segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Verdade Sobre os Refugiados

Eu diria que a grande maioria de nós, pessoas que não estão a viver directamente a realidade dos refugiados, dificilmente poderá ter acesso à ou às “verdades” por detrás deste fenómeno. E embora considere que toda a humanidade esteja implicada, de uma forma ou outra, neste processo, quando falo de quem esteja a viver directamente esta realidade, refiro-me a quem está lá, fisicamente, na linha da frente, como refugiado de guerra, migrante, funcionário ao serviço dos países que recebem, voluntário, jornalista ou simplesmente curioso. Acredito que até para estas pessoas, o que os seus olhos vêem, tem tantas interpretações quanto consciências. E consciência, bem ou mal, cada um vive com a sua e alimenta-a da forma como desejar.

Mas para mim, este é sobretudo um momento de outra verdade. Verdade, que estava escondida neste nosso modo “automatizado” de viver, em que só nos damos a conhecer, a nós e aos “nossos”, em tempos de crises internas, e aos outros, em tempos de crises colectivas.

A verdade sobre os refugiados? A única que me parece incontestável é a de que toda e qualquer pessoa apenas consegue dar o que tem em si mesma. E de repente, algumas pessoas só conseguem focar-se nos seus medos (“E se eles vêm cá para nos fazer mal? E se isto tudo for apenas um grande "complot" contra a Europa? E se nos tirarem o trabalho, casas e nos deixarem na miséria?”), outras apenas têm raiva e ódio para dar (“não são como eu, não são iguais ou parecidos comigo, não são, portanto, dignos do mesmo que eu, nem da minha compaixão”), outras negam a realidade e agem como se nada fosse (movimento alimentado por um desprezo, de resto, muito parecido com o ódio). Do outro lado, temos o grupo de pessoas que se transforma e transforma o mundo com o seu amor, solidariedade e capacidade inesgotável de valorizar a Vida. Pessoas que têm necessariamente em si, coragem, força e esperança para dar. Pessoas quem têm apenas um medo, o medo de um dia deixarmos de ser suficientemente “humanos” …

Se tivéssemos o azar das “profecias” cinematográficas, sobre o fim dos tempos, se realizarem, o que seria de nós? O que veríamos em nós? Temos pois, pessoas que se unem, ajudam e partilham o que têm em nome de uma sobrevivência colectiva. Temos pessoas que se juntam em grupos restritos de sobrevivência (genética, geográfica ou qualquer outro critério que consigam inventar), aniquilando ou desprezando quem consideram não pertencer. Outros, paralisados pelo medo, deixariam morrer crianças diante dos seus olhos e, quem sabe, deixar-se-iam morrer também.

A nossa verdade está na resposta a estas perguntas: De todas estas pessoas, quem é que gostaria de ser? Quem é que gostaria de ter por perto? E quem verdadeiramente é?


Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá", nas crónicas "Com Sentido...", edição de Setembro 2015.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cuidar de quem cuida dos nossos filhos

"Dizemos frequentemente que as crianças mudaram, mas ainda que isso possa ser, em parte, verdade, na realidade fomos nós, adultos, que passámos a ver a infância com outros olhos. Fomos nós que, revendo-nos em criança e perspectivando o nosso futuro, passámos a desejar mais e melhor.
Desta transformação nasceu uma sede de conhecimento, uma necessidade de tornar consciente o que se fazia por instinto, a ambição de desvendar os “segredos” dos nossos filhos, e de dominar as estratégias para o “perfeito” desenvolvimento da criança" Continuar a ler

Autora: Ana Guilhas
Publicado em Up To Kids

sábado, 22 de agosto de 2015

Juízes, Advogados e Carrascos


O Ser Humano vem ao mundo como um Ser genuíno, verdadeiro na sua essência, nas suas necessidades e desejos. Está programado biologicamente para o sucesso, para a sobrevivência, para a vida. Come, chora, grita e sente uma necessidade "básica" de ser profundamente amado. A sua inteligência biológica sabe que a sua sobrevivência está dependente de ser desejado, aceite e, consequentemente, protegido e cuidado pelos seus progenitores. Sabe também, à partida, que vai ter que fazer algumas concessões, ainda que isso possa ter custos muito elevados. 

Vem também dotado de um potente e extremamente complexo aparelho psíquico, que o distingue dos outros animais e determina a sua existência psicológica (muito para além da sua existência física). É também esse aparelho que assegura, simultâneamente, a função de sobrevivência, e a condenação ou a absolvição, numa vida de julgamento permanente. 

Desde logo, os olhos do bebé confundem-se com os olhos da sua mãe (até acredita, inicialmente, que ele e ela são um só). Mas se os seus olhos são puros, os da mãe dificilmente o serão. Esta mãe, carrega em si mesma o amor (ou a falta dele) que um dia viveu como filha, os fantasmas, os medos, as expectativas e todas as verdades, meias verdades e mentiras que assumiu para si mesma ao longo de vários anos de vida. E é com estes olhos, por vezes já muito sofridos, entristecidos, outras vezes esperançosos e cheios de amor, que as primeiras verdades do bebé se encontram. E é aqui que, o seu aparelho psíquico, começa a construir o seu sistema judicial interior. Começa a recrutar os seus juízes, advogados, imprime em si mesmo as (suas) primeiras "Leis da Vida". 

De onde vêm estas Leis? Como é construído o seu código? Até que ponto representa genuinamente a sua verdade? Até que ponto está em sintonia com a sua "Constituição"? Podemos até acreditar, ou tentar fazer parecer, que este tribunal serve para avaliar os outros - o que fazem, o que são, o que merecem de nós. Mas, na realidade, existe um, e um só, réu permanente, e é o próprio. Quanto mais duro o tribunal, maiores serão as nossas penas. Mais tempo viveremos condenados e aprisionados em nós mesmos. Longe, muito longe (pensamos nós) da pureza, do impulso criador e do desejo de um amor que cuida, protege e nutre, com que chegámos a esta vida.

Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá", nº 33.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Escolhas Educativas - Parte 3


O que os pais podem dar de mais precioso a um filho, são sem dúvida AMOR e RESPONSABILIDADE. Com isto, estão reunidas duas grandes condições para que a criança possa ser, na sua infância, e mais tarde, na vida adulta, uma pessoa madura, capaz de amar a si mesma e ao outro (com as respectivas empatias, solidariedade, inteligência emocional) e capaz de fazer escolhas que a permitam assumir a sua vida, para si mesma (enquadrando direitos e deveres no grupo a que pertence, e equilibrando o que cabe a si e o que cabe ao outro).

Vimos anteriormente (Escolhas educativas, parte 1 e parte 2que a repressão, a força e a manipulação dificilmente nos levarão a esse objectivo. Não têm um efeito verdadeiramente educativo, os resultados são de curto prazo, e prejudicam a relação pais-filhos e a auto-estima da criança. Então, como fazer para educar um filho baseando a nossa actuação no respeito e na confiança?


1. Clareza nas intenções, regras e comportamento esperado

É fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança sabe qual é o comportamento "mais adequado" a assumir numa determinada situação. É também fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança já tem, em si, os recursos para o fazer. Por exemplo, só por volta dos 2 anos de idade é que a criança começa a integrar a noção de regra. Até lá, está apenas a tentar desvendar o misterioso e incómodo "NÃO". Por isso, formular regras elaboradas antes deste período, e esperar que a criança as cumpra, é irrealista. Até esta altura, devemos manter a simplicidade do permitido vs interdito. Depois, e gradualmente, podemos avançar para uma organização mais elaborada das regras, apresentando-as da seguinte forma:

  • O discurso deve ser, sempre que possível, formulado pela positiva (ver porquê aqui)
  • Usar as orientações e as regras numa vertente preventiva. Por exemplo, antes de ir ao supermercado com a criança, diga-lhe o que é que vão lá fazer e o que é que vai ser possível ou não fazer, com frases como: "vamos ao sítio x, para comprar coisas para a casa. Temos pouco tempo e por isso vou precisar da tua ajuda. Preciso que fiques perto de mim. Podes ajudar-me a pôr as coisas no carrinho, ajudar a lembrar-me das coisas que temos que comprar e ajudar-me a escolher os teus iogurtes. Podemos parar um bocadinho para veres as novidades na zona dos brinquedos, mas hoje, não vamos comprar nenhum. Combinado?". Neste exemplo, está a envolver a criança na tarefa, o que a vai ajudar a sentir-se parcialmente responsável pelo sucesso da saída. Para além disso, estará muito mais motivada e com vontade de colaborar. Sabe, à partida, que não vai comprar nenhum brinquedo, o que evita que essa frustração seja vivida no momento. No entanto, poderá ver o que há de giro, e quem sabe poderão comprá-lo, numa outra oportunidade.
  • Devemos avisar com antecedência as mudanças de actividade. Por exemplo, é frequente os pais chegarem à sala e dizerem "desliga a televisão porque vamos jantar". A criança que pode estar a meio do episódio, e que, muitas vezes, ainda não tem noção da hora de jantar, sente-se frustrada e injustiçada porque não compreende a arbitrariedade dos horários. Se por um lado, existem situações em que não é possível avisar com antecedência, por outro, é muito importante que quando isso seja possível, os pais o façam. É uma forma de demonstrar que existem horários, sim, mas que os pais compreendem o facto dos filhos terem o seu próprio tempo e que respeitam aquilo que estão a fazer. Por isso, é importante dizer coisas como "vamos jantar daqui a um quarto de hora. Isso quer dizer que, nessa altura,vais ter que desligar a televisão. Talvez seja melhor não começares a ver o episódio que se segue" ou "mais 10 minutos e vamos para casa. Talvez queiras aproveitar para andares, uma última vez, nas coisas que mais gostas aqui no parque".


2. Confiar no nosso filho
Na grande maioria das vezes, colocamo-nos numa espécie de campo oposto ao do nosso filho, como se tivéssemos que travar uma espécie de luta de poderes. Na realidade, é fundamental confiarmos na criança e expressarmos essa mesma confiança na sua capacidade de colaborar positiva e activamente, na estrutura familiar em geral, e connosco em particular. Dizer coisas como "estou a contar contigo para me ajudares na arrumação" ou "como estamos atrasados preciso da tua ajuda para sermos mais rápidos", permite dar responsabilidade à criança. Simultaneamente, estamos a reforçar a sua auto-estima e confiança.


3. Desenvolver uma comunicação genuína e emocional

É muito importante para a criança que os pais exprimam o que sentem perante os comportamentos dela. Mais do que fazer acusações, diga coisas como "depois de um dia de trabalho, sinto-me ainda mais cansada quando tenho que apanhar todos os teus brinquedos" ou "é muito frustrante para mim quando voltas a fazer uma coisa que eu te pedi para não fazeres". Desta forma, estará a ajuda a criança a perceber o impacto que as suas acções têm nos outros. Para além disso, estamos a ensiná-lhe a fazer o mesmo, e a aprender a perceber e expressar o que sente, relativamente aos comportamentos que os outros têm com ela.


4. Apresentar o que tem que ser feito, sob a forma de escolhas

Resulta muito bem, responsabilizar os nossos filhos pelas suas escolhas. Querer uma coisa, muitas vezes, significa abdicar de outras. E é importante deixar claro que são as escolhas da criança que farão a diferença. Se a criança não quer sair do banho porque está a brincar, mais do que ficar numa eterna insistência, é importante mostrar-lhe que tem que optar - "queres sair do banho e ver uns desenhos animados antes do jantar ou queres ficar a brincar e jantar sem ver os desenhos?"À medida que o seu filho for crescendo, as opções podem ser discutidas directamente com ele.


5. As famosas consequências
Apesar de todas as estratégias de prevenção, "idealmente", o nosso filho vai, ainda assim, assumir comportamentos que devem ser "trabalhados". Uma boa forma de intervir, e ajudar o seu filho a desenvolver a noção de responsabilidade, é através do uso das consequências. Mais do que a punição, esta estratégia educativa permite uma aprendizagem e desenvolvimento efectivos do nosso filho. As consequências podem ser naturais ou lógicas.
As consequências naturais são aquelas que acontecem independentemente da nossa acção. Por exemplo, depois de avisar algumas vezes que, a plasticina, não sendo guardada depois da utilização, seca, então é importante que os pais deixem que a acção natural das coisas aconteça. Se a criança não arrumou, deixamos que a plasticina seque. A aprendizagem dar-se-á de forma natural, quando a criança, querendo brincar, não consegue. Para não perder o seu efeito, é importante que os pais não comprem outra plasticina no imediato (isso seria assumir a consequência pela criança, e gera uma aprendizagem muito perigosa). É fundamental que os nossos filhos possam sentir na pele as consequências das suas escolhas. Podemos acompanhar a situação com alguma empatia, o que ajuda a criança a entender o valor protector das regras - "A tua plasticina secou? Por isso é que te expliquei que quando não a arrumamos depois de usar, ela seca. Não deve ser fácil para ti ver que já não dá para brincares com ela".
As consequências lógicas, são aquelas em que os pais fazem uma ligação lógica a algo que fica em prejuízo, devido ao comportamento da criança. Por exemplo, "pintaste a parede do teu quarto, agora vou ter que ficar a limpá-la e já não vamos poder ir ao parque". Também podemos, quando é possível, e a criança já tem idade para isso, criar consequências reparadoras - "pintaste a parede do quarto, agora, em vez de brincares a outras coisas, terás que ficar a limpá-la".
Na realidade, as consequências lógicas, podem ser vistas como uma forma de castigo saudável e ligado ao comportamento. Dizer à criança "pintaste a parede do quarto, agora vais ficar no teu quarto a pensar!" funciona como uma punição, que gera essencialmente zanga por parte da criança. Muitas vezes, esta não entende porque é que pintar a parede é um problema, nem o que é que isso tem a ver com ficar fechado no quarto. A consequência lógica, permite à criança atribuir-lhe um sentido de justiça que vai ser fundamental para a integração da aprendizagem, mais do que alimentar a zanga com os pais.

6. Outras estratégias

É importante ter em consideração que, em crianças mais pequenas, poderão existir situações em que a intervenção dos pais pode ter que ser mais física. Se a criança faz algo que a magoa ou magoa outra criança, tenta subir a uma janela, ou faz outra coisa perigosa, os pais devem impedi-la, pegando-a ao colo, retirando-a da situação ou agarrando as suas mãos ou pés. É muito importante agir sem agressividade, o objectivo é ajudá-la a controlar-se quando ela ainda não é capaz de o fazer por si mesma. 

Nas crianças mais crescidas, é importante conversar com elas em momentos em que ambos estejam mais calmos. Explorar e procurar soluções conjuntas para as situações difíceis e que se têm vindo a repetir, é importante. Assim cria-se um plano conjunto, com responsabilidade de ambas as partes. Isso ajuda a envolver a criança e a motivá-la mais para a colaboração. Perguntas como "o que é que se passou à bocado? Como é que te sentiste? O que achas que podemos fazer para que não volte a acontecer?" vão ajudar a encontrar um espaço comum de entendimento.

Não esquecer que, acima de tudo, os pais devem focar-se em trabalhar a cooperação dos filhos. E os filhos cooperam, quando se sentem ligados e em sintonia com os seus pais. Relações de poder e força tornam a criança mais dependente e separam emocionalmente, relações de confiança e respeito, autonomizam, aproximando emocionalmente. E este é o "paradoxo" que queremos nas nossas vidas.

Autora: Ana Guilhas
Artigo escrito para o Blog "As Viagens dos V's"

terça-feira, 14 de julho de 2015

Protejo-te porque não confio em ti?

Sobre-protecção ou a protecção necessária? Um artigo para reflectir...

"Recentemente, um pai dizia-se assustado, porque o colégio do filho (neste caso seguidor da pedagogia Waldorf) deixava as crianças subirem às árvores. Contudo, dizia conseguir compreender que era uma forma das crianças aprenderem com a queda. Reflectindo um pouco sobre esta questão, é fácil entender o registo em que nós, pais, ainda vivemos. Seja porque a deixamos subir para cair, seja porque não a deixamos de todo subir, assumimos à partida que a criança não consegue. Aparentemente, o sentimento que está na base da nossa escolha, enquanto educadores, é o de que a criança não é capaz. E assim lidamos com os nossos filhos, como se tivéssemos a certeza do seu fracasso ou incapacidade de viver determinadas situações."

Ler o texto na integra aqui
Publicado em Up To Kids

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Escolhas Educativas - parte 2

Evolução das Práticas Educativas

Hoje sabe-se que existem respostas melhores do que os castigos, gritos e humilhações. Sabe-se que os nossos filhos, sem uma autoridade salutar, poderão tornar-se adultos inseguros, com baixa auto-estima e/ou que tentam sistematicamente cumprir as expectativas de outras pessoas (perdendo a sua essência e a sua verdade pelo caminho). No entanto, ainda é muito frequente confundir-se autoridade e autoritarismo, respeito e medo. Dar uma "boa educação" ainda é, para alguns pais, criar filhos obedientes. Para algumas pessoas, o “bom filho” ainda é aquele que corresponde às expectativas dos pais.

Gradualmente, vai ganhando terreno uma visão, das relações em família, assente no respeito mútuo, na confiança, no investimento a longo prazo e na liberdade com regras e limites. São também algumas as sugestões para se chegar a uma forma de parentalidade mais alinhada com uma "nova consciência". Mas, comecemos pelo que já não queremos fazer. 

Gritos, palmadas e afins...

É preciso que os pais se consciencializem de que bons resultados e resultados imediatos, são coisas diferentes. Porque, inevitavelmente, se o que pretendemos são resultados imediatos, então o caminho faz-se pelo autoritarismo. Da mesma forma, se quisermos uma obediência “cega”, e se quisermos que os nossos filhos moldem os seus comportamentos por medo das consequências, o caminho de uma parentalidade autoritária é, sem dúvida, a escolha certa. Há no entanto, que estar consciente das consequências desta escolha.

Palmadas, gritos, punições e chantagem, são de eficácia a curto prazo. Na grande maioria das vezes, as crianças começam a procurar formas de continuar a fazer o mesmo, mas sem serem apanhadas. Outras crianças, só se limitam nas acções enquanto acreditam poder haver um castigo. Assim que já não há esse perigo, ninguém sabe verdadeiramente como vão agir (e podem colocar-se, inclusivamente, em situações de perigo). Na realidade, são crianças que não aprenderam o valor das suas escolhas, não desenvolveram a noção de responsabilidade e não aprenderam mecanismos de auto-regulação e de protecção de si-mesmos. 

A longo prazo, os pais que escolhem esta forma de educação ganham uma insegurança para toda a vida, a de nunca saberem exactamente com o que podem contar da parte dos filhos. Para estes pais, vai ficando cada vez mais difícil ver os seus filhos a crescer, e têm muita dificuldade em lhes dar liberdade. Na realidade, e no seu íntimo, não confiam no resultado das suas práticas educativas. Quanto mais a criança cresce neste registo, maiores as probabilidades de vir a viver uma adolescência "arriscada".

Acresce a isto, que as relações assentes em autoritarismo, afastam, mais do que aproximam. Filhos de pais autoritários, ainda que muitas vezes, mantendo-se num estado de grande dependência emocional dos pais (da qual, alguns, se vão tentar libertar na adolescência) sentem, simultâneamente, distanciamento afectivo. São crianças que partilham muito pouco dos seus receios, emoções e necessidades. Carregam o sentimento de não serem verdadeiramente amados.

Se, por exemplo, a palmada rapidamente interrompe uma birra (trocando-a pelo choro da dor física e/ou emocional), por outro, passa uma mensagem pouco óbvia para nós, mas muito significativa para a criança. Os nossos filhos aprendem que bater no outro é uma forma adequada de agir para solucionar determinadas situações. Aprendem que a agressão de uma pessoa mais forte sobre uma mais fraca é aceitável. E, por fim, aprendem que é normal agredirmos quem amamos (ou dizemos amar). Para além disso, os sentimentos vividos na situação são, da parte da criança, de tristeza, ressentimento, sentimentos mistos e ambivalentes de culpa e raiva, e por vezes, desejo de retaliação. Os pais, eles, são invadidos por outros tantos sentimentos, também eles pesados e penalizantes para si mesmos e para a relação. Há que ter presente, que sempre que batemos num filho, (re)colocamo-nos a nós mesmos, nas situações, do passado, em que nos bateram (ou vimos bater). Com toda a carga emocional que isso implica. 

Ainda assim, devo dizer que, os gritos e as palmadas não são motivo para que os pais se sintam de repente pessoas terríveis e que tenham que carregar uma culpa interminável (que também vai afectar a sua relação com os seus filhos). Devem sim, encarar esses momentos, como situações pontuais e oportunidades de aprendizagem. Há que assumir que aquela reacção, diz muito mais sobre os pais (e o seu estado emocional) no momento, do que propriamente sobre a criança.

A polémica palmada pedagógica...

Parece-me importante percebermos que existe como que uma gradação no que diz respeito à resposta educativa e relacional, que vai desde o não reagir à situação (que é o mesmo que não reagir à criança), passa pelo reagir de forma desadequada (pouco consciente e informada) e vai até ao agir o melhor que se consegue. Esta última, corresponde a uma resposta suficientemente boa para que a situação desbloqueie, seja ultrapassada e possa representar um crescimento para todos os elementos envolvidos.

Mesmo que isto seja difícil de aceitar, pior para o desenvolvimento emocional de uma criança, é a total ausência de reacção por parte dos pais. Crianças a quem não é colocado nenhum tipo de limites, de nenhuma forma, sofrem mais que crianças que recebam, pontualmente, uma palmada. Estes, não deixam de estar, naquele momento, a investir no seu filho, e mal ou bem, tentam fazer o melhor que podem. 

Não reagir a uma criança quando ela faz algo que sabe no seu íntimo não poder (e fá-lo precisamente para sentir que tem a seu lado adultos atentos e que a vão proteger de si mesma), é abandoná-la a um vazio afectivo extremamente desestruturante e perigoso. Parece-me que esta é a razão, pela qual se vêm, ainda, na área da saúde mental e pediatria, alguns defensores da "palmada pedagógica". Essa palmada, é dizer "eu estou aqui, mal ou bem, sou teu pai/mãe, e o que tu fazes afecta-me e envolve-me o suficiente a ponto de eu reagir com tamanha intensidade". Note-se que fazendo-o, não estamos perante uma resposta educativa adequada, apenas perante envolvimento, por oposição a um não envolvimento parental.

Pessoalmente, palmadas e gritos, apenas fazem sentido como reflexo da incapacidade dos pais de reagirem de forma diferente naquele momento, e como oportunidade de tomada de consciência para o desenvolvimento de outras formas de (re)agir. 

Note-se que contar até 100 e esperar para conversar com a criança mais tarde, quando todos se encontram mais calmos, não é considerada uma não reacção (antes pelo contrário).


A pergunta que agora se impõe, é...

Não devemos gritar, não devemos bater, então como é que se faz?! A resposta chega no próximo artigo, terceira e última parte deste tema, na qual desenvolveremos as estratégias de acção para a vivência das regras e das frustrações (aprendizagens fundamentais e estruturantes para a vida em família e para a vida adulta) de forma construtiva, respeitosa e mais harmoniosa.

Autora: Ana Guilhas
Texto escrito originalmente para o blog "As Viagens dos V's".

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Esta agressividade, que é nossa...

[Deixo-vos uma reflexão escrita para a rúbrica "Com sentido" do Jornal "Notícias de Cá e de Lá".]

Tortura, violência, humilhação... tem surgido de tudo um pouco ultimamente, em casos isolados, repetidos sadicamente e até à exaustão pela comunicação social. Notícias, que passam muito rapidamente para a versão “telenovelas”, deixam no ar uma sentimento de indignação, raiva e medo. O foco está colocado em duas jovens aqui, um jovem ali, um polícia acolá. A mim, assusta-me mais as milhares de pessoas que acorrem às portas dos tribunais e às redes sociais insultar, ameaçar em tons de violência por vezes até superiores aos actos que condenam! Preocupa-me que se tratem humanos como coisas e que se consiga conviver “pacificamente” com o sofrimento alheio (por vezes na porta da frente) mas que se reaja a acontecimentos a quilómetros de distância, como se nos tivessem acontecido a nós, só porque os vimos na televisão ou nas redes sociais. A forma como determinados criminosos agem, diz muito deles. A forma como nós reagimos a isso, diz muito mais de nós.

O melhor de tudo isto, é termos à nossa frente uma grande oportunidade para olhar, reflectir e tentar perceber o que é que afinal se está a passar connosco colectiva, mas também individualmente. Tanta evolução parece afastar-nos dos tempos “negros” da Humanidade em que pouco mais parecíamos ser, que bichos. No entanto, aqui estamos nós, confrontados mais uma vez com a realidade de que por mais "verniz" que se coloque, quando este estala, o que fica à vista de todos, é tudo menos bonito. 

A história da Humanidade mostra bem do que somos capazes de fazer pelo bem e pelo mal. Evolução? Parece-me a mim que nos agarramos a uma agressividade muito nossa, a impulsos de destruição que continuam cá bem guardados. Veja-se a forma como cuidamos deste planeta, que não é senão a nossa própria “casa”. Não faz mal destruir, agredir, ameaçar de morte, insultar, roubar, desde que se creia ter uma "justificação" ou se acredite ficar impune. Só isto explica que pessoas “comuns” entrem num armazém e se apropriem de bens alheios com a descontracção de quem vai ao supermercado. 

Ao contrário do que queremos acreditar, não parece haver um trabalho real de evolução saudável da Humanidade, que nos permita canalizar a nossa agressividade natural de forma construtiva para a criação, para a iniciativa, para a capacidade de transformar e mudar a realidade à nossa volta para melhor. 

E isso é triste para todos nós.

Publicado originalmente no Jornal "Notícias de Cá e de Lá" nº 32, 30 de Junho de 2015.