pessoa à sua volta a vesti-la, a escolher o seu pequeno almoço, a dizer-lhe para estar sossegado(a), para se despachar para não haver atrasos, a lavar-lhe os dentes, a pentear-lhe os caracóis (sim, sem dúvida um grande desafio!), a pô-lo(a) a fazer xixi (a horas certas), ou a trocar-lhe a fralda, enquanto tem expectativas de que tudo isso corra de forma tranquila e sem grande percalços. Aceitaria passivamente que lhe escolhessem a roupa? O que comer? O que fazer e como fazer? Acredite que se para o bebé, até esta altura, tudo isto fazia parte da rotina, agora, para o bebé criança, tudo mudou. Esta é uma fase de grande transformação para os nossos filhos, é um período muito desafiante tanto para eles como para nós. Por um lado, queremos vê-los crescer bem e saudavelmente, por outro, não queremos "perder" o nosso bebé. Da mesma forma, os nossos filhos sentem que estão a crescer e que têm cada vez mais poder sobre a sua própria vida, e são cada vez mais capazes de fazer coisas, e mais ainda, de dizer coisas (aceitar, recusar, escolher...). No entanto, percebem que isso não é fácil, nem sempre é promovido ou apoiado pelos pais e, também não deixam de querer continuar a ser o nosso bebé.

O segredo? O segredo passa por confiar e compreender. Primeiro confiar que ajudar o nosso filho a crescer não implica perder o nosso bebé, mas antes pelo contrário, corresponde a vê-lo a ganhar e conquistar cada vez mais coisas para si. Por outro lado, compreender que este processo não só não é fácil para ele, como vai desencadear uma série de conflitos internos, difíceis de gerir, e que isso, por vezes, vai desencadear momentos de grandes e intensas "birras".

Se eu confio e compreendo as necessidades do meu filho naquele momento, então o que é que eu faço? Dou-lhe aquilo que está a precisar. Maior autonomia. Então a estratégia passa por descobrir tudo aquilo que os nossos filhos já são capazes de fazer, tudo aquilo que não são capazes mas acreditam ser, e começar a atribuir tarefas e ensinar o que for possível. Comer sozinhos, escolher a roupa (ou parte), ajudar no supermercado, ajudar com pequenas tarefas, são apenas alguns exemplos que fazem toda a diferença. Com acompanhamento, ensinando e dando cada vez mais margem de manobra, as crianças sentem que as suas necessidades de autonomia (tão importantes nesta fase) estão a ser correspondidas e em certa medida "saciadas". Sentem também que o seu crescimento está a ser validado e que continuam a ser acompanhados. Crescer é afinal prazeroso e não implica perder a proximidade dos pais, e isso, é profundamente reconfortante.

No entanto, as receitas não são milagrosas, e por vezes, as emoções são muitas e a capacidade de as gerir ainda é pouca. É fundamental que se deixe sair a confusão, a zanga, a frustração, a tristeza, através de alguns momentos de intenso choro, que podem ocorrer a propósito das mais despropositadas coisas (pelos menos aos nossos olhos). O nosso papel, é estar lá, acompanhar, esperar, manter a mais doce das firmezas, e aguardar que o nosso filho permita, no final, aquele abraço reparador. Um abraço importante, mas que não aceita o comportamento a todo o custo e sem limites (mesmo que com o "descontrolo" da birra, não permito nunca que a minha filha me magoe), mas que compreende as emoções que o desencadearam. Depois da minha filha se acalmar, gosto de lhe dizer, "então, já te sentes melhor? Já te posso dar um abraço?".

Os "terríveis dois anos" são apenas mais um desafio no meio de tantos. Com serenidade e muito amor, podemos abrir espaço para descobrir o quanto esta fase pode ser tão saborosa. As conquistas dos nossos filhos, em grande medida, são também nossas. E nada mais delicioso do que ver os nossos bebés a crescer felizes, e mais ainda, a serem capazes de nos dizer isso mesmo, através das suas próprias palavras e acções.

Abraço,
Ana Guilhas, Psicóloga

sábado, 8 de novembro de 2014

Recomendação Especial - Workshop "Comunicar no Amor"

Tudo o que passamos aos nossos filhos, a forma como nos relacionamos e a forma como eles se relacionam com eles próprios e com o mundo, tem a ver com a forma como é vivida a comunicação em família. Por isso, fica aqui a recomendação de uma das minhas próximas actividades.
Até breve,


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Tranquilidade Começa nos Pais

Este post tem uma vertente um pouco diferente da habitual. Ainda assim, escrevo-o porque acredito muito sinceramente que é interessante e tem resultados excelentes na sua vida e no equilíbrio familiar.

Já lhe aconteceu pensar "logo agora que estou tão cansada é que vem esta birra?!" ou dizer "eu que já estou tão irritada e tu com esses comportamentos?!". Pois a questão é que é precisamente por se encontrar nesse estado, que o seu filho, apanhado no turbilhão de emoções e contagiado por elas, reage. Ele quer e precisa de sentir que os pais estão bem, estão seguros e que mesmo nos momentos difíceis, continuam a amá-lo. É tão simples e tão complexo quanto isto!

Uma das formas mais brilhantes e eficazes de reduzir a tensão familiar, as birras e algumas reacções intensas por parte dos nossos filhos, passa na realidade por nós, PAIS, estarmos também mais tranquilos, plenos e a sentir-nos cheios de energia (uma energia boa e equilibrada). Passa por outro lado, por aprendermos a focar-nos no que é realmente importante em cada momento que estamos a viver.

No dia 13 de Novembro, vou dar uma Sessão de Relaxamento em grupo para adultos no NaturAjna, em Almada. Quer começar por algum lado? Então este é mais um excelente passo no seu caminho! Conto consigo!

Abraço,




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Obrigar ou não o meu filho a partilhar?!

Faço aqui uma reflexão, a propósito de um texto que foi escrito por uma mãe, que afirma não obrigar o seu filho pequeno a partilhar, seja em que circunstância for (nem mesmo nas situações em que o bem é "público", como um escorrega ou baloiço num parque). Isto porque, aparentemente, esta mãe sente-se no dever de ensinar as outras crianças a esperar e a perceber que não podem te os objectos sempre que querem e como querem. Por outro lado, a autora alega que um adulto nunca seria obrigado a partilhar o seu telemóvel com alguém que desconhece e, como tal, não devemos obrigar uma criança a emprestar o que lhe pertence a não ser que ela assim o entenda.

Antes de mais, quando estou perante um desafio na educação da minha filha, a única coisa que tenho em conta é a aprendizagem e a importância que aquele momento pode ter para ela. Não me compete a mim estar a pensar no quanto as outras crianças ficam mimadas ou deixam de ficar, se a minha filha lhes emprestar as suas coisas. Isso é, e deverá ser, responsabilidade das suas famílias. Ainda assim, acredito que esta discussão é muito interessante. Os tempos estão a mudar e são muitos os pais que pensam sobre estas coisas. Não queremos continuar a fazer como se fazia no tempo dos nossos avós ou pais, no entanto, não temos ainda interiorizado um novo modelo e, aí, ficamos confusos e por vezes acabamos por cair num dos extremos.

Ainda assim, a minha opinião difere da desta autora, em duas dimensões que penso serem muito importantes. Primeiro, uma criança não é um adulto e como tal, deve ser vista pelas características que a sua condição de criança lhe dá. Encarar a criança como um adulto em ponto pequeno é voltar muitos séculos atrás na forma como a infância é encarada. É fácil perceber estas diferenças. Para isso, basta pensarmos que se eu for a um café, não começo imediatamente a falar e/ou a interagir com as pessoas que estão à minha volta. E, salvo algo que saia da normalidade, os adultos não vêem os "estranhos" na rua como potenciais amigos (não estou a avaliar se isso é bom ou mau). Já os nossos filhos, se virem outra criança, ficam normalmente curiosos e com vontade de interagir. Mais timidamente ou menos timidamente, uma outra criança, para si, é sempre um potencial de "brincadeira". É por essa razão que, desejar partilhar ou não os brinquedos,  ganha uma enorme relevância. A forma como vai resolver a situação que está a viver, vai influenciar a forma como aprende a relacionar-se com os pares. Para mim, coloca-se aqui então outra questão. Não cabe aos pais ajudar a criança na vivência dos vários desafios que se lhe são colocados nestes primeiros anos da vida? 

E o que é ajudar? Para muitos pais, ajudar é decidir no lugar da criança e, determinar o comportamento adequado. Para outros, será deixar que a criança passe pelo processo sozinha e não intervêm independentemente da escolha que faça. Outros, ajudarão a criança a pensar sobre o(s) significado(s) do momento e sobre as escolhas que pode fazer (com as suas respectivas vantagens e consequências). 

Por exemplo, a minha filha está no parque a brincar com a sua boneca e outra menina aproxima-se e tenta mexer nessa mesma boneca. A reacção imediata, considerando o seu temperamento e os seus dois anos, é afastar a boneca e dizer "não mexe, é minha". Perante esta situação, o que faria eu? Primeiro explicava à menina que se aproximou: "sabes, a boneca é dela e ela gosta mesmo muito desta boneca. Por isso é difícil para ela emprestá-la". Desta forma, estou também a dizer à minha filha que não condeno a reacção dela e até a compreendo. Isso ajuda a que não fique tão defensiva e a pensar que alguém lhe vai tirar a boneca da mão sem que ela o queira. Mas não me fico por aqui, pois cabe a mim também mostrar-lhe porque é que emprestar a boneca poderia ser interessante. É por essa razão que lhe diria algo do género "gostavas de brincar com a menina?" e se ela me respondesse que sim, responder-lhe-ia "para poderem brincar juntas e divertirem-se as duas é importante que a menina também possa brincar com as tuas coisas". A reacção de partilha pode até não ser imediata (normalmente a A. escolhe emprestar um brinquedo que não seja tão especial). Mas a verdade é que ajudo-a a pensar sobre a situação e a ver que o que é dela, continuará a sê-lo, mesmo que o empreste por uns momentos. E que, por outro lado, emprestar permite que não esteja a brincar sozinha, poderá divertir-se mais e ainda fazer uma "nova amiga". Se a resposta for um belo e redondo "não, quero brincar sozinha" (o que às vezes acontece), então não obrigo. Limito-me a dizer à outra criança que naquele dia ela está com vontade de brincar sozinha e que talvez noutro dia seja diferente. E pronto, respeito.

Obrigo a partilhar? Não. Não quando o objecto é propriedade dela. Se o fizesse, estaria a dizer-lhe que o que é dela num momento pode deixar de o ser noutro. Se eu decido no lugar dela, então estou a agir como se o uso do brinquedo ou do objecto em causa, fosse um direito meu ou da outra criança. Assim estaria a confirmar-lhe os seus receios. 

A segunda questão, é que considero diferente (e acho importante que a minha filha aprenda a fazê-lo também), o que é propriedade da minha filha e o que é público. Porque neste último caso, para mim, a conversa fica muito diferente. Acho que é fundamental ensinar uma criança que há objectos que são dela e objectos que são de todos os meninos que estão ali (que é o caso dos parques, creche, etc.). Se quer estar sentada no cimo ou na ponta do escorrega, impedindo outros meninos de o utilizarem, então explico que tem que sair e dar passagem. Se estiver num carrinho durante muito tempo, estando outra criança à espera, explico que poderá andar mais um bocadinho mas que já está uma criança à espera e que, como tal, seria interessante pensar em experimentar outros brinquedos. Quando possível, pode-se sugerir que ela própria defina um certo número de voltas no carro ou de elevações no baloiço, antes de o passar para outra criança. Se no final se recusar a sair, explico que tem mesmo que ser, explico porquê (se todos os meninos ficassem muito tempo nos brinquedos, então ela também não teria conseguido usá-lo) e tiro-a, tentando ser firme mas sem ser brusca (é normal que seja difícil para uma criança acabar com um momento que lhe está a dar prazer).

Partilhar é bom porque é também uma forma de entrar em relação com o outro e aprender a respeitar a sua presença. É sem dúvida uma aprendizagem importante para os nossos filhos, temos é que saber também nos, respeitá-los nesse processo. Apenas isso.

Um abraço daqui deste lado,
Ana Guilhas
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Poderão ler o texto original aqui.
Existe uma versão portuguesa aqui.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Compreender e lidar com o ciúme entre irmãos

Quando dizemos que "um irmão é um presente que se dá a um filho" estamos, naturalmente, a simplificar e a idealizar uma realidade que, a bem da verdade, normalmente é sentido como "presente envenenado". Se pensarmos bem, com a chegada de um irmão, a criança vê o seu "reino" ameaçado, quando uma criatura pequenina, enrugadinha e que (diga-se de passagem), numa fase inicial come, dorme, chora e pouco mais, se vem instalar na sua casa e pior, nos braços da sua mãe! Antes do nascimento do irmão, são muitas as pessoas que lhe dizem "agora vais ter um mano para brincar" e, na sua fantasia, a criança imagina que vai nascer um irmão prontinho para a brincadeira. E assim, a relação começa logo marcada por uma grande desilusão.
Este ser que é um estranho, inicialmente, ainda que activando na criança já alguns receios (p.e. perder a mãe e o pai, perder a exclusividade, perder a propriedade dos seus brinquedos e roupas),  pode até beneficiar de um enamoramento inicial. Fase em que a "guerra", ainda não foi formalmente declarada. Depois, por vezes de forma gradual, outras de forma mais violenta, surgem os primeiros sinais de desconforto, com as regressões, birras, choros e agressividade com o recém chegado. Ainda assim, justiça seja feita, depois de ultrapassado o reboliço "inicial" (que pode durar alguns tempo), criam-se as condições para que se manifestem todas as coisas boas que um irmão pode trazer à vida de uma criança, em termos de aprendizagem, cumplicidade e companheirismo. Mas primeiro, há que ultrapassar as dificuldades.

Antes de intervir, compreender
Com a chegada de um irmão, "baralham-se os amores" e, por essa razão, inicialmente, mais do que gerir a relação, será importante ensinar os seus filhos a lidarem com as suas próprias emoções. As queixas dos seus filhos, por mais estranhas ou afastadas da realidade que lhe pareçam, são formas dele exprimir o que sente e, principalmente, os medos que o perturbam naquele momento. Por essa razão, é importante que as oiça, e que as considere como válidas, reagindo com empatia. Durante estes períodos de "crise", é muito importante que escute com particular atenção para que possa ajudar o seu filho a elaborar, ao seu ritmo, esta nova realidade.
Hoje sabe-se que os sentimentos são sempre melhores manifestos do que reprimidos. No entanto, quando ralhamos, argumentamos ou pressionamos uma criança a deixar de ter determinados comportamentos (de agressividade por exemplo), estamos precisamente a levá-la a reprimir a manifestação e não o sentimento que lhe é subjacente. Este tende até a intensificar-se. Por outro lado, sempre que fazemos juízos de valor acerca da forma como a criança está a reagir, punimos e/ou censuramos, estamos a atingir a criança na sua auto-estima, o que virá confirmar os seus receios de que está a "perder" o amor dos seus pais.
Alguns autores, consideram que a rivalidade entre irmãos, se deve a uma ameaça à sua individualidade. "Eu devo ser como sou, ou devo ser como o meu irmão?", "se formos diferentes, seremos igualmente amados?" são algumas das questões que, ainda que não seja de forma consciente, inquietam a criança. Respeitar as diferenças e ajudar os seus filhos a desenvolver a sua individualidade terá um papel muito importante no processo de aceitação. Cada um é, e deve ser, como é! Se o seu filho sentir que ser ele próprio não é bom e que, o melhor é ser como o irmão, vai, inicialmente, tentar mudar. Deste movimento podem surgir as regressões como por exemplo, pedir chucha, gatinhar ou querer voltar ao biberão, ou a imitação de gostos, brincadeiras, entre muitas outras coisas. Com o fracasso da tentativa de ser como o irmão (porque de facto não é possível, nem desejável) vem a zanga, a frustração e a rejeição. O ideal será então que os pais reforcem as diferenças, mostrando que todas as formas de ser, sexo e idades, são importantes e têm lugar na família. Mostre que essas diferenças são precisamente o que torna a família especial, pois assim, ser como ele é, é ser especial. Ultrapassar os ciúmes de um irmão corresponde a uma conquista gradual de auto-estima, segurança e individualidade. A criança percebe que é amada como é, e independentemente do que faça. E pode, a partir daí, passar a amar livremente e sem medos este pequeno "invasor" que, rapidamente, se pode tornar no seu melhor e mais especial amigo.

Conselhos para lidar com o ciúme
1. Escute sempre as queixas do seu filho de coração aberto, sem julgamentos e agindo de forma empática. Diga coisas como "percebo que estejas triste, a mamã tem estado muito tempo com o mano e tu gostarias que pudesse estar esse tempo todo contigo também" e "compreendo que seja muito chato ter um irmão mais novo". Note-se que dizer "ter um irmão é chato", é diferente de dizer "o teu irmão é chato".
2. Nunca tome partido nos conflitos e evite interferir. Se não for mesmo possível, então separe-os. Não com forma de castigo mas para os levar a fazer actividades diferentes. Se se tiverem magoado, então envolva os dois na reparação de igual forma.
3. Não condene o mais velho por ter uma atitude hostil ou exprimir sentimentos negativos. Eu sei que é difícil resistir à tendência fortemente enraízada para dizer coisas como "isso é feio!", "não digas isso do teu irmão que ele gosta tanto de ti", "temos que gostar dos irmãos e tratar bem deles", etc. Ao invés disso, experimente "traduzir" as acções, revelando os sentimentos que estão por detrás do comportamento, usando frases como "compreendo que estejas irritado porque o teu irmão está a estragar a tua brincadeira" ou "vejo que estás zangado porque o teu irmão está a precisar da atenção da mamã", "se neste momento não te apetece brincar com o teu irmão, não brinques".
4. Não tente, de forma alguma, convencê-lo que gosta mais do irmão do que o que pensa. o seu filho está zangado e é só nisso que está focado. Se tentar convencê-lo do contrário, vai fazê-lo sentir-se culpado e isso pode agravar ainda mais a situação.
5. Para lidar com as regressões, promova actividades com o mais velho que estejam de acordo com a sua idade (brincar com os amigos, fazer jogos mais complexos e que lhe dêem prazer, ir passear só com o pai ou só com a mãe).
6. Se o seu filho acha que o irmão está a ser beneficiado relativamente a alguma coisa, não negue. É assim que ele está a sentir a situação e, para já, não consegue analisá-la sob outro ponto de vista. A negação só vai aumentar o sentimento de injustiça e incompreensão. Explique apenas que as coisas não são, nem têm que ser sempre feitas de forma igual e que, isso nada tem a ver com o que sentimos pelas pessoas. Pode dizer coisas como "quando nasceste também recebeste muitos presentes como o teu mano está a receber. Não sei se foram mais, se foram menos. Só sei que foram muitos, muitos" e "é chato quando sentimos que estamos a ser prejudicados. Eu lembro-me de sentir isso quando era pequenina".
7. Para o ajudar a lidar com as diferenças e respectivas vantagens e desvantagens, pode dar exemplos que o ajudem a perceber que também ele já viveu as etapas pelas quais o irmão está agora a passar. Alguns exemplos seriam "as pessoas gostam muito de olhar e falar com os bebés na rua. Quando tinhas a idade do teu irmão também era assim contigo", "quando eras pequenino, não podias brincar no parque como fazes agora. Só podias passear no carrinho como o teu irmão".
8. Promova a individualidade e diferença nos seus filhos. Dê exemplos de formas de ser diferentes como "o papá adora lavar o cabelo. Já eu sou como tu, não gosto nada". Evite comprar roupas iguais ou a combinar. Quando já for possível, peça para que sejam eles a escolher e ajude-os a fazê-lo de acordo com os seus gostos individuais. Se possível, evite as heranças "passivas" de roupa e brinquedos. Pergunte ao mais velho o que é que já não quer para ele e que queira dar ao mais novo. Depois, confirme se o mais novo o quer receber ou se interessa.
9. Se os níveis de agressividade são muito intensos, então pense em ajudar o seu filho a desenvolver uma boa auto-estima e auto-confiança e leve-o para actividades ao ar livre e físicas que o vão ajudar a descarregar alguma energia.

Do lado dos pais
Lembre-se de como foi a sua infância. Muito da forma como reagimos aos ciúmes dos nossos filhos, passa pelo que nós próprios experienciámos em criança. Foi filho/a único/a ou tem irmãos? Tem tendência para defender o mais velho? O mais novo? Irrita-se e desvaloriza as queixas? Age passivamente ou é demasiado interventivo/a? O que é que sente em cada um dos momentos de ciúme com que é confrontado/a? Espreite dentro de si mesmo/a. Depois de encontrar estas respostas, tente separar o que é seu e o que é dos seus filhos. Cada um deles é um ser único e especial e vão viver a existência de um irmão de forma igualmente única e especial.