sexta-feira, 10 de julho de 2015

Escolhas Educativas - parte 2

Evolução das Práticas Educativas

Hoje sabe-se que existem respostas melhores do que os castigos, gritos e humilhações. Sabe-se que os nossos filhos, sem uma autoridade salutar, poderão tornar-se adultos inseguros, com baixa auto-estima e/ou que tentam sistematicamente cumprir as expectativas de outras pessoas (perdendo a sua essência e a sua verdade pelo caminho). No entanto, ainda é muito frequente confundir-se autoridade e autoritarismo, respeito e medo. Dar uma "boa educação" ainda é, para alguns pais, criar filhos obedientes. Para algumas pessoas, o “bom filho” ainda é aquele que corresponde às expectativas dos pais.

Gradualmente, vai ganhando terreno uma visão, das relações em família, assente no respeito mútuo, na confiança, no investimento a longo prazo e na liberdade com regras e limites. São também algumas as sugestões para se chegar a uma forma de parentalidade mais alinhada com uma "nova consciência". Mas, comecemos pelo que já não queremos fazer. 

Gritos, palmadas e afins...

É preciso que os pais se consciencializem de que bons resultados e resultados imediatos, são coisas diferentes. Porque, inevitavelmente, se o que pretendemos são resultados imediatos, então o caminho faz-se pelo autoritarismo. Da mesma forma, se quisermos uma obediência “cega”, e se quisermos que os nossos filhos moldem os seus comportamentos por medo das consequências, o caminho de uma parentalidade autoritária é, sem dúvida, a escolha certa. Há no entanto, que estar consciente das consequências desta escolha.

Palmadas, gritos, punições e chantagem, são de eficácia a curto prazo. Na grande maioria das vezes, as crianças começam a procurar formas de continuar a fazer o mesmo, mas sem serem apanhadas. Outras crianças, só se limitam nas acções enquanto acreditam poder haver um castigo. Assim que já não há esse perigo, ninguém sabe verdadeiramente como vão agir (e podem colocar-se, inclusivamente, em situações de perigo). Na realidade, são crianças que não aprenderam o valor das suas escolhas, não desenvolveram a noção de responsabilidade e não aprenderam mecanismos de auto-regulação e de protecção de si-mesmos. 

A longo prazo, os pais que escolhem esta forma de educação ganham uma insegurança para toda a vida, a de nunca saberem exactamente com o que podem contar da parte dos filhos. Para estes pais, vai ficando cada vez mais difícil ver os seus filhos a crescer, e têm muita dificuldade em lhes dar liberdade. Na realidade, e no seu íntimo, não confiam no resultado das suas práticas educativas. Quanto mais a criança cresce neste registo, maiores as probabilidades de vir a viver uma adolescência "arriscada".

Acresce a isto, que as relações assentes em autoritarismo, afastam, mais do que aproximam. Filhos de pais autoritários, ainda que muitas vezes, mantendo-se num estado de grande dependência emocional dos pais (da qual, alguns, se vão tentar libertar na adolescência) sentem, simultâneamente, distanciamento afectivo. São crianças que partilham muito pouco dos seus receios, emoções e necessidades. Carregam o sentimento de não serem verdadeiramente amados.

Se, por exemplo, a palmada rapidamente interrompe uma birra (trocando-a pelo choro da dor física e/ou emocional), por outro, passa uma mensagem pouco óbvia para nós, mas muito significativa para a criança. Os nossos filhos aprendem que bater no outro é uma forma adequada de agir para solucionar determinadas situações. Aprendem que a agressão de uma pessoa mais forte sobre uma mais fraca é aceitável. E, por fim, aprendem que é normal agredirmos quem amamos (ou dizemos amar). Para além disso, os sentimentos vividos na situação são, da parte da criança, de tristeza, ressentimento, sentimentos mistos e ambivalentes de culpa e raiva, e por vezes, desejo de retaliação. Os pais, eles, são invadidos por outros tantos sentimentos, também eles pesados e penalizantes para si mesmos e para a relação. Há que ter presente, que sempre que batemos num filho, (re)colocamo-nos a nós mesmos, nas situações, do passado, em que nos bateram (ou vimos bater). Com toda a carga emocional que isso implica. 

Ainda assim, devo dizer que, os gritos e as palmadas não são motivo para que os pais se sintam de repente pessoas terríveis e que tenham que carregar uma culpa interminável (que também vai afectar a sua relação com os seus filhos). Devem sim, encarar esses momentos, como situações pontuais e oportunidades de aprendizagem. Há que assumir que aquela reacção, diz muito mais sobre os pais (e o seu estado emocional) no momento, do que propriamente sobre a criança.

A polémica palmada pedagógica...

Parece-me importante percebermos que existe como que uma gradação no que diz respeito à resposta educativa e relacional, que vai desde o não reagir à situação (que é o mesmo que não reagir à criança), passa pelo reagir de forma desadequada (pouco consciente e informada) e vai até ao agir o melhor que se consegue. Esta última, corresponde a uma resposta suficientemente boa para que a situação desbloqueie, seja ultrapassada e possa representar um crescimento para todos os elementos envolvidos.

Mesmo que isto seja difícil de aceitar, pior para o desenvolvimento emocional de uma criança, é a total ausência de reacção por parte dos pais. Crianças a quem não é colocado nenhum tipo de limites, de nenhuma forma, sofrem mais que crianças que recebam, pontualmente, uma palmada. Estes, não deixam de estar, naquele momento, a investir no seu filho, e mal ou bem, tentam fazer o melhor que podem. 

Não reagir a uma criança quando ela faz algo que sabe no seu íntimo não poder (e fá-lo precisamente para sentir que tem a seu lado adultos atentos e que a vão proteger de si mesma), é abandoná-la a um vazio afectivo extremamente desestruturante e perigoso. Parece-me que esta é a razão, pela qual se vêm, ainda, na área da saúde mental e pediatria, alguns defensores da "palmada pedagógica". Essa palmada, é dizer "eu estou aqui, mal ou bem, sou teu pai/mãe, e o que tu fazes afecta-me e envolve-me o suficiente a ponto de eu reagir com tamanha intensidade". Note-se que fazendo-o, não estamos perante uma resposta educativa adequada, apenas perante envolvimento, por oposição a um não envolvimento parental.

Pessoalmente, palmadas e gritos, apenas fazem sentido como reflexo da incapacidade dos pais de reagirem de forma diferente naquele momento, e como oportunidade de tomada de consciência para o desenvolvimento de outras formas de (re)agir. 

Note-se que contar até 100 e esperar para conversar com a criança mais tarde, quando todos se encontram mais calmos, não é considerada uma não reacção (antes pelo contrário).


A pergunta que agora se impõe, é...

Não devemos gritar, não devemos bater, então como é que se faz?! A resposta chega no próximo artigo, terceira e última parte deste tema, na qual desenvolveremos as estratégias de acção para a vivência das regras e das frustrações (aprendizagens fundamentais e estruturantes para a vida em família e para a vida adulta) de forma construtiva, respeitosa e mais harmoniosa.

Autora: Ana Guilhas
Texto escrito originalmente para o blog "As Viagens dos V's".

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Esta agressividade, que é nossa...

[Deixo-vos uma reflexão escrita para a rúbrica "Com sentido" do Jornal "Notícias de Cá e de Lá".]

Tortura, violência, humilhação... tem surgido de tudo um pouco ultimamente, em casos isolados, repetidos sadicamente e até à exaustão pela comunicação social. Notícias, que passam muito rapidamente para a versão “telenovelas”, deixam no ar uma sentimento de indignação, raiva e medo. O foco está colocado em duas jovens aqui, um jovem ali, um polícia acolá. A mim, assusta-me mais as milhares de pessoas que acorrem às portas dos tribunais e às redes sociais insultar, ameaçar em tons de violência por vezes até superiores aos actos que condenam! Preocupa-me que se tratem humanos como coisas e que se consiga conviver “pacificamente” com o sofrimento alheio (por vezes na porta da frente) mas que se reaja a acontecimentos a quilómetros de distância, como se nos tivessem acontecido a nós, só porque os vimos na televisão ou nas redes sociais. A forma como determinados criminosos agem, diz muito deles. A forma como nós reagimos a isso, diz muito mais de nós.

O melhor de tudo isto, é termos à nossa frente uma grande oportunidade para olhar, reflectir e tentar perceber o que é que afinal se está a passar connosco colectiva, mas também individualmente. Tanta evolução parece afastar-nos dos tempos “negros” da Humanidade em que pouco mais parecíamos ser, que bichos. No entanto, aqui estamos nós, confrontados mais uma vez com a realidade de que por mais "verniz" que se coloque, quando este estala, o que fica à vista de todos, é tudo menos bonito. 

A história da Humanidade mostra bem do que somos capazes de fazer pelo bem e pelo mal. Evolução? Parece-me a mim que nos agarramos a uma agressividade muito nossa, a impulsos de destruição que continuam cá bem guardados. Veja-se a forma como cuidamos deste planeta, que não é senão a nossa própria “casa”. Não faz mal destruir, agredir, ameaçar de morte, insultar, roubar, desde que se creia ter uma "justificação" ou se acredite ficar impune. Só isto explica que pessoas “comuns” entrem num armazém e se apropriem de bens alheios com a descontracção de quem vai ao supermercado. 

Ao contrário do que queremos acreditar, não parece haver um trabalho real de evolução saudável da Humanidade, que nos permita canalizar a nossa agressividade natural de forma construtiva para a criação, para a iniciativa, para a capacidade de transformar e mudar a realidade à nossa volta para melhor. 

E isso é triste para todos nós.

Publicado originalmente no Jornal "Notícias de Cá e de Lá" nº 32, 30 de Junho de 2015.

sábado, 13 de junho de 2015

Escolhas Educativas - Parte 1

Atrever-me-ia a dizer que os pais de hoje, têm uma dificuldade acrescida. Encontram-se em plena viragem dos modelos educativos. O papel dos pais está em transformação, assim como os critérios para as suas escolhas pedagógicas. Já não é suficiente para a maioria das pessoas fazer de uma determinada forma, só porque os seus pais e avós assim o fizeram. Hoje, felizmente, queremos perceber o que é melhor, que consequências (positivas ou negativas) as nossas escolhas têm para o bem estar presente e futuro dos nossos filhos. Isso é bom. Mas implica toda uma reorganização! Essa é a parte difícil!

Antes de mais, é importante saber-se que não existe nada mais protector para a estrutura psíquica humana que a vivência de um profundo e equilibrado amor. Isto quer dizer, que a forma como a família vai viver os sentimentos que os ligam entre si (e em particular aos filhos), vai ser central no processo educativo. Para um desenvolvimento saudável, a criança deve sentir que os pais a amam incondicionalmente, aconteça o que acontecer. O que na realidade não é o mesmo que deixá-la fazer tudo o que quer. Antes pelo contrário, é precisamente por a amarem e se preocuparem com ela, que fazem questão de a orientar (e ensiná-la a viver) num mundo que ainda só está a começar a conhecer.

Isto leva-nos a um segundo aspecto fundamental na parentalidade. Os pais devem estar conscientes do seu papel e de que, invariavelmente são os lideres legítimos da estrutura familiar. São (e é importante que sejam) as figuras de autoridade, que vão acompanhar e orientar as crianças (filhos) no seu processo de crescimento e conquistas. Fazem-no até que estes tenham aprendido, e desenvolvido o suficiente, as competências que lhes permitem começar eles mesmos a assumir estas funções. É por essa razão que não deixamos um bebé mexer numa faca, mas pedimos a um filho mais crescido que nos ajude a cortar o pão. Este é um exemplo simples, mas é válido para tarefas muito mais complexas e centrais como aprender a cuidar de si mesmo.

Um terceiro aspecto a ter em consideração, é o de que estamos a falar de pessoas. E como não podia deixar de ser, cada uma traz para a “equação” o seu próprio valor(es). A criança nasce com um temperamento muito próprio e, é fundamental que os pais aprendam a conhecê-la e a perceber o que é que resulta melhor para ela no equilíbrio amor/limites. É desta forma que se vai definir o tipo de relação que é estabelecida. Por outro lado, temos uma mãe e um pai, que carregam eles mesmos (à par com a suas personalidades) uma história, uma aprendizagem e referências educativas muito próprias. Também aí, é necessário encontrar um equilíbrio pai/mãe (que têm muitas vezes posições contrárias) e adaptar-se às adversidades de um quotidiano desafiante, que deixa pouco espaço para parar, analisar e construir coisas novas com serenidade.

Considerando estes três aspectos, cada família irá depois fazer as sua escolhas e criar o seu próprio modelo, de forma a cultivar o amor, o crescimento de todos os elementos e desta forma também, desenvolver maiores níveis de bem estar e harmonia familiar.

Autora: Ana Guilhas
Texto originalmente publicado em As Viagens dos V's

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Lado Bom dos Gritos!

"Porque ali, naquele momento, surge a oportunidade de olharmos para nós mesmos. Temos a oportunidade de perceber que algo está a retirar espaço em nós. E com isso, passamos a ter a possibilidade de transformar a situação. É preciso saber que o desejável não é termos pais que se conseguem conter no seu desconforto (até um dia…). O que se pretende, é que os pais não gritem porque estão suficientemente bem para não precisarem de o fazer (pelo menos não de forma sistemática)." Leia o texto na íntegra aqui


Texto originalmente publicado em Up To Lisbon Kids

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Amor Fácil?!

Era tão bom se o amor fosse fácil?

Não! Não era! O amor não foi feito para ser fácil. Mas a verdade é que o amor também não foi feito para ser doente...

Pois é, um amor romântico, dos filmes ou dos livros, em que a relação é perfeita e o mundo é que não. Em que tudo correria bem, não fossem as ameaças externas, os desencontros provocados pela vida ou por malvadez alheia, não existe.

O amor só pode ser vivido na relação. E a relação é uma construção. Cada tijolo dessa construção é de fabrico caseiro, e é feito do mesmo “material” de que nós somos feitos. A relação que se constrói é assim, apenas e tão só, o reflexo do que cada um dos envolvidos tem em si para dar e construir. A relação é tão sólida quanto a solidez de quem ama, tão saudável quanto a saúde de quem ama, tão inteira quanto a existência de quem ama.

Então quando é que a relação faz sofrer e destrói? Quando nos dói o íntimo e sofremos escondidos. Quando nos ligamos ao outro na esperança de que nos dê aquilo que acreditamos não ter, ou que nos ajude a ultrapassar os fantasmas do passado, ainda que apenas os acorde e reforce ainda mais. Quando carregamos um vazio e vemos no outro o preenchimento. Mas aí, o outro deixa de ser o outro e o eu deixo de ser eu. E se não existimos, não podemos amar. Apenas depender, sofrer e fingir uma esperança que não existe.

Amores doentios, são feitos de necessidade, medo de perda, posse. Imperam os ciúmes sem sentido, a desvalorização, humilhação, a necessidade de modificar o outro na sua essência. A luta faz-se entre os medos infantis e irracionais de cada um. Pessoas incompletas procuram exorcizar os seus fantasmas na relação. O resultado é medo, dor, sofrimento, violência...

Amores saudáveis, implicam afecto, admiração, consideração e respeito de parte a parte. Mesmo na diferença, mesmo nas divergências. Implica que cada um se ame a si mesmo, e veja no outro o reflexo desse amor-próprio. O vínculo é de lealdade e não de pertença. Implica zangas, discussões e descontentamento, também. Mas aqui, com aprendizagem, tolerância e crescimento conjunto.

O amor patológico faz um caminho que vai da paixão à insatisfação ou ao caos. O amor maduro, parte da paixão e segue pelo caminho do ajuste, criatividade e construção.

O amor não se quer simples, nem linear porque o amor é uma força criadora e transformadora. Isso, implica a diferença que dá movimento e que não cola mas complementa.

Publicado originalmente no jornal "Notícias de Cá e de Lá" nº 31, de 3 de Junho.