quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Afinal o que são os "terrible twos"?

São já muitos os pais que ouviram falar nos "Terrible Twos". Uma fase, que diz-se, pode acontecer entre os 18 meses e os 3 anos de idade. Diz a literatura, que corresponde a um período em que a criança começa a desenvolver comportamentos de oposição, desafiando deliberadamente as solicitações dos pais. Diz-se também, que é normal e que praticamente todas as crianças passam por isso, ainda que de forma mais, ou menos suave. Alguns pais esperançosos, lançam o desafio ao universo dizendo "eu não acredito que as birras existam!" e atribuem as mesmas a erros de interpretação por parte dos pais, outros a falta de "pulso" e "limites".

Afinal o que são os "terríveis dois anos?" e serão assim tão temíveis?
Imagine o que é acordar de manhã e ter uma pessoa à sua volta a vesti-la, a escolher o seu pequeno almoço, a dizer-lhe para estar sossegado(a), para se despachar para não haver atrasos, a lavar-lhe os dentes, a pentear-lhe os caracóis (sim, sem dúvida um grande desafio!), a pô-lo(a) a fazer xixi (a horas certas), ou a trocar-lhe a fralda, enquanto tem expectativas de que tudo isso corra de forma tranquila e sem grande percalços. Aceitaria passivamente que lhe escolhessem a roupa? O que comer? O que fazer e como fazer? Acredite que se para o bebé, até esta altura, tudo isto fazia parte da rotina, agora, para o bebé criança, tudo mudou. Esta é uma fase de grande transformação para os nossos filhos, é um período muito desafiante tanto para eles como para nós. Por um lado, queremos vê-los crescer bem e saudavelmente, por outro, não queremos "perder" o nosso bebé. Da mesma forma, os nossos filhos sentem que estão a crescer e que têm cada vez mais poder sobre a sua própria vida, e são cada vez mais capazes de fazer coisas, e mais ainda, de dizer coisas (aceitar, recusar, escolher...). No entanto, percebem que isso não é fácil, nem sempre é promovido ou apoiado pelos pais e, também não deixam de querer continuar a ser o nosso bebé.

O segredo? O segredo passa por confiar e compreender. Primeiro confiar que ajudar o nosso filho a crescer não implica perder o nosso bebé, mas antes pelo contrário, corresponde a vê-lo a ganhar e conquistar cada vez mais coisas para si. Por outro lado, compreender que este processo não só não é fácil para ele, como vai desencadear uma série de conflitos internos, difíceis de gerir, e que isso, por vezes, vai desencadear momentos de grandes e intensas "birras".

Se eu confio e compreendo as necessidades do meu filho naquele momento, então o que é que eu faço? Dou-lhe aquilo que está a precisar. Maior autonomia. Então a estratégia passa por descobrir tudo aquilo que os nossos filhos já são capazes de fazer, tudo aquilo que não são capazes mas acreditam ser, e começar a atribuir tarefas e ensinar o que for possível. Comer sozinhos, escolher a roupa (ou parte), ajudar no supermercado, ajudar com pequenas tarefas, são apenas alguns exemplos que fazem toda a diferença. Com acompanhamento, ensinando e dando cada vez mais margem de manobra, as crianças sentem que as suas necessidades de autonomia (tão importantes nesta fase) estão a ser correspondidas e em certa medida "saciadas". Sentem também que o seu crescimento está a ser validado e que continuam a ser acompanhados. Crescer é afinal prazeroso e não implica perder a proximidade dos pais, e isso, é profundamente reconfortante.

No entanto, as receitas não são milagrosas, e por vezes, as emoções são muitas e a capacidade de as gerir ainda é pouca. É fundamental que se deixe sair a confusão, a zanga, a frustração, a tristeza, através de alguns momentos de intenso choro, que podem ocorrer a propósito das mais despropositadas coisas (pelos menos aos nossos olhos). O nosso papel, é estar lá, acompanhar, esperar, manter a mais doce das firmezas, e aguardar que o nosso filho permita, no final, aquele abraço reparador. Um abraço importante, mas que não aceita o comportamento a todo o custo e sem limites (mesmo que com o "descontrolo" da birra, não permito nunca que a minha filha me magoe), mas que compreende as emoções que o desencadearam. Depois da minha filha se acalmar, gosto de lhe dizer, "então, já te sentes melhor? Já te posso dar um abraço?".

Os "terríveis dois anos" são apenas mais um desafio no meio de tantos. Com serenidade e muito amor, podemos abrir espaço para descobrir o quanto esta fase pode ser tão saborosa. As conquistas dos nossos filhos, em grande medida, são também nossas. E nada mais delicioso do que ver os nossos bebés a crescer felizes, e mais ainda, a serem capazes de nos dizer isso mesmo, através das suas próprias palavras e acções.

Abraço,
Ana Guilhas, Psicóloga

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O que há em mim que alimenta o meu cansaço?"

Atrever-me-ia a dizer que a maior parte das pessoas não sofre do cansaço proveniente de um dia atarefado e cheio de actividades. Não são poucas as pessoas que começam o dia bem cedo, têm filhos, trabalhos exigentes, cuidam das tarefas domésticas e ainda têm tempo para actividades desportivas ou de lazer. É impressionante, mas dificilmente essas são as pessoas que se vão queixar de uma espécie de cansaço crónico e constante. Dificilmente serão essas pessoas que se vão queixar de acordar de manhã já com uma certa sensação de falta de energia. Como se as coisas que têm para fazer nesse dia, começassem desde logo a esmagá-las.

Do que me é possível perceber, as pessoas mais cansadas, são, na realidade, as pessoas que se confrontam diariamente com tarefas emocionais. E que, diariamente, se confrontam com um desejo de mudança que não se concretiza. O que nos cansa verdadeiramente? O desejo de que algo em nós e na nossa vida mude, quando em simultâneo, acreditamos que isso não vai acontecer.

Alguns dos maiores sugadores de energia nas nossas vidas são:
- Acreditar que temos pouco poder sobre as coisas que acontecem na nossa vida;
- Acreditar que deveríamos ser melhores e fazer melhor do que o que fazemos. A exigência excessiva, rígida e desmesurada é um aspirador gigante de energia (seja auto-dirigida ou dirigida a outros);
- Travar lutas no exterior que pertencem ao interior. Isto acontece quando negamos o nosso estado emocional e o projectamos nos acontecimentos à nossa volta (p. e. quando saio de casa zangada e culpo o trânsito, a antipatia das pessoas, os buracos na rua pela causa do meu mal estar. Ou se estou deprimida e digo que é o frio, a chuva ou os meus colegas que nem notaram que cheguei ao trabalho);
- Estados emocionais como a tristeza, zanga, raiva, ressentimento, também são "bons" sugadores de energia;
- A falta de recursos como a assertividade, capacidade de pedir ajuda, definição de metas, auto-estima e gratidão;
- Querer cumprir as expectativas que os outros têm relativamente a nós ou dar demasiada importância ao que os outros pensam.

Tirando todos estes factores, é importante percebermos porque é que algumas pessoas parecem manter-se em estado de desorganização permanente. Não se esqueça que, simplificar a vida é aproximar-se de si mesmo(a). Será que está preparado(a) para isso? Quer verdadeiramente abrir esse espaço?

Em suma, nós alimentamos o cansaço e o cansaço alimenta-se a si mesmo quando nos recusamos a olhar para aquilo que verdadeiramente está na sua origem. Não vale a pena combater as limitações que encontramos no exterior se não ultrapassarmos primeiro as nossas próprias limitações. Se queremos ultrapassar o cansaço, de uma vez por todas, então temos que o reconhecer como sendo fundamentalmente de origem emocional. E, é aí, nas emoções que o mesmo se trabalha e ultrapassa. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Pais seguros, procuram-se!"


É pai? mãe? Como é que vive o seu papel? Como se sente e vive o exercício da sua parentalidade? Ultimamente tenho estranhado a forma como alguns pais se sentem meio perdidos, procurando respostas aqui e ali, procurando apoio de outros pais, amigos, técnicos, gurus... Não vejo que isso seja mau. Procurar saber mais, conhecer formas diferentes de fazer as coisas, parece-me até muito bem. Eu faço-o todos os dias. O que estranho, é o sentimento que move estes pais. Muitos não o fazem por assumirem o seu papel plenamente, com uma segurança, determinação e confiança, que os leva a querer fazer mais e melhor a cada dia (daí a procura de novas estratégias). O que vejo, é que muitos pais fazem estes "apelos" sustentados num sentimento de profundo desespero, insegurança e medo.

Os pais fragilizados nos seus papeis e aprisionados pelos seus medos, refugiam-se num de dois movimentos possíveis. Ou exercem uma parentalidade muito apoiada na severidade, autoritarismo e/ou manipulação, ou, pelo contrário, numa parentalidade permissiva e com uma passividade tal, que leva a uma inversão de papéis. No primeiro caso, a vida em conjunto é conduzida com base nas expectativas dos pais (e a criança, na sua essência, perde-se). No segundo, os filhos e as suas necessidades passam a orientar e determinar a vida em família.

O equilíbrio (onde se encontra a saúde e o bem estar de todos os elementos) está no exercício de uma parentalidade assente em valores de partilha, solidariedade, colaboração e comunicação. Nestes casos, as necessidades dos pais e as necessidades dos filhos são ambas importantes. E ambas, devem ser determinantes para a organização e estruturação da vida familiar. Devem também ser os pilares que fundamentam as regras e as interacções.

É importante que os pais percebam que, num momento inicial, só o adulto consegue fazer essa gestão. Os bebés (e as crianças até certa idade), encontram-se numa fase de um egocentrismo que é natural e saudável. Isso mantém-nos centrados em si mesmos e nas suas necessidades e/ou vontades. É precisamente por ficarem a conhecer algumas das suas "limitações", e por verem os pais respeitar os seus próprios valores, que a criança se sente cada vez mais parte da estrutura (e vai ganhando cada vez mais poder sobre ela à medida das suas capacidades). Pais seguros, dão a conhecer à criança (ou apenas confirmam o que ela já sabe) a importância de dimensões como auto-estima, segurança, respeito e, principalmente, amor-próprio, vivendo-o na primeira pessoa.

Os nossos filhos não vão ser aquilo que nós lhes damos! ... Já a forma como nós os tratamos é importante, sim, sem dúvida! ... Mas o que é que é igualmente importante e, tantas vezes, negligenciado por nós? Pois é... as crianças vão relacionar-se consigo mesmas da mesma forma que nós o fazemos com nós próprios. Isto porque em última análise, a criança tem um profundo desejo de ser como os "crescidos" e, os principais "crescidos" da vida deles, são os pais! Já alguma vez ouviu uma mãe dizer "sempre tratei a minha filha tão bem e com tanto carinho, e ela trata-me tão mal!". Agora entende?

A regra é "eu amo e amo-me, porque sou amado e os meus pais se amaram a si mesmos".

Esta máxima só é possível, se nos permitirmos viver os nossos papeis de pais, sem medos ou interferências de velhas crenças e velhos padrões com os quais já não nos identificamos (mas que temos medo de deixar, sob pena de nos sentirmos órfãos ou perdidos). O que dizemos a nós mesmos, às vezes é -"eu não quero educar como os meus pais e avós fizeram, mas não sei fazê-lo de outra forma... e agora?". Se não nos sentirmos seguros, determinados e não confiarmos nas nossas capacidades como pais, passamos a viver numa "terra de ninguém", com efeito negativo para toda a estrutura familiar.
Os medos e as dúvidas fazem parte, mas há que mantê-las no seu devido lugar! Os pais autoritários, têm na essência, medo de perder o controlo e/ou medo de perder a sua estrutura (o que aprenderam com os pais). Pais permissivos ou passivos, têm medo de dizer "não". Temem que o "não" deixe o seu filho zangado, e que assim, corram o risco de perder o seu amor. Mais confuso ainda, é quando o desespero faz-nos alternar entre uma posição e a outra,  numa vivência de parentalidade desgastante (para nós e para a criança) de tão confusa e incoerente que se torna. Os nossos filhos, esses, na melhor das hipóteses, vão se zangar tremendamente! E ainda bem!

Saiba que não existe ninguém melhor do que você para ser mãe/pai do seu filho. Não existe ninguém com mais força, conhecimento, nem amor. Saiba que não existe a "terra de ninguém" apenas existe a "sua terra"! E quando a abrir ao seu filho, marido/ mulher, passará a ser a vossa terra! Poderão assim, construir o espaço, as regras, a estrutura e o amor da vossa família. Faça as escolhas que fizer, mas faça-as em consciência e nunca esquecendo de se incluir e de incluir o seu filho.

Acredite que, ceder numa regra que só faz sentido para si, ou dizer "não" numa situação importante para a família, vão ajudar a manter a felicidade "sob controlo" e o amor sempre a crescer! Valorize-se, liberte-se e liberte, e viverá a parentalidade que verdadeiramente quer ter!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dica de Comunicação - Formular pela positiva



Substitua frases como:
- Não grites!
- Não batas nos outros meninos
- Não corras para a estrada
- Não saltes no sofá
- Não estragues o brinquedo
- Não faças birra
- Não tenhas medo (quando confrontado com uma coisa diferente)

Pela descrição do comportamento desejado:
- Fala baixinho/ com calma/ normalmente
- Sê simpático/a para os outros meninos/ faz festinhas/ brinca em conjunto com...
- Fica junto a mim / anda sempre pelo passeio como a mamã
- Salta no chão que é mais seguro/ saltas no sofá só quando eu estiver por perto para garantir que corre tudo bem
- Brinca com calma / cuida bem do teu brinquedo novo/ mexe antes assim...
- Consegues ajudar-me mantendo-te mais calmo?/ Eu sei que vais conseguir acalmar-te
- Eu sei que é uma coisa nova mas vai correr tudo bem /  Tu és tão corajoso/a, vamos fazer disto uma aventura! (Se o medo já for real, não o desvalorize!).

sábado, 8 de novembro de 2014

Recomendação Especial - Workshop "Comunicar no Amor"

Tudo o que passamos aos nossos filhos, a forma como nos relacionamos e a forma como eles se relacionam com eles próprios e com o mundo, tem a ver com a forma como é vivida a comunicação em família. Por isso, fica aqui a recomendação de uma das minhas próximas actividades.
Até breve,


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dificuldades de aprendizagem | iOnline

Um texto absolutamente perfeito! Com uma clareza e (auto)análise brilhantes. Sucesso escolar (e mais tarde profissional) e sucesso pessoal (que é cumpri-se na sua verdadeira essência) são coisas muito diferentes, mas demasiadas vezes confundidas!

Um leitura que recomendo vivamente : Dificuldades de aprendizagem | iOnline

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Tranquilidade Começa nos Pais

Este post tem uma vertente um pouco diferente da habitual. Ainda assim, escrevo-o porque acredito muito sinceramente que é interessante e tem resultados excelentes na sua vida e no equilíbrio familiar.

Já lhe aconteceu pensar "logo agora que estou tão cansada é que vem esta birra?!" ou dizer "eu que já estou tão irritada e tu com esses comportamentos?!". Pois a questão é que é precisamente por se encontrar nesse estado, que o seu filho, apanhado no turbilhão de emoções e contagiado por elas, reage. Ele quer e precisa de sentir que os pais estão bem, estão seguros e que mesmo nos momentos difíceis, continuam a amá-lo. É tão simples e tão complexo quanto isto!

Uma das formas mais brilhantes e eficazes de reduzir a tensão familiar, as birras e algumas reacções intensas por parte dos nossos filhos, passa na realidade por nós, PAIS, estarmos também mais tranquilos, plenos e a sentir-nos cheios de energia (uma energia boa e equilibrada). Passa por outro lado, por aprendermos a focar-nos no que é realmente importante em cada momento que estamos a viver.

No dia 13 de Novembro, vou dar uma Sessão de Relaxamento em grupo para adultos no NaturAjna, em Almada. Quer começar por algum lado? Então este é mais um excelente passo no seu caminho! Conto consigo!

Abraço,