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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Poder Mágico dos Braços

Se os olhos são "o espelho da alma", os braços são os seus fieis executores. Os braços recebem, contêm. Podem apertar, aprisionar, mas também podem libertar, deixando vir e deixando ir, ao ritmo do bebé, da criança, do adulto. Com os (a)braços abrimo-nos ao outro e aceitamos recebê-lo e acolhê-lo em nós. Com os braços dizemos coisas simples como "eu estou aqui", "aceito-te como és" e "quando fores, levarás este sentir dentro de ti".

É por isso que devemos abraçar os nossos filhos. É por isso que nos devemos deixar abraçar. É por isso que os abraços são uma das melhores coisas do mundo. No abraço está a sintonia, a comunhão, o corpo rendido. E é por isso que os braços, têm um especial poder mágico. Não esquecendo, porém, que também com os olhos, o sorriso e a escuta, se pode abraçar a Alma de outro alguém. 

Mas, estes mesmos braços, podem ainda viver em si fantasmas do passado e ansiedades do futuro. Só isso explica as inúmeras vezes que ainda se ouve dizer às mães: "não dês muito colo, olha que o bebé fica mal habituado" (como quem diz "cuidado com esse pequeno devorador de carinho"). Só isso explica que se guardem os abraços, "religiosamente", para momentos específicos (casamentos, funerais, aniversários, etc), como se fosse necessário prevenir uma eventual escassez deste bem precioso. E também existem os braços que empurram, e empurram, e por mais que a criança volte (porque não é o seu tempo), os braços repetem para si mesmos "é importante autonomizar a criança". Como se a autonomia de um Ser nascesse do desejo do outro (mãe/pai) e não de si mesmo (um contra senso).

Não deixe que os seus braços tenham medo, não deixe que os seus abraços sejam ansiosos mas, principalmente, não deixe que os seus braços estejam paralisados (por uma qualquer razão). O maior desafio não está em mudar, está em fazer escolhas. As nossas escolhas. Mas é também aí que está o maior poder. Na escolha do que queremos ser, ter e dar. E nós pais, devemos perguntar a nós mesmos, como é que nos deixamos tocar. O que diz a nossa pele quando é tocada por outra pele? Como, e quem, é que eu abraço? Como, e por quem, me deixo abraçar? 

E com as respostas a estas perguntas, podemos querer continuar, ou aprender, a fazer "magia". 

Um abraço bem apertadinho.

Artigo escrito por Ana Guilhas, Psicóloga 
Para a Up To Kids
Originalmente publicado aqui

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Amor Fácil?!

Era tão bom se o amor fosse fácil?

Não! Não era! O amor não foi feito para ser fácil. Mas a verdade é que o amor também não foi feito para ser doente...

Pois é, um amor romântico, dos filmes ou dos livros, em que a relação é perfeita e o mundo é que não. Em que tudo correria bem, não fossem as ameaças externas, os desencontros provocados pela vida ou por malvadez alheia, não existe.

O amor só pode ser vivido na relação. E a relação é uma construção. Cada tijolo dessa construção é de fabrico caseiro, e é feito do mesmo “material” de que nós somos feitos. A relação que se constrói é assim, apenas e tão só, o reflexo do que cada um dos envolvidos tem em si para dar e construir. A relação é tão sólida quanto a solidez de quem ama, tão saudável quanto a saúde de quem ama, tão inteira quanto a existência de quem ama.

Então quando é que a relação faz sofrer e destrói? Quando nos dói o íntimo e sofremos escondidos. Quando nos ligamos ao outro na esperança de que nos dê aquilo que acreditamos não ter, ou que nos ajude a ultrapassar os fantasmas do passado, ainda que apenas os acorde e reforce ainda mais. Quando carregamos um vazio e vemos no outro o preenchimento. Mas aí, o outro deixa de ser o outro e o eu deixo de ser eu. E se não existimos, não podemos amar. Apenas depender, sofrer e fingir uma esperança que não existe.

Amores doentios, são feitos de necessidade, medo de perda, posse. Imperam os ciúmes sem sentido, a desvalorização, humilhação, a necessidade de modificar o outro na sua essência. A luta faz-se entre os medos infantis e irracionais de cada um. Pessoas incompletas procuram exorcizar os seus fantasmas na relação. O resultado é medo, dor, sofrimento, violência...

Amores saudáveis, implicam afecto, admiração, consideração e respeito de parte a parte. Mesmo na diferença, mesmo nas divergências. Implica que cada um se ame a si mesmo, e veja no outro o reflexo desse amor-próprio. O vínculo é de lealdade e não de pertença. Implica zangas, discussões e descontentamento, também. Mas aqui, com aprendizagem, tolerância e crescimento conjunto.

O amor patológico faz um caminho que vai da paixão à insatisfação ou ao caos. O amor maduro, parte da paixão e segue pelo caminho do ajuste, criatividade e construção.

O amor não se quer simples, nem linear porque o amor é uma força criadora e transformadora. Isso, implica a diferença que dá movimento e que não cola mas complementa.

Publicado originalmente no jornal "Notícias de Cá e de Lá" nº 31, de 3 de Junho.