Quando dizemos que "um irmão é um presente que se dá a um filho" estamos, naturalmente, a simplificar e a idealizar uma realidade que, a bem da verdade, normalmente é sentido como "presente envenenado". Se pensarmos bem, com a chegada de um irmão, a criança vê o seu "reino" ameaçado, quando uma criatura pequenina, enrugadinha e que (diga-se de passagem), numa fase inicial come, dorme, chora e pouco mais, se vem instalar na sua casa e pior, nos braços da sua mãe! Antes do nascimento do irmão, são muitas as pessoas que lhe dizem "agora vais ter um mano para brincar" e, na sua fantasia, a criança imagina que vai nascer um irmão prontinho para a brincadeira. E assim, a relação começa logo marcada por uma grande desilusão.
Este ser que é um estranho, inicialmente, ainda que activando na criança já alguns receios (p.e. perder a mãe e o pai, perder a exclusividade, perder a propriedade dos seus brinquedos e roupas), pode até beneficiar de um enamoramento inicial. Fase em que a "guerra", ainda não foi formalmente declarada. Depois, por vezes de forma gradual, outras de forma mais violenta, surgem os primeiros sinais de desconforto, com as regressões, birras, choros e agressividade com o recém chegado. Ainda assim, justiça seja feita, depois de ultrapassado o reboliço "inicial" (que pode durar alguns tempo), criam-se as condições para que se manifestem todas as coisas boas que um irmão pode trazer à vida de uma criança, em termos de aprendizagem, cumplicidade e companheirismo. Mas primeiro, há que ultrapassar as dificuldades.
Antes de intervir, compreender
Com a chegada de um irmão, "baralham-se os amores" e, por essa razão, inicialmente, mais do que gerir a relação, será importante ensinar os seus filhos a lidarem com as suas próprias emoções. As queixas dos seus filhos, por mais estranhas ou afastadas da realidade que lhe pareçam, são formas dele exprimir o que sente e, principalmente, os medos que o perturbam naquele momento. Por essa razão, é importante que as oiça, e que as considere como válidas, reagindo com empatia. Durante estes períodos de "crise", é muito importante que escute com particular atenção para que possa ajudar o seu filho a elaborar, ao seu ritmo, esta nova realidade.
Hoje sabe-se que os sentimentos são sempre melhores manifestos do que reprimidos. No entanto, quando ralhamos, argumentamos ou pressionamos uma criança a deixar de ter determinados comportamentos (de agressividade por exemplo), estamos precisamente a levá-la a reprimir a manifestação e não o sentimento que lhe é subjacente. Este tende até a intensificar-se. Por outro lado, sempre que fazemos juízos de valor acerca da forma como a criança está a reagir, punimos e/ou censuramos, estamos a atingir a criança na sua auto-estima, o que virá confirmar os seus receios de que está a "perder" o amor dos seus pais.
Alguns autores, consideram que a rivalidade entre irmãos, se deve a uma ameaça à sua individualidade. "Eu devo ser como sou, ou devo ser como o meu irmão?", "se formos diferentes, seremos igualmente amados?" são algumas das questões que, ainda que não seja de forma consciente, inquietam a criança. Respeitar as diferenças e ajudar os seus filhos a desenvolver a sua individualidade terá um papel muito importante no processo de aceitação. Cada um é, e deve ser, como é! Se o seu filho sentir que ser ele próprio não é bom e que, o melhor é ser como o irmão, vai, inicialmente, tentar mudar. Deste movimento podem surgir as regressões como por exemplo, pedir chucha, gatinhar ou querer voltar ao biberão, ou a imitação de gostos, brincadeiras, entre muitas outras coisas. Com o fracasso da tentativa de ser como o irmão (porque de facto não é possível, nem desejável) vem a zanga, a frustração e a rejeição. O ideal será então que os pais reforcem as diferenças, mostrando que todas as formas de ser, sexo e idades, são importantes e têm lugar na família. Mostre que essas diferenças são precisamente o que torna a família especial, pois assim, ser como ele é, é ser especial. Ultrapassar os ciúmes de um irmão corresponde a uma conquista gradual de auto-estima, segurança e individualidade. A criança percebe que é amada como é, e independentemente do que faça. E pode, a partir daí, passar a amar livremente e sem medos este pequeno "invasor" que, rapidamente, se pode tornar no seu melhor e mais especial amigo.
Conselhos para lidar com o ciúme
1. Escute sempre as queixas do seu filho de coração aberto, sem julgamentos e agindo de forma empática. Diga coisas como "percebo que estejas triste, a mamã tem estado muito tempo com o mano e tu gostarias que pudesse estar esse tempo todo contigo também" e "compreendo que seja muito chato ter um irmão mais novo". Note-se que dizer "ter um irmão é chato", é diferente de dizer "o teu irmão é chato".
2. Nunca tome partido nos conflitos e evite interferir. Se não for mesmo possível, então separe-os. Não com forma de castigo mas para os levar a fazer actividades diferentes. Se se tiverem magoado, então envolva os dois na reparação de igual forma.
3. Não condene o mais velho por ter uma atitude hostil ou exprimir sentimentos negativos. Eu sei que é difícil resistir à tendência fortemente enraízada para dizer coisas como "isso é feio!", "não digas isso do teu irmão que ele gosta tanto de ti", "temos que gostar dos irmãos e tratar bem deles", etc. Ao invés disso, experimente "traduzir" as acções, revelando os sentimentos que estão por detrás do comportamento, usando frases como "compreendo que estejas irritado porque o teu irmão está a estragar a tua brincadeira" ou "vejo que estás zangado porque o teu irmão está a precisar da atenção da mamã", "se neste momento não te apetece brincar com o teu irmão, não brinques".
4. Não tente, de forma alguma, convencê-lo que gosta mais do irmão do que o que pensa. o seu filho está zangado e é só nisso que está focado. Se tentar convencê-lo do contrário, vai fazê-lo sentir-se culpado e isso pode agravar ainda mais a situação.
5. Para lidar com as regressões, promova actividades com o mais velho que estejam de acordo com a sua idade (brincar com os amigos, fazer jogos mais complexos e que lhe dêem prazer, ir passear só com o pai ou só com a mãe).
6. Se o seu filho acha que o irmão está a ser beneficiado relativamente a alguma coisa, não negue. É assim que ele está a sentir a situação e, para já, não consegue analisá-la sob outro ponto de vista. A negação só vai aumentar o sentimento de injustiça e incompreensão. Explique apenas que as coisas não são, nem têm que ser sempre feitas de forma igual e que, isso nada tem a ver com o que sentimos pelas pessoas. Pode dizer coisas como "quando nasceste também recebeste muitos presentes como o teu mano está a receber. Não sei se foram mais, se foram menos. Só sei que foram muitos, muitos" e "é chato quando sentimos que estamos a ser prejudicados. Eu lembro-me de sentir isso quando era pequenina".
7. Para o ajudar a lidar com as diferenças e respectivas vantagens e desvantagens, pode dar exemplos que o ajudem a perceber que também ele já viveu as etapas pelas quais o irmão está agora a passar. Alguns exemplos seriam "as pessoas gostam muito de olhar e falar com os bebés na rua. Quando tinhas a idade do teu irmão também era assim contigo", "quando eras pequenino, não podias brincar no parque como fazes agora. Só podias passear no carrinho como o teu irmão".
8. Promova a individualidade e diferença nos seus filhos. Dê exemplos de formas de ser diferentes como "o papá adora lavar o cabelo. Já eu sou como tu, não gosto nada". Evite comprar roupas iguais ou a combinar. Quando já for possível, peça para que sejam eles a escolher e ajude-os a fazê-lo de acordo com os seus gostos individuais. Se possível, evite as heranças "passivas" de roupa e brinquedos. Pergunte ao mais velho o que é que já não quer para ele e que queira dar ao mais novo. Depois, confirme se o mais novo o quer receber ou se interessa.
9. Se os níveis de agressividade são muito intensos, então pense em ajudar o seu filho a desenvolver uma boa auto-estima e auto-confiança e leve-o para actividades ao ar livre e físicas que o vão ajudar a descarregar alguma energia.
Do lado dos pais
Lembre-se de como foi a sua infância. Muito da forma como reagimos aos ciúmes dos nossos filhos, passa pelo que nós próprios experienciámos em criança. Foi filho/a único/a ou tem irmãos? Tem tendência para defender o mais velho? O mais novo? Irrita-se e desvaloriza as queixas? Age passivamente ou é demasiado interventivo/a? O que é que sente em cada um dos momentos de ciúme com que é confrontado/a? Espreite dentro de si mesmo/a. Depois de encontrar estas respostas, tente separar o que é seu e o que é dos seus filhos. Cada um deles é um ser único e especial e vão viver a existência de um irmão de forma igualmente única e especial.
Um blog sobre psicologia, parentalidade e desenvolvimento pessoal. Aqui poderá encontrar artigos, reflexões e dicas para um "estar" mais pleno, equilibrando e gerindo as emoções na sua vida. Bem-vindo/a.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
domingo, 28 de setembro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
5 Dicas para acabar com as guerras às refeições
Os momentos das "grandes" refeições são óptimos
para a criança ter os pais à sua volta, atentos, focados e preocupados. E estes momentos às vezes são tão raros! É por isso que tantos pais têm dificuldades com a alimentação dos
filhos. Estes, precisam de sentir que têm algum controlo para acalmar a insegurança provocada pelo desejo de conquistar mais independência. Nada
melhor do que ser "um pisco" a comer para manter os pais em alerta e poder exercer esta certa forma de "poder".
Como ultrapassar?
Como ultrapassar?
Dica nº 1 - Tão simples e tão difícil como: "Quer comer? come. Não
quer? Não come."
Chegou o momento de ter coragem para se libertar daquela vozinha interior que lhe diz “mas ele/a tem que comer, se não, vai ficar magrinho/a e frágil e vai adoecer e..., e....., e.....”. Estes pensamentos insistentes, não passam de crenças enraizadas que nos levam a sentir medo, sem um verdadeiro fundamento. O primeiro passo é sem dúvida, não obrigar o seu filho a comer. Se a resistência a comer é uma forma de oposição e luta pelo poder, assim que deixar de ser uma obrigação, a "guerra" deixa de fazer sentido. Salvaguardando alguns casos que ultrapassam a "normalidade" (e esses casos devem ser devidamente avaliados e acompanhados clinicamente), a verdade é que qualquer criança vai comer exactamente o necessário para estar bem e saciar a sua fome. O meu lema é sempre: "comer tem que ser mais importante para a criança do que para os seus pais". Quando os pais ficam muito ansiosos com a alimentação de um filho, invertem-se as prioridades. Para os pais, a prioridade é fazer a criança comer. Para a criança, a prioridade é sentir-se em controlo da situação (claro que não é uma questão consciente para ela). O papel do seu filho é o de comer porque precisa e, porque tem fome. O papel dos pais é o de providenciar as condições para que isso aconteça. O cenário ideal é que ambos colaborem para que tudo se desenrole de forma tão saudável, quanto agradável.
Dica nº 2 - Mude a forma de comunicação à mesa.
Acabe com as ameaças do tipo "vais ficar doente". Acabe com as insistências do tipo "come mais um pouquinho", "come a carne" ou "come os legumes". Todos os temas e conversas são válidos durante os momentos de refeição (de preferência divertidos) desde que não se toque no assunto "filho não estás a comer nada de jeito”. Nos primeiros dias deixe que o seu filho se surpreenda com a falta de atenção que o “não comer” desperta. Já quando acontecer o contrário, e o seu filho começar a comer mais do que o habitual, então aí sim, será interessante reforçar com um “estás a gostar?”, "ficou saboroso?" ou "parece que estavas mesmo com fome...". Numa fase inicial, pretende que a criança desbloqueie a resistência a comer. Por isso, deixe as aprendizagens de "boas maneiras" para quando esta etapa estiver ultrapassada.
Dica nº 3 - Tenha em consideração os gostos do seu filho
Pense nas coisas que não gosta de comer... Quando vai a um restaurante é isso que pede? Como seria se alguém o forçasse a comê-las? As crianças estão numa fase em que ainda estão a explorar sabores e para o fazerem de forma mais aberta e ousada, é importante que sintam que o estão a fazer porque querem. Isso vai dar-lhes mais segurança para arriscarem novos sabores. Importa sim, na medida do possível, manter uma alimentação saudável e variada. Mas essa aprendizagem virá do exemplo que houver em casa e não de obrigarmos os nossos filhos a comer algo que não gostam.
A minha filha, como tantas outras crianças, avalia se gosta ou não de um alimento por "olhómetro" e, só depois de passar neste primeiro teste, segue para a prova efectiva. Devo confessar que esta é uma insistência da qual ainda não me consegui libertar. Por vezes, lá dou comigo a suplicar "prova só um bocadinho... vais gostar..." e a insistir "já sabes que se não gostares, não tens que comer...". Às vezes, por "caridade", lá me faz o "favor". Mas a verdade é que, quando me sento distraída a saborear qualquer coisa e me esqueço de lhe perguntar se quer provar, ela fica curiosa, aproxima-se, observa e pede para eu lhe dar um bocadinho. Foi assim que, só a titulo de exemplo, começou a comer os pêssegos com a casca (porque é assim que eu os como) e provou bolinhos de gengibre, canela e limão (que detestou claro).
Ainda relativamente ao "gosto" e "não gosto", é fundamental neste processo que não haja substituição do almoço e jantar por "guloseimas" como biberão, bolachas, iogurtes, etc. Essas substituições vão ter um efeito contraproducente e levarão a criança a adquirir maus hábitos alimentares. Evite também que a criança coma outras coisas antes da hora da refeição, vai reduzir-lhe o apetite e a vontade de experimentar outros sabores. Ter realmente fome quando chega a hora de comer é fundamental para que as coisas corram bem.
Dica nº 4 - Ajude o seu filho a desenvolver outras áreas de poder
Se o seu filho está a sentir necessidade de se afirmar e estabelecer a sua posição na estrutura familiar, então ajude-o a passar por essa etapa de forma saudável. Incluí-lo em todo o processo que envolva a refeição vai valorizá-lo. Ajudar a pôr a mesa, escolher o prato que quer usar (quando existem vários disponíveis), dar-lhe a hipótese de escolher entre vários alimentos (sem exageros), são alguns exemplos. Envolvê-lo na compra dos ingredientes também resulta muito bem. Posso partilhar por exemplo, que as melhores sopas que a minha filha comeu até hoje foram sem dúvida aquelas em que ela é que escolheu as cebolas e as batatas. Parece que, como que por magia, isso lhes confere um sabor especial. Por outro lado, quando percebi que a A. não gostava da sopa com muita cenoura, fiz questão de lhe dizer "já vi que não gostas que eu ponha muita cenoura na sopa". Desde então, quando me vê a fazer sopa ou quando a sirvo, pergunta-me sempre "tem muita cenoura, mãe?" e gosta de me ouvir responder "não, só um bocadinho. Porque tu não gostas quando ponho muita". Isto fá-la sentir que o gosto dela foi tido em consideração no planeamento e na preparação do jantar.
Dica nº 5 - Aceite que o caos pode ser desejável, e assim, preserve a sua sanidade mental.
Se queremos verdadeiramente desbloquear certos comportamentos nos nossos filhos, então é fundamental que possamos olhar também para nós e para as emoções e dificuldades que trazemos à situação. Tente perceber como se sente nos momentos da refeição. Tente perceber se de alguma forma, não existe também da sua parte alguma necessidade de controlo e poder. Se assim for, corre o risco de cair em braços de ferro sem sentido, em que todos ficam necessariamente a perder.
Lembre-se que insistência gera resistência, que gera mais insistência, e segue em crescendo.
É difícil para si ouvir o NÃO do seu filho? Aceite-se como é e reconheça as suas próprias dificuldades. Depois, respire fundo. Muitas vezes e muito profundamente. É um primeiro passo e, acredite, vai ajudar muito!
É difícil para si ver a sua casa num pequeno caos? Acredite que no inicio, quando a criança é mais pequena, uma cozinha muito suja depois da refeição, é muito bom sinal. É sinal de que o seu filho está a explorar e autonomizar-se. Acredite que limpar uma cozinha (vezes e vezes sem conta) é bem mais fácil do que lidar com a dependência (fora de horas) do seu filho. Claro que estamos a falar de situações em que a criança explora, tenta fazer coisas novas e comer sozinha. Quando o comportamento vai para além disso, então é importante estabelecer algumas regras. Mas atenção, porque é preciso saber medir muito bem esta avaliação. Lembre-se que é normal para uma criança (que está ainda a ganhar noção do seu corpo e do espaço) derrubar acidentalmente o copo, o prato ou outras coisas, e é importante que não se sinta punida por isso. Aceite que para o seu filho, crescer sujando é mais importante do que estar sempre limpinho e com medo de fazer novas conquistas! Hoje pagará o preço de ter a casa num pequeno caos. No futuro, ganha em ter um filho autónomo, com uma boa auto-estima e seguramente mais feliz.
Chegou o momento de ter coragem para se libertar daquela vozinha interior que lhe diz “mas ele/a tem que comer, se não, vai ficar magrinho/a e frágil e vai adoecer e..., e....., e.....”. Estes pensamentos insistentes, não passam de crenças enraizadas que nos levam a sentir medo, sem um verdadeiro fundamento. O primeiro passo é sem dúvida, não obrigar o seu filho a comer. Se a resistência a comer é uma forma de oposição e luta pelo poder, assim que deixar de ser uma obrigação, a "guerra" deixa de fazer sentido. Salvaguardando alguns casos que ultrapassam a "normalidade" (e esses casos devem ser devidamente avaliados e acompanhados clinicamente), a verdade é que qualquer criança vai comer exactamente o necessário para estar bem e saciar a sua fome. O meu lema é sempre: "comer tem que ser mais importante para a criança do que para os seus pais". Quando os pais ficam muito ansiosos com a alimentação de um filho, invertem-se as prioridades. Para os pais, a prioridade é fazer a criança comer. Para a criança, a prioridade é sentir-se em controlo da situação (claro que não é uma questão consciente para ela). O papel do seu filho é o de comer porque precisa e, porque tem fome. O papel dos pais é o de providenciar as condições para que isso aconteça. O cenário ideal é que ambos colaborem para que tudo se desenrole de forma tão saudável, quanto agradável.
Dica nº 2 - Mude a forma de comunicação à mesa.
Acabe com as ameaças do tipo "vais ficar doente". Acabe com as insistências do tipo "come mais um pouquinho", "come a carne" ou "come os legumes". Todos os temas e conversas são válidos durante os momentos de refeição (de preferência divertidos) desde que não se toque no assunto "filho não estás a comer nada de jeito”. Nos primeiros dias deixe que o seu filho se surpreenda com a falta de atenção que o “não comer” desperta. Já quando acontecer o contrário, e o seu filho começar a comer mais do que o habitual, então aí sim, será interessante reforçar com um “estás a gostar?”, "ficou saboroso?" ou "parece que estavas mesmo com fome...". Numa fase inicial, pretende que a criança desbloqueie a resistência a comer. Por isso, deixe as aprendizagens de "boas maneiras" para quando esta etapa estiver ultrapassada.
Dica nº 3 - Tenha em consideração os gostos do seu filho
Pense nas coisas que não gosta de comer... Quando vai a um restaurante é isso que pede? Como seria se alguém o forçasse a comê-las? As crianças estão numa fase em que ainda estão a explorar sabores e para o fazerem de forma mais aberta e ousada, é importante que sintam que o estão a fazer porque querem. Isso vai dar-lhes mais segurança para arriscarem novos sabores. Importa sim, na medida do possível, manter uma alimentação saudável e variada. Mas essa aprendizagem virá do exemplo que houver em casa e não de obrigarmos os nossos filhos a comer algo que não gostam.
A minha filha, como tantas outras crianças, avalia se gosta ou não de um alimento por "olhómetro" e, só depois de passar neste primeiro teste, segue para a prova efectiva. Devo confessar que esta é uma insistência da qual ainda não me consegui libertar. Por vezes, lá dou comigo a suplicar "prova só um bocadinho... vais gostar..." e a insistir "já sabes que se não gostares, não tens que comer...". Às vezes, por "caridade", lá me faz o "favor". Mas a verdade é que, quando me sento distraída a saborear qualquer coisa e me esqueço de lhe perguntar se quer provar, ela fica curiosa, aproxima-se, observa e pede para eu lhe dar um bocadinho. Foi assim que, só a titulo de exemplo, começou a comer os pêssegos com a casca (porque é assim que eu os como) e provou bolinhos de gengibre, canela e limão (que detestou claro).
Ainda relativamente ao "gosto" e "não gosto", é fundamental neste processo que não haja substituição do almoço e jantar por "guloseimas" como biberão, bolachas, iogurtes, etc. Essas substituições vão ter um efeito contraproducente e levarão a criança a adquirir maus hábitos alimentares. Evite também que a criança coma outras coisas antes da hora da refeição, vai reduzir-lhe o apetite e a vontade de experimentar outros sabores. Ter realmente fome quando chega a hora de comer é fundamental para que as coisas corram bem.
Dica nº 4 - Ajude o seu filho a desenvolver outras áreas de poder
Se o seu filho está a sentir necessidade de se afirmar e estabelecer a sua posição na estrutura familiar, então ajude-o a passar por essa etapa de forma saudável. Incluí-lo em todo o processo que envolva a refeição vai valorizá-lo. Ajudar a pôr a mesa, escolher o prato que quer usar (quando existem vários disponíveis), dar-lhe a hipótese de escolher entre vários alimentos (sem exageros), são alguns exemplos. Envolvê-lo na compra dos ingredientes também resulta muito bem. Posso partilhar por exemplo, que as melhores sopas que a minha filha comeu até hoje foram sem dúvida aquelas em que ela é que escolheu as cebolas e as batatas. Parece que, como que por magia, isso lhes confere um sabor especial. Por outro lado, quando percebi que a A. não gostava da sopa com muita cenoura, fiz questão de lhe dizer "já vi que não gostas que eu ponha muita cenoura na sopa". Desde então, quando me vê a fazer sopa ou quando a sirvo, pergunta-me sempre "tem muita cenoura, mãe?" e gosta de me ouvir responder "não, só um bocadinho. Porque tu não gostas quando ponho muita". Isto fá-la sentir que o gosto dela foi tido em consideração no planeamento e na preparação do jantar.
Dica nº 5 - Aceite que o caos pode ser desejável, e assim, preserve a sua sanidade mental.
Se queremos verdadeiramente desbloquear certos comportamentos nos nossos filhos, então é fundamental que possamos olhar também para nós e para as emoções e dificuldades que trazemos à situação. Tente perceber como se sente nos momentos da refeição. Tente perceber se de alguma forma, não existe também da sua parte alguma necessidade de controlo e poder. Se assim for, corre o risco de cair em braços de ferro sem sentido, em que todos ficam necessariamente a perder.
Lembre-se que insistência gera resistência, que gera mais insistência, e segue em crescendo.
É difícil para si ouvir o NÃO do seu filho? Aceite-se como é e reconheça as suas próprias dificuldades. Depois, respire fundo. Muitas vezes e muito profundamente. É um primeiro passo e, acredite, vai ajudar muito!
É difícil para si ver a sua casa num pequeno caos? Acredite que no inicio, quando a criança é mais pequena, uma cozinha muito suja depois da refeição, é muito bom sinal. É sinal de que o seu filho está a explorar e autonomizar-se. Acredite que limpar uma cozinha (vezes e vezes sem conta) é bem mais fácil do que lidar com a dependência (fora de horas) do seu filho. Claro que estamos a falar de situações em que a criança explora, tenta fazer coisas novas e comer sozinha. Quando o comportamento vai para além disso, então é importante estabelecer algumas regras. Mas atenção, porque é preciso saber medir muito bem esta avaliação. Lembre-se que é normal para uma criança (que está ainda a ganhar noção do seu corpo e do espaço) derrubar acidentalmente o copo, o prato ou outras coisas, e é importante que não se sinta punida por isso. Aceite que para o seu filho, crescer sujando é mais importante do que estar sempre limpinho e com medo de fazer novas conquistas! Hoje pagará o preço de ter a casa num pequeno caos. No futuro, ganha em ter um filho autónomo, com uma boa auto-estima e seguramente mais feliz.
Agora, é avançar com segurança e determinação.
Se está efectivamente a pensar implementar um novo sistema, fale disso com a sua família. Explique apenas que o mais importante é que se sintam todos bem e que os momentos de refeição possam ser de alegria. Acima de tudo, confie nas suas escolhas e lembre-se que vai precisar de calma e paciência. Será uma conquista gradual para pais e filhos mas, sem
dúvida uma que irá beneficiar toda a família num futuro próximo, quando
começarem a ter momentos agradáveis de refeição em família, cheios de respeito,
cumplicidade e muitos sorrisos.
Um abraço,
Um abraço,
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
"Não Quero ir para a Escola!"
E depois dos sorrisos e mimos matinais, começam os zangados "não quero ir para a escola!", "não quero brincar com os amigos!" e "não quero ir pintar!". Sorrio e com carinho traduzo as suas palavras dizendo "eu sei que é muito saboroso estar em casa com a mamã e com o papá. Eu também gosto muito quando brincamos juntas. Mas agora é hora de tu, o papá e a mamã trabalharem. Tenho a certeza de que te vais divertir muito! Quando voltares da escola brincamos novamente juntas". É tão bom ver o olhar confuso da minha filhota como quem pensa "não foi isso que eu disse... mas foi isso que eu senti!". E lá segue ela, feliz e contente, para a escola que ela adora de paixão!
Por vezes, os pais tendem a interpretar o que ouvem dos filhos apenas pelo que dizem as suas palavras. No entanto, é o seu sentir que tenta revelar-se e libertar-se da forma como pode. Nem a própria criança consegue entender o que sente. Assim, um dos papeis dos pais passa por ajudar nesse processo, "traduzindo" e separando as diferentes dimensões do que está a ser dito.
A A. adora a escola, é um facto. Mas também adora estar em casa com os pais, e é muito difícil para ela e todas as crianças pequenas conviverem com essas ambivalências. Ajudá-las a compreender, ajuda-as a sentirem-se mais confortáveis e serenas. Mas, principalmente, ajuda-as a separar as coisas. Não é por querer prolongar um momento, que não gostamos do momento a seguir. E em crianças pequenas como a A. (2 anos) o momento é só o que existe. Finalizar com um "quando voltares da escola vamos brincar novamente juntas" ajuda-a a desenvolver gradualmente a consciência do "depois".
Abraço,
Ana Guilhas
Por vezes, os pais tendem a interpretar o que ouvem dos filhos apenas pelo que dizem as suas palavras. No entanto, é o seu sentir que tenta revelar-se e libertar-se da forma como pode. Nem a própria criança consegue entender o que sente. Assim, um dos papeis dos pais passa por ajudar nesse processo, "traduzindo" e separando as diferentes dimensões do que está a ser dito.
A A. adora a escola, é um facto. Mas também adora estar em casa com os pais, e é muito difícil para ela e todas as crianças pequenas conviverem com essas ambivalências. Ajudá-las a compreender, ajuda-as a sentirem-se mais confortáveis e serenas. Mas, principalmente, ajuda-as a separar as coisas. Não é por querer prolongar um momento, que não gostamos do momento a seguir. E em crianças pequenas como a A. (2 anos) o momento é só o que existe. Finalizar com um "quando voltares da escola vamos brincar novamente juntas" ajuda-a a desenvolver gradualmente a consciência do "depois".
Abraço,
Ana Guilhas
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Ser mais feliz com a sua família feliz!
Li recentemente num livro de Deepack Chopra que em determinada altura da sua carreira como médico, resolveu perguntar aos seus pacientes o que queriam obter na vida. A cada resposta como "ter muito dinheiro", "a segurança dos meus filhos" ou "para comprar isto ou aquilo", ele respondia com um insistente "porquê?". Fez isto, até chegar aquela que aparentava ser uma resposta final e que estaria na base de todos os outros objectivos ou necessidades, "porque quero ser feliz". Todos os pacientes, a quem submeteu o interrogatório, pareciam ter chegado a uma única e comum resposta.
Há algo que une todas as pessoas, e como tal também todas as famílias, que é o desejo mais assumido, ou menos assumido, mais visível ou mais escondido, de SER FELIZ. O autor Tal Ben-Shahar, professor na Universidade de Harvard, no seu livro "Aprenda a Ser Feliz"1 dá o exemplo do seu primeiro grande confronto com esta questão. Aos 16 anos, ganha o campeonato nacional israelita de squash e, depois de um dia e noite de euforia e comemoração, vê-se sozinho no quarto a chorar. Nos dias que se seguiram, essa desolação foi aumentando. E sentiu pela primeira vez que não seria criando outra meta (o campeonato do mundo p.ex.) que iria alcançar a felicidade e preencher o vazio que sentia.
Consegue imaginar uma pessoa com a carreira "perfeita", a família "perfeita", tudo muito lindo e organizado e, no entanto, um tremendo vazio por dentro? Sim, isso é perfeitamente possível e acontece tantas vezes! Esse sentimento causa-nos estranheza, e quanto mais olhamos para fora, mais estranho nos parece. Acabamos por negar a existência desta tristeza que guardamos bem lá no nosso íntimo. Quanto mais escondida está, mais parece invadir-nos. O que é que nos falta? Ser felizes?
Segundo Tal Ben-Sharar, antes de mais, a questão a ser colocada não é "como posso ser feliz" mas antes "como posso ser MAIS feliz?". Segundo este autor, a felicidade encontra-se no equilíbrio entre a experiência do prazer (vivência do presente) e a noção de significado/ propósito (investimento no futuro). Não basta ter noção de um propósito ou de um ideal. É necessário sim, ter também "à vista" do presente, acções específicas relacionadas com esse ideal e que sejam geradoras de prazer.
Ou seja, se eu quiser "ter uma família feliz" mas estiver focada em chegar lá pela estabilidade financeira, o sucesso escolar dos meus filhos, e o cumprimento de uma série de outras obrigações sociais, corro o risco de me distanciar dos factores que realmente caracterizam essa felicidade. Quanto tempo sobra para rirmos em conjunto, para dizermos e sentirmos que nos amamos? Quanto tempo, e com que qualidade, estou hoje com o meu filho/a?
Se um dos meus propósitos é ter uma família feliz, ou dizendo melhor ainda, ser mais feliz com a minha família feliz, não basta ter casado, não basta ter um filho e não basta ter mais outro e depois cumprir rigorosamente as expectativas sociais. Preciso sim, de saber hoje (e todos os dias), como vou viver (agindo) a minha relação amorosa? Como vou viver hoje, os meus filhos? Como vou viver esta família feliz, através de acções e prazeres concretos?
Organizar um pic-nic para o fim de semana; Combinado deixar os filhos com os avós ou com amigos enquanto vamos ao cinema com o/a companheiro/a; Escolher reunir a família todos os dias ao jantar e fazer desse momento um momento agradável; Porque não um jogo em família antes ou depois do jantar consoante os horários? Tudo isto são acções, concretas e reais que tornam um ideal numa realidade de hoje.
Pensarmos no ideal só por si poderia ser um pouco como um adolescente a quem se pergunta o que pretende fazer profissionalmente. Este, responde que quer ser actor. Quando lhe perguntamos se já teve algum tipo de aula de representação ou se já se inscreveu em algum grupo de teatro, responde que não. Esta forma idealizada de viver pode tornar-se até perigosa pelo vazio que trás consigo. Por outro lado, podemos ter um jovem que olha apenas à meta. Trabalha "desalmadamente" para tirar um curso de medicina, sacrifica as amizades pessoais, o seu tempo de lazer, isto por vários anos, e depois de ter o diploma na mão, já não tem bem certeza de querer ser médico. E aí vem novamente o vazio.
Não temos apenas um propósito na vida. É um facto. E nem sempre é possível retirar prazer de tudo o que fazemos. O segredo está em gerir os diferente ideais e respectivas acções de forma a que possamos investir em nós e retirar prazer não de tudo, mas sim do nosso dia-a-dia.
Tal como no exemplo referido no inicio, o prazer fugaz retirado do momento em que se atinge um objectivo, principalmente quando realizado às custas do sacrifício de vários anos, não compensa o que intimamente sentimos que perdemos. E neste ciclo de "competição desenfreada" com a vida, forçamo-nos a arranjar outro objectivo e repetir o sacrifício por mais uns anos. A felicidade vai sendo adiada e quando chega, não nos satisfaz. E assim sucessivamente.
Por uma questão de semântica, o futuro nunca é hoje e nós não existimos senão no hoje. Se nos sentimos em luta constante pelo futuro, então onde fica a nossa existência?
Se quer ser feliz e fazer parte de uma família feliz, o dia é hoje!
Abraço,
Referências bibliográficas:
1. Ben-Shahar, Tal. Aprenda a Ser Feliz, Porto, Edições ASA II, S. A. ,2008
Há algo que une todas as pessoas, e como tal também todas as famílias, que é o desejo mais assumido, ou menos assumido, mais visível ou mais escondido, de SER FELIZ. O autor Tal Ben-Shahar, professor na Universidade de Harvard, no seu livro "Aprenda a Ser Feliz"1 dá o exemplo do seu primeiro grande confronto com esta questão. Aos 16 anos, ganha o campeonato nacional israelita de squash e, depois de um dia e noite de euforia e comemoração, vê-se sozinho no quarto a chorar. Nos dias que se seguiram, essa desolação foi aumentando. E sentiu pela primeira vez que não seria criando outra meta (o campeonato do mundo p.ex.) que iria alcançar a felicidade e preencher o vazio que sentia.
Consegue imaginar uma pessoa com a carreira "perfeita", a família "perfeita", tudo muito lindo e organizado e, no entanto, um tremendo vazio por dentro? Sim, isso é perfeitamente possível e acontece tantas vezes! Esse sentimento causa-nos estranheza, e quanto mais olhamos para fora, mais estranho nos parece. Acabamos por negar a existência desta tristeza que guardamos bem lá no nosso íntimo. Quanto mais escondida está, mais parece invadir-nos. O que é que nos falta? Ser felizes?
Segundo Tal Ben-Sharar, antes de mais, a questão a ser colocada não é "como posso ser feliz" mas antes "como posso ser MAIS feliz?". Segundo este autor, a felicidade encontra-se no equilíbrio entre a experiência do prazer (vivência do presente) e a noção de significado/ propósito (investimento no futuro). Não basta ter noção de um propósito ou de um ideal. É necessário sim, ter também "à vista" do presente, acções específicas relacionadas com esse ideal e que sejam geradoras de prazer.
Ou seja, se eu quiser "ter uma família feliz" mas estiver focada em chegar lá pela estabilidade financeira, o sucesso escolar dos meus filhos, e o cumprimento de uma série de outras obrigações sociais, corro o risco de me distanciar dos factores que realmente caracterizam essa felicidade. Quanto tempo sobra para rirmos em conjunto, para dizermos e sentirmos que nos amamos? Quanto tempo, e com que qualidade, estou hoje com o meu filho/a?
Se um dos meus propósitos é ter uma família feliz, ou dizendo melhor ainda, ser mais feliz com a minha família feliz, não basta ter casado, não basta ter um filho e não basta ter mais outro e depois cumprir rigorosamente as expectativas sociais. Preciso sim, de saber hoje (e todos os dias), como vou viver (agindo) a minha relação amorosa? Como vou viver hoje, os meus filhos? Como vou viver esta família feliz, através de acções e prazeres concretos?
Organizar um pic-nic para o fim de semana; Combinado deixar os filhos com os avós ou com amigos enquanto vamos ao cinema com o/a companheiro/a; Escolher reunir a família todos os dias ao jantar e fazer desse momento um momento agradável; Porque não um jogo em família antes ou depois do jantar consoante os horários? Tudo isto são acções, concretas e reais que tornam um ideal numa realidade de hoje.
Pensarmos no ideal só por si poderia ser um pouco como um adolescente a quem se pergunta o que pretende fazer profissionalmente. Este, responde que quer ser actor. Quando lhe perguntamos se já teve algum tipo de aula de representação ou se já se inscreveu em algum grupo de teatro, responde que não. Esta forma idealizada de viver pode tornar-se até perigosa pelo vazio que trás consigo. Por outro lado, podemos ter um jovem que olha apenas à meta. Trabalha "desalmadamente" para tirar um curso de medicina, sacrifica as amizades pessoais, o seu tempo de lazer, isto por vários anos, e depois de ter o diploma na mão, já não tem bem certeza de querer ser médico. E aí vem novamente o vazio.
Não temos apenas um propósito na vida. É um facto. E nem sempre é possível retirar prazer de tudo o que fazemos. O segredo está em gerir os diferente ideais e respectivas acções de forma a que possamos investir em nós e retirar prazer não de tudo, mas sim do nosso dia-a-dia.
Tal como no exemplo referido no inicio, o prazer fugaz retirado do momento em que se atinge um objectivo, principalmente quando realizado às custas do sacrifício de vários anos, não compensa o que intimamente sentimos que perdemos. E neste ciclo de "competição desenfreada" com a vida, forçamo-nos a arranjar outro objectivo e repetir o sacrifício por mais uns anos. A felicidade vai sendo adiada e quando chega, não nos satisfaz. E assim sucessivamente.
Por uma questão de semântica, o futuro nunca é hoje e nós não existimos senão no hoje. Se nos sentimos em luta constante pelo futuro, então onde fica a nossa existência?
Se quer ser feliz e fazer parte de uma família feliz, o dia é hoje!
Abraço,
Referências bibliográficas:
1. Ben-Shahar, Tal. Aprenda a Ser Feliz, Porto, Edições ASA II, S. A. ,2008
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
"Socorro, a escola dos meus pais vai começar!"
A propósito do início das aulas, vou deixar aqui uma citação. Apenas para podermos reflectir acerca de algumas coisas... Se for do vosso interesse, posso depois alongar-me um pouco mais acerca desta questão.
No seu livro "A Criança Explicada Aos Pais - Segundo Dolto", Jean-Claude Liaudet (psicólogo e psicanalista) a propósito da escola refere:
"É uma escola-tipo para uma criança-tipo que não existe. O ritmo pessoal da criança, as suas motivações para aprender, ligadas à sua história afectiva singular, não são nem tidas em conta nem respeitadas.
Uma inadaptação escolar não é pois inquietante em si. Isso significa as mais das vezes que a escola não está adaptada à criança, e que se trata de lhe encontrar situações mais favoráveis para se desenvolver intelectualmente. (...)
Françoise Dolto muito cedo notou o caso de crianças profundamente inadaptadas, irrecuperáveis aos olhos dos docentes. A guerra de 1939-1945 salvou mais do que uma dessas situações interrompendo-lhes a escola. Ela cita o exemplo duma criança refugiada no campo e que o professor primário duma classe única aceita acolher, sem lhe exigir nenhum trabalho escolar, tendo o teste de inteligência de Binet-Simon diagnosticado um atraso mental importante. A criança não ia à escola senão quando queria, divertindo-se a fazer como os pequeninos quando lhe apetecia, a responder às perguntas da secção dos meios quando lhe dava no goto. Em três anos ela tinha atingido um nível normal sem que alguém se ocupasse dela.
Françoise Dolto cita igualmente o caso duma criança que não podia mais frequentar a sua classe. Ela toma a iniciativa de a fazer viver no campo longe de qualquer escola, onde ela depressa desaprende o pouco que sabia. Ao fim de um ano, a caseira encarrega-se de a ensinar a ler, à razão de uma meia hora por dia... Em três anos, ela recuperou o nível da sua classe de origem. mais tarde, terminou o secundário, depois veio a ser veterinário.
Foi porque os pouparam à pedagogia escolar que estas crianças consideradas irrecuperáveis puderam aprender."(Liaudet, 2000, p.133)
Não pretendo condenar a escola (sem direito a julgamento) e fingir que não nos trouxe tanto do bom que temos. Esta questão, para mim, não é linear. Fica apenas no ar o facto de que a escolarização tal como é vivida nos dias de hoje, não é necessariamente a melhor. Mas também acho, que para já, é a que existe e devemos saber reconhecer e agradecer o que nos dá.
Agora a grande questão para mim é - Não estão a sentir no ar a tensão crescer com o início das aulas? - E não estamos a falar de tensão nas crianças. Estamos a falar de tensão nos pais. Como se fossem os pais a voltar para a escola (uma escola que tantas vezes foi terrível para eles).
Porque é que isso acontece? Que dimensão é esta que a escola ganha na vida da família? No primeiro dia de escola, os nossos filhos carregam já com eles esta sensação, este peso das expectativas (suas, mas principalmente as dos pais), estes deveres e obrigações de sucesso, de fazer igual ou melhor que o ano passado, etc.
Será que, por vezes, não nos baralhamos um pouco e nos deixamos invadir pela sensação de que o sucesso ou insucesso escolar dos nossos filhos, nos define como pais? De que o seu sucesso ou insucesso é também o nosso sucesso ou insucesso?
Respiremos fundo e libertemos os nossos filhos de tanto, mas tanto, que é nosso!
Abraço apertado aos meninos pais e boa escola!
Subscrever:
Mensagens (Atom)





