domingo, 24 de dezembro de 2017

O Natal não é Mágico!

O Natal não é mágico! Como às vezes fingimos acreditar. Antes pelo contrário, é bem real (e por vezes, até bastante duro).

Acima de tudo, é uma oportunidade de (re)encontrarmos algumas das nossas verdades. Sentirmos o que nos dói, o que nos conforta, o que nos faz falta, o que temos...
Há quem se choque com o consumismo, há quem se consuma em vazios. Há quem dê aos outros para si-mesmo, há quem dê a si-mesmo para dar aos outros. Amores que serenam, ódios necessários... As contradições são Vida e a vida é bem real. Tal como o Natal.

O que vos desejo? Que neste Natal se dêem de presente a vocês mesmos . Hoje mais que ontem, amanhã mais que hoje, e passo a passo, ano a ano, se encontrem em Amor Próprio (e pelo Outro). E que este Natal, independentemente de ser dos que doem, dos que fazem sorrir, dos que fazem sonhar, ou dos que fazem chorar, que seja, sobretudo, um Natal de acolhimento e respeito pelo vosso sentir. E que assim, só assim, possa ser genuinamente o vosso Natal. 

E o encontro com o que é nosso... é Mágico! ;)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Estamos "Trumpados"

A definição mais comum da palavra "política" remete para a "habilidade, prática ou ciência de governar uma nação". Este conceito assenta no pressuposto de que existem assuntos que dizem respeito, interessam e afectam todos os cidadãos, embora possa ser aplicado (diria mais "usado") de formas muuuuuito diferentes (e tantas vezes questionáveis). Ainda que se possa organizar das mais diversas maneiras, regra geral, trata-se de um grupo (grande) de pessoas, representado e/ou liderado por um grupo mais pequeno de pessoas, que por sua vez, se faz representar ou segue um determinado indivíduo.
O topo da pirâmide, carrega em si, a responsabilidade do bem estar de uma nação e de toda a sua população, e idealmente, estaria ocupado por pessoas maduras, mentalmente sãs e com um bom nível de auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal.  Na realidade, os cargos políticos são, ou deveriam ser, por definição, cargos de "serviço" ao outro. No entanto, não é fácil ter essa vocação. Para servir, é preciso ser-se inteiro e não se estar a compensar "fragilidades" do ego. É preciso não precisar do amor do outro, que é como quem diz, não precisar de ser admirado ou venerado. Só quem é dotado de grande sabedoria e compaixão, só quem consiga interessar-se verdadeiramente pela individualidade e aceitar a diferença, consegue estar à altura de cargos políticos.  
A questão é que, para além do altruísmo genuíno, da maturidade psicoafectiva, do desejo de fazer positivamente a diferença na vida das pessoas, a política (e em particular as funções de topo) torna-se particularmente atractiva para um tipo muito particular de personalidade. Na Perturbação Narcísica da Personalidade, o individuo sente necessidade de protagonismo e alimenta-se de ideias de grandeza. É verdade que muitas vezes procuram compensar sentimentos de insignificância e de inferioridade, mas o facto é que se "defendem" pela arrogância, e pautam-se por um implacável egocentrismo. Normalmente, existe acima de tudo uma incapacidade de ver o mundo por um ponto de vista diferente do seu, acreditando que só está bem feito o que é feito à sua maneira e de acordo com as suas crenças. As ilusões de superioridade e a necessidade de criar uma realidade em que se sinta especial e importante, levam estas pessoas a procurar funções que lhes proporcionem notoriedade social, reconhecimento e/ou fama. E infelizmente, nada melhor do que a política, certo?

É fazer-se ver, fazer-se ouvir, conseguir criar uma estranha forma de carisma, e assim,  conquistar votos. O problema é que a seguir às eleições vem mais, muito mais. Vimos nós todos. Os que sustentam a pirâmide. E quando quem "ganha" não tem em si o que realmente é preciso, então aí, estamos todos "trumpados"!

Originalmente publicado em "Notícias de Cá  de Lá" nº 45 de 10 de Dezembro de 2016.
Autora: Ana Guilhas

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

“Apocalipse Zombie”

As histórias são muitas e contadas de muitas formas diferentes. Versão romance, aventura thriller ou terror, a base é mais ou menos a mesma. Um grupo de pessoas, procura sobreviver numa luta, não contra as forças da natureza, nem "aliens", asteróides ou guerras, mas sim, contra outro grupo de pessoas transformadas em monstros de algum tipo. Aqui a panóplia é mais ou menos vasta. Lobisomens, vampiros, feiticeiros ou ainda outras criaturas maléficas (com clara predilecção pelos zombies), tentam devorar ou transformar os sobreviventes em seres demoníacos, normalmente desprovidos de consciência humana. Walking Dead, Game of Thrones, The Strain, IZombie, Wayward Pines são apenas alguns exemplos. O mesmo tema prolifera nos filmes, livros, jogos de video e até desenhos animados para crianças. O que há nos zombies que atrai tantas pessoas ultimamente? Seres humanos transformados numa forma alternativa de vida. Forma esta, que pode ir do menos humano (o morto vivo clássico, que não sente, não pensa, não controla e apenas age mecânicamente) ao simpático zombie estudante, como tantos adolescentes que conhecemos. 

Inicialmente, imaginei que o investimento nesta fantasia representava uma tentativa desesperada das pessoas poderem prolongar a vida para além da vida, numa forma de imortalidade, fosse ela qual fosse. Do outro lado, a adrenalina habitual de sentirmos a coragem, o engenho e a força dos sobreviventes, com os quais tentamos identificar-nos (ou não). Também pensei na hipótese das pessoas se estarem a antecipar ao "juízo final", numa espécie de “depois de ver tantas séries destas, quando o Apocalipse chegar, vou estar preparado”. Só mais recentemente me ocorreu, que tal como na maior parte das experiências da vida, o que acontece fora de nós e mexe connosco, fá-lo porque nos espelha algumas coisas. Normalmente, confrontam-nos com aspectos bons e maus da nossa vida, assim como medos e desejos. Parece-me que o crescente interesse e aparente entusiasmo com o “Apocalipse Zombie”, não será diferente. E pode, na verdade, retratar partes de nós. Quem sabe, o medo de não estarmos verdadeiramente vivos, o medo de não termos controlo sobre as nossas escolhas, o medo de, no fundo, a nossa vida ser desprovida de “Alma”. Por outro lado, retrata também o desejo de sobreviver, o desejo de lutar, o desejo de se ser especial, capaz de auto-preservação e salvação da Humanidade e da humanidade (com h pequeno) que há em nós. Salvar do quê? Da invasão do mal, da contaminação do vazio e dos “devoradores de vidas”. Estas histórias, consciente ou inconscientemente, espelham-nos o que de pior e melhor há na nossa existência. Contrastam as “bestas” que por vezes conseguimos ser, em vidas egoístas e carentes de sentido, com a força de criar, construir, lutar e sobreviver, num mundo em transformação. 

Pois acredito agora, que estas séries e filmes são na realidade um retrato dos dias de hoje, mascarados de acontecimentos futuros e envolvidos em fantasia suficiente para o disfarçar. Quanto a serem realistas. Cada um dirá por si.

Autor: Ana Guilhas
Originalmente publicado em "Notícias de Cá e de Lá" nº 44 de 2 de Novembro de 2016 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

No Interior se Gera a Vida


Tal como uma semente, que tem que cair em solo fértil para vingar, também uma ideia, um desejo, um amor, precisa da mesma fertilidade, e das condições de protecção e evolução para crescerem forte e saudavelmente. Mas é no exterior que tantas vezes nos focamos. Procuramos coisas, amor, realização... Procuramos o que pensamos querer (e precisar) para nos sentirmos a viver. Em vão, esperamos que cresça, apesar de não lhe darmos solo (ou colo). Na verdade, esse só existe no nosso interior. Sem sabermos, toda a fertilidade de que necessitamos está dentro de nós. É no ventre que se gera e cresce a vida, ciclo após ciclo.  É aí que começam os milagres. Mas a vida não é exclusiva de um novo Ser que venha ao mundo. Vida é tudo o que conseguimos construir, gerar, fertilizar ao longo de uma vida já existente, e tão preciosa quando qualquer outra. A nossa.

Focados no exterior, procuramos elogios, procuramos que nos amem, procuramos que nos valorizem e dêem reconhecimento. E por vezes, até o conseguimos ter. Mas aí, tal como escravos da “exterioridade”, continuamos a mendigar, a lutar por mais, na expectativa de que possamos sentir que ganhamos um pouco também dentro de nós. De alguma forma, é como fixar-nos numa semente, e contemplá-la longamente, sem lhe pôr terra, sem a regar, sem a cuidar e amar verdadeiramente, ainda que com a expectativa de a ver crescer e a poder “sentir”. Por vezes até, há quem agarre essa semente, e que tente cuidar dela no nosso lugar. Mas aí, nunca será a nossa semente e no íntimo sentimos isso. O que queremos para nós, só pode vir do mais fundo das nossas entranhas. É aí que se esconde a “Alma”. É aí que guardamos a Vida. A nossa vida. É por isso que digo que só vive verdadeiramente quem se vive a si mesmo. Quem olha, vê, contempla e cuida do seu interior. Quem chora as suas mágoas, sorri as suas alegrias, ama e odeia cada minuto da sua própria vida, numa honestidade (tão difícil quanto libertadora) do que verdadeiramente é, e tem. É no interior que se gera uma vida, é no interior que se guarda a vida de quem partiu, é no interior que vive quem amamos, é no nosso interior que vivemos verdadeiramente. Só assim, germinará a semente e abrirão um dia as suas flores, crescerão os seus frutos, que esses sim, contemplarão o sol e farão as delícias de quem escolhemos ter, também, no nosso exterior.  

Originalmente publicado em "Noticias de Cá e de Lá" edição 42 de 10 de Agosto.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Dor do Outro


Conhece certamente a expressão popular “com a dor dos outros, posso eu bem!”. Embora possa ter várias linhas de interpretação, a verdade é que ela pode ajudar-nos também a pensar sobre uma realidade tão assustadora quanto real: nem toda a gente consegue sentir para além de si mesmo. Jovens que espancam e aterrorizam outros jovens, adolescente que tortura o cão (e orgulhosamente publica na Internet), 30 homens que violam uma jovem de 16 anos, e por aí adiante. Parece ir em crescendo, mostrando que o Ser Humano consegue sempre mais um bocadinho de horror a cada passo. O mais fácil seria pensar que se tratam de casos mais ou menos pontuais, ou circunscritos a determinadas realidades, e originados na doença mental, como é o caso da sociopatia, as estruturas de personalidade perversas, ou outras formas de patologia. Mas não podemos ficar-nos por esta análise. Onde fica a intervenção? Como são tratados estes casos para que os horrores não se voltem a repetir? O que é feito a título de prevenção para evitar que o “comum mortal” esteja à mercê do principal predador dos humanos, o próprio Ser Humano? Se grande parte da resposta é, por um lado, institucional, por outro, não podemos esquecer que directa ou indirectamente, somos todos participantes.
Como é que habitualmente reagimos? Assustamo-nos por uns dias, indignamo-nos e ditamos “sentenças” como “era torturá-los a todos”, “era matá-los aos poucos”, “era fazer-lhes igual”, etc. Depois, voltamos à nossa vida “normal”, à espera de ficar indignados com outros tantos horrores que venham a ser noticiados mais tarde. E cada palavra de revolta faz-nos sentir envolvidos, activos e mais humanos. Mas, contas feitas, tudo não passa de um folclore inútil que na realidade nada muda.
Não há volta a dar: a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos é de todos nós! A indiferença perante o sofrimento alheio não é exclusiva de pessoas com estruturas de personalidade patológica ou pessoas profundamente adoecidas. Demasiadas vezes, para (sobre)vivermos num mundo de contrastes e ainda com tanta dor, nos defendemos do envolvimento, em nome da nossa própria sobrevivência psicológica, através de um distanciamento artificial. Uma espécie de “não vejo, ou não dói tanto, porque não aconteceu no meu quintal”.

A verdade é que se muitos dos horrores, que nos chocam nas notícias, são protagonizados por pessoas perturbadas e/ou profundamente doentes, existe toda uma responsabilidade a atribuir à cultura, aos hábitos, às mentalidades de quem faz parte do contexto em que essas situações, que mais parecem “filmes de terror”, se desenrolam. Ainda que não tenhamos sempre consciência disso, não intervir perante muitas das coisas que vemos no nosso dia-a-dia, é autorizar que, mais tarde, aconteçam coisas que não queremos ver. Lamentavelmente, também somos culpados quando deixamos que em nós se enraíze o sentimento de “não vale a pena fazer nada”. Provavelmente umas das expressões mais destrutivas do poder Humano, o poder de intervir na “dor do outro”.

Originalmente publicado em "Notícias de Cá e de Lá" nº 41 de 30 de Junho 2016

Incoerências


Na vida, as contradições são muitas, e nem sempre o que se apresenta aos olhos é o mais importante de se ver. Outras tantas vezes, não representa aquilo que realmente sentimos, queremos ou sabemos no nosso íntimo.
E assim, podemos estar muito longe de pessoas que estão ao nosso lado, e muito perto de quem já partiu. Podemos fugir de amar e sermos amados, quando na realidade o Amor é tudo o que mais precisamos e queremos alcançar. Podemos manter-nos sós, quando queremos profundamente partilhar-nos com alguém. Podemos ter medo de morrer,  quando intimamente sentimos que não estamos a viver. Podemos ter medo do que não nos faz mal, submetendo-nos a uma vida de perigosa insatisfação. Podemos acreditar na felicidade futura, desprezando a vivência do hoje. Podemos desejar o amor de quem mais odiamos (e amamos). Podemos querer receber, sem sabermos o que temos em nós para dar.
Com uma grande dose de coragem e um desejo forte de viver plenamente, é para dentro que aprendemos a espreitar. Aí, abrimos espaço para perceber que a verdadeira luta a travar não é contra o mundo, mas é sim interna. E quem se sente só, tem que caminhar em direcção ao outro. Quem se sente vazio, deve dar a si mesmo. Quem aceita viver a tristeza que tem em si, sente-se cada vez mais capaz de alegria. E um mundo que parece tão injusto e tão cheio de incoerências, diz-nos que a vida pode ser também doce e prazerosa. Mas para ter prazer com o que fazemos, temos primeiro que ter prazer no que somos.

Só vive livre quem aprende a encontrar em si, as suas incoerências. Só vive bem, quem aprende a entendê-las. Só vive com poder, quem não aceita render-se. 

Originalmente publicado em "Notícias de Cá e de Lá" nº 40, 10 de Maio 2016

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Seu Filho Ainda Tem Medo de Dormir Sozinho?

"O Quarto da Criança, um Reflexo do seu Espaço Interno"

Com alguma frequência, mães de crianças entre os ​7 e os 11 anos pedem-me ajuda porque os filhos não adormecem sozinhos. A mãe tem de se sentar/deitar ao seu lado até adormecer, e sempre que acorda à noite chama pelo pai ou pela mãe. Existem muitas teorias, crenças e falsas ideias sobre esta questão. Por essa razão, gostaria de partilhar algumas reflexões que me parecem importantes.

1. Entender a Situação

​Cada criança, família e situação é única. E por essa razão, é fundamental primeiro entender, explorar e contextualizar. A idade da criança, por exemplo, faz toda a diferença. Por outro lado, não existem fórmulas mágicas, nem universais. É por essa razão, que antes de mais nada, é preciso responder a algumas perguntas. 
​P​or exemplo, porque é que a mãe tem de se deitar com ele? O que acontece se não o fizer? Como é que ele reage? Chora? Fica triste? Zanga-se? Levanta-se? Apenas insiste? Não consegue adormecer? Alguma vez a criança dormiu sozinha​? Se sim, quando é que começou a precisar de companhia? O ​quarto dos pais fica muito longe do da criança? Como seria se a mãe ou o pai, ao invés de se deitar com o filho, lhe fizesse apenas companhia durante algum tempo, sentada na cama, ou numa cadeira ao lado da cama? Os pais já conversaram com o filho acerca da situação? Se for o caso, quais são as razões que ​a criança dá para querer a sua presença ao adormecer e durante a noite? 
​É frequente responderem que o filho tem medo de​ "estar só​". Aí, é importante perceber melhor o que é estar só. É estar habituado a estar sempre acompanhado? Tem medo? Se sim, do quê? Sente-se ansioso, triste ou angustiado? 
Por fim, seria importante saber como a mãe ou o pai se sente​m​ com esta situação? Preferem dormir ao lado do filho, ou na sua cama (ao lado do seu ​companheiro/a, se for o caso)? Já se sentaram os três e conversaram sobre o que cada um sente relativamente a esta questão​, e como se poderão ajudar uns aos outros? O que é que cada ​elemento da família precisa?

2. A capacidade da criança dormir no seu quarto​

A capacidade de dormir sozinho, envolve na pessoa (da criança ao adulto) uma série de recursos e competências que são fisiológicas numa fase inicial, e gradualmente, cada vez mais emocionais. Se considerarmos um bebé, que acaba de chegar ao mundo e que não tem em si ainda a capacidade de se ver e reconhecer como um ser individual e “separado” da sua mãe, e que, para além disso, necessita de mamar de duas em duas ou de três em três horas, faz-nos todo o sentido, pensar que o seu lugar será precisamente junto à mãe. Desta forma, sentir-se-á mais seguro, poderá interiorizar a ideia de que as suas necessidades têm resposta, e, em termos logísticos, dar mama à noite fica claramente mais fácil. 
Mas a verdade é que o ser humano, pelo “bicho” complexo que é, vai evoluindo gradualmente da necessidade de cumprimento de necessidades básicas (sejam fisiológicas e/ou de afecto), e começa a desenvolver em si, uma estrutura psíquica, que ainda que em constante transformação, o irá acompanhar ao longo de toda a sua vida. A qualidade desta mesma estrutura, irá determinar a forma como vai viver, fazer as suas escolhas e sentir-se, ao longo de todo o caminho. Pois bem, cabe aos pais, estarem atentos a este processo evolutivo, e é aqui que entra a questão do dormir no seu próprio quarto e da capacidade de “estar só”. 
Importa dizer que dormir no seu próprio quarto e dormir sozinho, são coisas diferentes. Veja-se o caso de crianças que têm irmãos mais velhos e nunca chegam a dormir efectivamente sozinhas. Isso não é um problema. A grande questão, é que, se numa fase inicial faz sentido o bebé estar junto à mãe, gradualmente, é importante que sinta que pode afastar-se dela e retornar a ela, sem danos para si mesmo, nem para a mãe. Isto, permite-lhe desenvolver o sentido de existência “dos objectos”, para além da sua presença física. Onde os vai encontrar? Dentro de si. Dentro da tal estrutura psíquica. Com o desenvolvimento da capacidade de guardarmos pessoas (e não só) “dentro de nós”, aprendemos a sentir-nos mais seguros. É isso que permite à criança ficar na escola durante o dia, sem se desestruturar, permite-lhe pensar em si mesma como um ser que poderá estar longe, estando muito perto. Aqui, eu voltaria a perguntar: o que é estar só?
Pense no adulto, que podendo estar a dormir na cama com outra pessoa, pode igualmente sentir-se profundamente só, e estando a dormir sozinho num quarto, pode sentir-se absolutamente acompanhado, seguro e amado. O verdadeiro sentido de proximidade é vivido dentro de nós. Está na capacidade de confiar que as pessoas significativas estão cá para nós, no sentido lato da expressão e não apenas no sentido físico. 
A par com esta competência profundamente estruturante para o Ser Humano, existe outro aspecto que entra em acção nestas situações. O sentimento de segurança interna. O que há de tão ameaçador na vida ou neste mundo, que leve a que ​a ​criança não possa dormir num quarto (provavelmente separada​ do quarto dos pais apenas por uma parede), sozinh​a​? A resposta é nada. É isso que temos que sentir, e que temos que passar aos nossos filhos. 
Mas a questão é que os pais vivem com os seus próprios medos (muitas vezes inconscientes) de que poderão perder os seus filhos, ou de que este mundo é efectivamente uma ameaça. Quando confrontados com a fase normal e saudável dos medos, pesadelos e terrores nocturnos da criança, são os pais quem mais se assusta. Depois, perante as suas inseguranças, enviam mensagens confusas aos seus filhos. Alguns exemplos são os pais que abrem os armários para mostrar que não está lá nenhum monstro (se eles não existem, porquê que é preciso espreitar?), outros dizem aos filhos para rezar muito quando chegam os medos (para estarem protegidos, do quê?), ou dizem que mandaram embora o que quer que fosse que estivesse no quarto (então mas se não existe...). Estas mensagens são contraditórias. Tanto quanto ficar a dormir com o seu filho. Está a dizer-lhe indirectamente que ele precisa que fique ali com ele, para que possa estar protegido (e consiga dormir em paz) - “Se a minha mãe fica aqui, é certamente porque eu preciso disso para estar bem”.
Dormir sozinho põe ainda à prova e ajuda a desenvolver, uma terceira competência que me parece digna de ser mencionada aqui​: ​a capacidade da criança gerir as emoções (e os seus fantasmas pessoais). A noite é óptima para lhe ensinar isso mesmo. Quando dizemos a um filho -“o teu lugar não é na minha cama e o meu lugar não é na tua cama”, estamos a permitir-lhe viver algumas das frustrações que fazem parte da vida e que ele vai ter que aprender a gerir. Quando dizemos a um filho, “eu percebo e é normal teres medos, vou ajudar-te no que me for possível, mas sei que boa parte da conquista vai ser tua”, estamos a ajudá-lo a gerir os seus próprios medos, e a entender que se a mãe não fica assustada e o deixa lidar com eles, então não deverão ser assim tão "gigantescos”. Quando diz ao seu filho – “eu consigo estar fisicamente separa de ti, continuando a amar-te da mesma forma”, está a dizer-lhe que o amor é constante, genuíno e seguro. 
Sempre que se aborda este tema, normalmente os pais focam a questão da autonomia, como sendo um ponto ou uma preocupação central. Pensam, na maioria das vezes, em autonomia funcional. Esquecem, no entanto, que a verdadeira autonomia, é a autonomia emocional. A capacidade de enfrentar desafios sem se desestruturar, a capacidade de ser ver como um ser individual e único (que não se funde ou baralha com os outros), capaz de construir o seu próprio caminho, encontrar as suas próprias soluções, ainda que, possa escolher fazer esse caminho acompanhado (e escolher, é muito diferente de precisar). Ou seja, escolher aconselhar-se com os pais sempre que tem um problema, é diferente e muito mais libertador do que acreditar que precisa da ajuda dos pais sempre que enfrenta um desafio. 

3. Ajudar o seu filho/a a dormir no seu próprio quarto​

​Para ajudar a criança a dormir no seu próprio quarto, aceitando que os pais façam o mesmo, ​​é fundamental que possam todos conversar abertamente sobre esse tema, sem acusações, recriminações ou castigos. Os pais devem falar sobre o que cada um pensa e sente sobre a situação. Depois, perguntar ​ao filho o que pensa, sente, e acha que consegue fazer. 
​É igualmente importante que sejam clar​os sobre a organização familiar,​ e a vivência do espaço da casa,​ definindo as regras e explicando o que as coisas são. “Eu e o pai somos um casal e, por isso, dormimos na mesma cama. Um dia, poderás querer o mesmo para ti”, “​t​u és nosso filho, e por isso, preparámos o teu quarto, um espaço teu, e que fica junto ao nosso quarto”. ​Para o seu filho, o respeito pelo quarto torna-se ainda mais importante na adolescência, ​altura em que os pais não deverão entrar sem bater, por exemplo. 
​Porque me perguntam muitas vezes, devo dizer que quanto a mim, deixar chorar não é uma opção. Na minha opinião, nunca foi. Fazer escolhas claras, ser coerente e determinada​/o​ não é deixar de ser sensível às necessidades do seu filho​/a​. O que acontece às vezes, é confundirmos o que ​a criança pede, com o que el​a realmente precisa, e o que el​a​ pensa que não consegue fazer, com uma verdadeira incapacidade. Ora, ​a criança não sabe até onde consegue ir, até chegar lá. Precisa por isso, que alguém acredite por el​a​ numa fase inicial, para que el​a​ possa começar a acreditar sozinh​a​, numa fase mais adiantada. Todo este processo de conquista, pode e deve ser feito com o seu acompanhamento. Precisa de alguém ao seu lado para adormecer? Não se deite com el​a​. ​E​steja ao lado del​a​. Tem pesadelos, acorda e chama os pais? Vá lá, confort​e-a​, diga-lhe que virá sempre que ​ela​ precisar, mas que​,​ ​uma vez que esteja mais calm​a​ ou te​nha​ ​adormecido, ​voltará para a sua própria cama. Isto é muito cansativo no in​í​cio, mas gradualmente, el​a​ deixará de sentir necessidade de chamar ​os pais ​(estará a desenvolver ​um​ sentimento de segurança). 
Outra estratégia importante é, se ​ambos os pai​s​ fizer​em​ parte do agregado, que alternem “os turnos”. Um dia fica para um, no outro dia, é o outro. Tenha em atenção que são os pais que decidem, e se organizam, e não o seu filho. Ou seja, hoje será o pai porque eu tenho que fazer umas coisas, amanhã serei eu porque o pai vai estar mais ocupado, etc. Uma das coisas que mantém muitas vezes, este tipo de comportamento, é uma falsa sensação de controlo sobre a mãe e sobre a relação dos pais. A criança fica refém dessa necessidade, e acredita que só pode sentir-se segura se controlar as pessoas à sua volta. Imagine o que é crescer com este sentimento!
Organize e crie uma rotina “amiga” do sono. Tente que o horário durante a semana seja estável, sendo que podem fazer do fim de semana, a exceção. Actividades mais calmas e relaxantes perto da hora de dormir são benéficas. Por outro lado, a hora de ir para a cama, pode ser um bom momento para partilhas com o seu filho, conversar calmamente sobre os seus sentires, planos para o dia seguinte, etc. Se houver medos, ou ansiedades, falar sobre elas é benéfico. O papel dos pais é estar ali, ouvir, entender, conter. Não minimize, desvalorize ou tente resolver as questões à sua maneira. Esteja apenas lá, e diga-lhe que entende que aquilo esteja a ser difícil, abrace-o sempre que for preciso, e diga-lhe que confia que ele vai conseguir lidar com a situação. 
Para terminar, é fundamental ​que os pais saibam que é seguro deixar o​s​ seu​s​ filho​s​ crescer. Não o​s​ estão​ a perder. A relação está apenas a transformar-se e ​a criança a fazer um caminho saudável. 

​Como nota final, deixo o alerta de que se estas estratégias não forem suficientes, ou se houver outros sintomas associados (alimentação, auto-estima, comportamento, aprendizagem, etc.), ​então não deve hesit​ar em procurar a ajuda de um psicólogo. A questão pode ser mais profunda e é fundamental que não deixe o seu filho crescer logo à partida com estas dificuldades.
Ana Guilhas,

Publicado originalmente em "UP TO KIDS"
Poderá lê a publicação original aqui

"A Passagem"

 - Um pouco fora de horas, mas gostaria de partilhar convosco este texto que escrevi. Porque muitas "passagens" acontecem ao longo de toda uma vida  - 

Este ano foi difícil para mim desejar às pessoas uma “boa Páscoa”. Porque é difícil pensar no que seria uma “boa Páscoa” quando pelo mundo fora se vêm tantas atrocidades, medo, ódio e ignorância a imperar e a intoxicar a nossa forma de viver. Se é que ainda existe uma forma verdadeiramente livre de viver!
No entanto, e ao que parece, etimologicamente o termo Páscoa, deriva da palavra hebraica "Pessash" que significa “passagem”. E aí lembrei-me de quantas vezes os momentos mais difíceis e dolorosos podem constituir verdadeiros momentos de passagem para uma nova fase, uma nova forma de pensar, sentir, questionar e aceitar. Tudo depende do que cada pessoa faz com esses momentos, bloqueadores para muitos e tão reveladores para outros. A diferença está na capacidade de reconhecer o amor onde ele existe verdadeiramente, e perceber-se a si mesmo e aos outros como merecedores desse mesmo amor. Está na possibilidade de sentirmos que não somos “sós” e que podemos escolher quem nos acompanhe neste caminho.
A Páscoa é, portanto, a celebração também de todos os momentos de transformação. A superação da dor e do desafio. É também acreditar em novos ciclos e numa forma muito especial de renascer em vida. Porque a vida pode ser renovada vezes e vezes sem conta, transformada por um poder pessoal verdadeiramente criador (e que existe em todos nós).
E, por isso, também da dor se fazem novos ciclos, também da dor se fazem crescimento e evolução. 
Povos antigos acreditavam que o coelho era símbolo de fertilidade e renovação. Também os ovos têm um significado de continuidade. Representam o inicio de uma nova vida, estabelecendo a ligação (passagem) das suas raízes, ao futuro e à “vida eterna” através da passagem dos genes.
Por isso, e depois de passada a Páscoa, e com todo o horror, medo e indignação que possamos estar a viver nos últimos tempos, espero que “o coelhinho” continue a tocar todos os nossos caminhos, deixando muitos ovos para abrir, lembrando-nos sempre que, de uma forma ou de outra, todos fazemos parte de um mesmo, maravilhoso e “eterno”, ciclo da vida. 

Cabe a cada um de nós dar-lhe sentido, sempre!

Publicado originalmente no Jornal "Notícias de Cá e de Lá" nº 39 - 1 de Abril 2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

"Mãe que é Mãe..."

"Mãe que é mãe, ...", "pai que é pai,...”. Uma expressão tão comum, que mostra bem o quanto ainda padronizamos, cobramos e acreditamos que existe uma forma certa de ser.
Ninguém nasce com aptidão para ser pai ou mãe. Ninguém nasce com os conhecimentos necessários e nem todas as pessoas que têm filhos são Pais (note-se que com letra maiúscula). Ser pai ou mãe não é um mar de rosas, não se faz apenas com o "dom do amor", e muito menos pode ser entendido, mostrado ou vivido através de fotos no facebook, assim como não se explica pela antítese da mãe que mata as suas próprias filhas. 
Não adiro à simplificação do que não é simples. Como se de uma receita para um bolo se tratasse. Tem que se ser assim, fazer “assado” e, com o toque certo e "mágico" das "fadas do lar" (ou da parentalidade), temos as tríades (mãe, pai filho) perfeitas. Porque bom é ter um pai e uma mãe, porque bom é os pais não se divorciarem, porque bom é continuar a ter vida própria, ou porque bom é os pais que abdicam de tudo pelos filhos... tantas coisas boas... e no entanto, o resultado está à vista: uma sociedade deprimida, ansiosa, baralhada! Sabemos avaliar o bom e o mau do que acontece à nossa volta, mas quando toca a gerir a nossa própria condição (leia-se vida), perdemo-nos em nós mesmos, para muito raramente nos voltarmos a reencontrar. 
Não existe a mãe que sou, separada da pessoa que sou. Não existe a família que tenho, separada da vida que levo. Ainda assim, são muitas as pessoas a quererem cumprir-se nos papeis de maternidade ou paternidade, sem pensarem em ser, acima de tudo, pessoas melhores.
Creio que no dia em que deixarmos de nos viver em "partes de coisas" melhores, e nos concentrarmos antes em ser pessoas inteiras (e inteiramente melhores), mais saudáveis e mais equilibradas, aí sim, poderemos começar a confiar mais nos pais e nas mães deste mundo em que todos coexistimos. 
Assim como existem pais e mães que nunca o deviam ter sido, existem pessoas muito pouco "humanas". À parte tudo isto, existe um sistema montado, cuja a função é proteger quem dele precisa. Mas também este, é feito de pessoas, não é?!

Pilares do Desenvolvimento Saudável da Criança


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Tirar a Máscara

Ninguém chega a adulto, sem ter sido criança. Assim como ninguém vive realidade sem existir em si fantasia. Podemos, sim, dizer que existem muitas formas de infância (umas melhores e outras bem mais duras), assim como existem muitas formas de olhar a realidade e dar espaço à fantasia na nossa vida. Em grande medida, no caminho que fazemos do período de infância – onde a fantasia corre livremente e enriquece toda a experiência que fazemos da realidade – até chegarmos à vida adulta – onde reinam o interdito, o inadequado, a vergonha e a condenação social – aprendemos a domar (e esconder) muito do que não deixa de ser também da nossa essência.
Em todos nós, existe um mundo secreto que por vezes até o próprio tem dificuldade em conhecer, aceitar e perceber. No dia a dia, vêm-se as mascaras que usamos, acreditando estar assim a viver mais próximos das regras sociais, mais próximos do que os outros esperam de nós, acreditamos desta forma estar mais protegidos. No cofre, mantemos os nossas desejos ou necessidades mais íntimas, aquelas que acreditamos não poderem (ou deverem) ser concretizadas.
Muitas pessoas esperam cuidadosamente pelos momentos em que acreditam estar sujeitos a uma menor censura social, como nas festas, ou em momentos em que adormecem a sua própria censura através do consumo de álcool, para se libertarem. E o Carnaval é, nesse sentido, a festa por excelência, da fantasia e libertação. 
Ao contrário do que poderíamos pensar, o Carnaval é, para muitos, mais do que um vestir de uma máscara, a possibilidade de despir as muitas que se carrega ao longo do ano. Em vivência de brincadeira, simples alegria ou grande euforia, neste período do ano, as pessoas permitem-se brincar novamente tal como o fazem livremente as crianças. Outras ainda, aproveitam para viver em si mesmas o que não se permitem viver o resto do ano. Como se de uma pausa na vida se tratasse, para regressar à "realidade" no dia a seguir. 
Festejar, sentir alegria, animação e viver com criatividade podem ser componentes reais do nosso dia a dia. Tenho para mim que se as pessoas se permitissem viver mais plenamente, cumprindo-se mais ao longo do ano, com mais verdade e liberdade, ainda que em equilíbrio com as primordiais (e apenas estas) regras pessoais e sociais, o Carnaval duraria bem mais do que três dias. Porque na realidade, e felizmente, a vida são muito mais do que dois dias. Resta saber se temos espaço na nossa vida para divertimento e alegria, sem que para isso tenhamos que usar uma máscara.

Autor: Ana Guilhas
Originalmente publicado em: Notícias de Cá e de Lá (edição nº 37)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Boas Festas!


O Natal é sempre doce quando aprendemos sentir amor por nós, e escolhemos Amar quem nos rodeia. Que cada um possa acender a chama em si, tornando o seu Natal mais caloroso! As melhores das festas para todos! heart emoticon

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O Natal em Nós

Comemorar uma data. ainda que possa servir para pensar, traçar ou celebrar um futuro, remete na grande maioria das vezes para a lembrança de um passado. No aniversário, celebramos o dia em que nascemos. Ainda que nos leve a pensar em todos os dias mais que queremos ter na nossa vida, a verdade é que estamos a festejar os que já passaram. As datas históricas permitem-nos fazer o ponto da situação, pensar no como era antes, no que passou a ser depois, e permitem-nos relembrar acontecimentos que nos trouxeram até ao ponto em que nos encontramos hoje. Com o Natal não é diferente. Mas o Natal, tem o poder mágico de nos transportar ao nosso interior, ao Natal que há em nós. Porque na verdade, não existem dois Natais iguais para ninguém. Esta data, quer queiramos quer não, tira-nos do agora e tem o dom de nos transportar para as nossas vivências de amor, ou falta dele, de alegria, ou de tristeza, leva-nos ao encanto e à ilusão, ou ao medo e à frustração. As luzes, as músicas, as pessoas ou simplesmente um respirar de Natal, e activam-se em nós sentimentos. E de repente, choramos quem queríamos ter ao nosso lado, relembramos o melhor e o pior dos Natais da nossa vida, e por instantes, voltamos a sentir a nossa infância. Inundamo-nos de sensações, que podem ter tanto de rico quanto de angustiante. 

Há quem se irrite com as músicas, quem se enterneça, quem se entristeça e quem se anime. Há quem adore as decorações e o movimento, outros acham esta época pirosa e consumista. Algumas pessoas não param de pensar na trabalheira e na quantidade de coisas para fazer. Outras brilham com a ideia das festas, dos doces e dos presentes. A verdade é que há Natal para toda a gente. Cada um espelhando as nossas vidas (prática, física e emocional). Pode ser melhor ou pior, mais abundante ou em escassez. Mais voltado para o consumo ou solidariedade, mais para a religião ou família. Aceitando-o nas nossas vidas ou rejeitando-o completamente, não podemos sair de casa, ligar a televisão ou pura e simplesmente accionar a memória, sem que ele esteja lá, para como bom espelho que é, nos mostrar um pouco do que temos cá dentro... Para nos mostrar um pouco, o que ainda queremos ter e quem sabe, um dia ainda queremos vir a Ser. 

Se para muitas pessoas o Natal é o confronto entre o desejo e medo de ser feliz, então que esse desejo possa ser mais forte que o medo, para que assim, a cada Natal, possamos estar cada vez mais próximos de nós mesmos e de todas as pessoas que queiramos verdadeiramente ter ao nosso lado.

Boas Festas.

Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá". Edição de Dezembro

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

"De terroristas e de loucos..."

Partilho um texto que escrevi em Janeiro de 2015 e que, infelizmente, volta à actualidade.

Quarta-feira, 7 de Janeiro, a tragédia de Paris confronta uma Europa, já de si tão ocupada a (di)gerir as suas trapalhadas económicas, com mais um desafio! Ainda que não represente uma realidade completamente nova, o violento ataque ao jornal satírico "Charlie Hebdo”, por ter acontecido no “nosso quintal”, põe a descoberto uma vulnerabilidade que nos obriga a todos a reflectir e a posicionar-nos perante realidades que tantas vezes preferimos ignorar. Como forma de nos sentirmos mais seguros, é muito fácil classificar os responsáveis por tais actos de loucos e/ou psicopatas. Queremos acreditar que loucos à solta por aí, apesar de tudo, não devem ser tantos assim!
No entanto, entenda-se que sociopata (o termo mais correcto) é uma coisa, e terrorista, é outra bem diferente. É verdade que existirão sociopatas que são terroristas, mas é também verdade que muitos terroristas não apresentam necessariamente traços de doença mental e, tirando o discurso que reflecte a sua ideologia, não se conseguem perceber “anormalidades”. Quer isto dizer que não podemos definir um perfil tipo, embora não se possa negar a existência de dimensões psicológicas subjacentes. Tanto mais se pode afirmar isto, pelos contornos de frieza e crueldade de que se reveste o crime. 
Acresce que estas pessoas nasceram e cresceram em França. País de acolhimento de seus pais, e ao qual não hesitam em dirigir o seu ódio. Há pois que saber que terroristas nascidos e educados em contextos de morte e de raiva e cuja estrutura mental é dominada por valores radicalmente diferentes dos nossos, é um fenómeno bem diferente de terroristas nascidos e educados num país ocidental, no qual a informação circula e “transborda”. 
Este é um risco que assiste a todos os jovens franceses? É natural pensar que necessariamente estas pessoas, estavam de alguma forma mais vulneráveis, zangados. Podemos imaginar que eram dotados de pouco sentido crítico e de capacidade de dialogo. Parece-me certo que estes homens terão histórias pessoais muito particulares. Estes ingredientes, aliados aos seus valores e crenças, serão a receita ideal para a tragédia.
Se olharmos nesta perspectiva, fica então a descoberto, o insucesso de toda uma estrutura que se quer sólida. Família, escola pública, sociedade e política falharam! Apressamo-nos às armas, alianças e acções conjuntas. Mas se queremos dar resposta a este atentado, então não será também aí que deveremos intervir?
Não quero, de todo, com isto desresponsabilizar cada um dos elementos envolvidos. Estamos a falar de homens treinados militarmente e de uma acção planeada e premeditada. Convido-vos sim, a uma reflexão mais alargada, na qual nos permitimos olhar para o papel de todos e de cada um.
É fácil indignarmo-nos e gritarmos por valores mais altos e nobres como liberdade, tolerância e respeito pela vida humana. Mas eu não posso deixar de pensar na forma como estes valores existem na sociedade e em cada um de nós. Terão sido interiorizados mecanicamente? Fruto de uma pressão e evolução social, ou serão mesmo nossos intrinsecamente vividos e sentidos? Farão parte da nossa essência?
Confesso que me assusto de cada vez que leio comentários a artigos e/ou opiniões veiculadas na internet. Assusta-me sempre que se ferem ou matam pessoas porque eram adeptos de outros clubes. Assusta-me sempre que se humilha, ameaça ou diminui alguém apenas porque é diferente de nós. Assusta-me que se olhe com uma “indignação indiferente” para a miséria, injustiça e sofrimento alheio. Será caso para relembrar que “de terroristas e de loucos, todos temos um pouco?”.

Originalmente publicado na edição 28 do
Jornal  "Notícias de Cá e de Lá" (31 de Janeiro de 2015)

"Eu quero. Talvez. Não sei..."

É muito fácil dizer "eu quero" ou "eu penso". Difícil, é querer mesmo. Difícil, é pensar livremente sem a "poluição" dos todos os nossos medos, fantasmas, culpas e limitações (auto-impostas). Parece-me infelizmente que, nos dias que correm, existe muita vontade e muito pouco querer. Ouvem-se muitos "quero mudança", "quero estar mais feliz", "quero ter mais", que parecem situar-se ao nível de um "querer" infantilizado, em que a criança espera que alguém, que não ela, faça os seus desejos se realizarem. Isto porque quando perguntamos a algumas pessoas (dadas a "fortes" desejos) o que estão a fazer efetivamente para alcançarem o que pretendem, percebemos que, na realidade, é um absoluto NADA.

Contudo, não deixa de ser interessante analisar esse "nada". Porquê o esforço, quando, na realidade, podemos apenas ligar o "queixómetro" e sentirmos que de repente parece que temos alguma coisa a dizer? É como se às vezes as nossas dificuldades nos dessem temas de conversa. Razões para falarmos e estarmos com o outro. Se não tivéssemos problemas do que é que falaríamos então? De coisas verdadeiramente úteis? (isso não, credo!) O problema é que queixarmo-nos dá a sensação de que estamos a fazer alguma coisa por nós. E criamos a ilusão de que estamos a receber alguma coisa da parte do outro. 

Na verdade, criar momentos de partilha, intimidade e verdade, com as pessoas de quem gostamos é importante e pode ser muito útil. Mas isto, se o fizermos com o objectivo de construir pensamento, confrontar realidades e possibilidades, para depois avançar para a acção. Essa acção, só pode ser nossa. Não tenhamos ilusões. Nem eu resolvo os problemas do outro, nem o outro resolve os meus problemas. Só o próprio, com a força do seu querer (o verdadeiro) e com o poder do seu pensamento, escolhas e acção é que pode transformar a sua vida.

Na realidade, parece-me que a grande maioria das pessoas até já percebeu isto, no entanto, muitos ainda se vêem presos a uma crença íntima de que um dia, um qualquer super-herói (ou milagre) o irá salvar de si mesmo e da sua inacção. Isto, para descobrir mais tarde (às vezes mesmo bastante tarde) que ninguém salva ninguém. Nós somos o nosso próprio super-herói. E se é verdade que os super-heróis podem agir em conjunto (tipo “Os Vingadores”), a verdade é que cada um tem que fazer uso de si mesmo, da sua acção e do seu poder.

Mas primeiro, se calhar temos que avaliar bem as nossas posições. Os nossos verdadeiros desejos, os nossos verdadeiros ideais. É preciso sabermos exactamente onde é que cada um de nós está, e onde é que queremos verdadeiramente estar enquanto pessoa, enquanto ser individual, capaz de escolher livremente, e para o seu bem pessoal.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O Poder Mágico dos Braços

Se os olhos são "o espelho da alma", os braços são os seus fieis executores. Os braços recebem, contêm. Podem apertar, aprisionar, mas também podem libertar, deixando vir e deixando ir, ao ritmo do bebé, da criança, do adulto. Com os (a)braços abrimo-nos ao outro e aceitamos recebê-lo e acolhê-lo em nós. Com os braços dizemos coisas simples como "eu estou aqui", "aceito-te como és" e "quando fores, levarás este sentir dentro de ti".

É por isso que devemos abraçar os nossos filhos. É por isso que nos devemos deixar abraçar. É por isso que os abraços são uma das melhores coisas do mundo. No abraço está a sintonia, a comunhão, o corpo rendido. E é por isso que os braços, têm um especial poder mágico. Não esquecendo, porém, que também com os olhos, o sorriso e a escuta, se pode abraçar a Alma de outro alguém. 

Mas, estes mesmos braços, podem ainda viver em si fantasmas do passado e ansiedades do futuro. Só isso explica as inúmeras vezes que ainda se ouve dizer às mães: "não dês muito colo, olha que o bebé fica mal habituado" (como quem diz "cuidado com esse pequeno devorador de carinho"). Só isso explica que se guardem os abraços, "religiosamente", para momentos específicos (casamentos, funerais, aniversários, etc), como se fosse necessário prevenir uma eventual escassez deste bem precioso. E também existem os braços que empurram, e empurram, e por mais que a criança volte (porque não é o seu tempo), os braços repetem para si mesmos "é importante autonomizar a criança". Como se a autonomia de um Ser nascesse do desejo do outro (mãe/pai) e não de si mesmo (um contra senso).

Não deixe que os seus braços tenham medo, não deixe que os seus abraços sejam ansiosos mas, principalmente, não deixe que os seus braços estejam paralisados (por uma qualquer razão). O maior desafio não está em mudar, está em fazer escolhas. As nossas escolhas. Mas é também aí que está o maior poder. Na escolha do que queremos ser, ter e dar. E nós pais, devemos perguntar a nós mesmos, como é que nos deixamos tocar. O que diz a nossa pele quando é tocada por outra pele? Como, e quem, é que eu abraço? Como, e por quem, me deixo abraçar? 

E com as respostas a estas perguntas, podemos querer continuar, ou aprender, a fazer "magia". 

Um abraço bem apertadinho.

Artigo escrito por Ana Guilhas, Psicóloga 
Para a Up To Kids
Originalmente publicado aqui

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A Verdade Sobre os Refugiados

Eu diria que a grande maioria de nós, pessoas que não estão a viver directamente a realidade dos refugiados, dificilmente poderá ter acesso à ou às “verdades” por detrás deste fenómeno. E embora considere que toda a humanidade esteja implicada, de uma forma ou outra, neste processo, quando falo de quem esteja a viver directamente esta realidade, refiro-me a quem está lá, fisicamente, na linha da frente, como refugiado de guerra, migrante, funcionário ao serviço dos países que recebem, voluntário, jornalista ou simplesmente curioso. Acredito que até para estas pessoas, o que os seus olhos vêem, tem tantas interpretações quanto consciências. E consciência, bem ou mal, cada um vive com a sua e alimenta-a da forma como desejar.

Mas para mim, este é sobretudo um momento de outra verdade. Verdade, que estava escondida neste nosso modo “automatizado” de viver, em que só nos damos a conhecer, a nós e aos “nossos”, em tempos de crises internas, e aos outros, em tempos de crises colectivas.

A verdade sobre os refugiados? A única que me parece incontestável é a de que toda e qualquer pessoa apenas consegue dar o que tem em si mesma. E de repente, algumas pessoas só conseguem focar-se nos seus medos (“E se eles vêm cá para nos fazer mal? E se isto tudo for apenas um grande "complot" contra a Europa? E se nos tirarem o trabalho, casas e nos deixarem na miséria?”), outras apenas têm raiva e ódio para dar (“não são como eu, não são iguais ou parecidos comigo, não são, portanto, dignos do mesmo que eu, nem da minha compaixão”), outras negam a realidade e agem como se nada fosse (movimento alimentado por um desprezo, de resto, muito parecido com o ódio). Do outro lado, temos o grupo de pessoas que se transforma e transforma o mundo com o seu amor, solidariedade e capacidade inesgotável de valorizar a Vida. Pessoas que têm necessariamente em si, coragem, força e esperança para dar. Pessoas quem têm apenas um medo, o medo de um dia deixarmos de ser suficientemente “humanos” …

Se tivéssemos o azar das “profecias” cinematográficas, sobre o fim dos tempos, se realizarem, o que seria de nós? O que veríamos em nós? Temos pois, pessoas que se unem, ajudam e partilham o que têm em nome de uma sobrevivência colectiva. Temos pessoas que se juntam em grupos restritos de sobrevivência (genética, geográfica ou qualquer outro critério que consigam inventar), aniquilando ou desprezando quem consideram não pertencer. Outros, paralisados pelo medo, deixariam morrer crianças diante dos seus olhos e, quem sabe, deixar-se-iam morrer também.

A nossa verdade está na resposta a estas perguntas: De todas estas pessoas, quem é que gostaria de ser? Quem é que gostaria de ter por perto? E quem verdadeiramente é?


Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá", nas crónicas "Com Sentido...", edição de Setembro 2015.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Cuidar de quem cuida dos nossos filhos

"Dizemos frequentemente que as crianças mudaram, mas ainda que isso possa ser, em parte, verdade, na realidade fomos nós, adultos, que passámos a ver a infância com outros olhos. Fomos nós que, revendo-nos em criança e perspectivando o nosso futuro, passámos a desejar mais e melhor.
Desta transformação nasceu uma sede de conhecimento, uma necessidade de tornar consciente o que se fazia por instinto, a ambição de desvendar os “segredos” dos nossos filhos, e de dominar as estratégias para o “perfeito” desenvolvimento da criança" Continuar a ler

Autora: Ana Guilhas
Publicado em Up To Kids

sábado, 22 de agosto de 2015

Juízes, Advogados e Carrascos


O Ser Humano vem ao mundo como um Ser genuíno, verdadeiro na sua essência, nas suas necessidades e desejos. Está programado biologicamente para o sucesso, para a sobrevivência, para a vida. Come, chora, grita e sente uma necessidade "básica" de ser profundamente amado. A sua inteligência biológica sabe que a sua sobrevivência está dependente de ser desejado, aceite e, consequentemente, protegido e cuidado pelos seus progenitores. Sabe também, à partida, que vai ter que fazer algumas concessões, ainda que isso possa ter custos muito elevados. 

Vem também dotado de um potente e extremamente complexo aparelho psíquico, que o distingue dos outros animais e determina a sua existência psicológica (muito para além da sua existência física). É também esse aparelho que assegura, simultâneamente, a função de sobrevivência, e a condenação ou a absolvição, numa vida de julgamento permanente. 

Desde logo, os olhos do bebé confundem-se com os olhos da sua mãe (até acredita, inicialmente, que ele e ela são um só). Mas se os seus olhos são puros, os da mãe dificilmente o serão. Esta mãe, carrega em si mesma o amor (ou a falta dele) que um dia viveu como filha, os fantasmas, os medos, as expectativas e todas as verdades, meias verdades e mentiras que assumiu para si mesma ao longo de vários anos de vida. E é com estes olhos, por vezes já muito sofridos, entristecidos, outras vezes esperançosos e cheios de amor, que as primeiras verdades do bebé se encontram. E é aqui que, o seu aparelho psíquico, começa a construir o seu sistema judicial interior. Começa a recrutar os seus juízes, advogados, imprime em si mesmo as (suas) primeiras "Leis da Vida". 

De onde vêm estas Leis? Como é construído o seu código? Até que ponto representa genuinamente a sua verdade? Até que ponto está em sintonia com a sua "Constituição"? Podemos até acreditar, ou tentar fazer parecer, que este tribunal serve para avaliar os outros - o que fazem, o que são, o que merecem de nós. Mas, na realidade, existe um, e um só, réu permanente, e é o próprio. Quanto mais duro o tribunal, maiores serão as nossas penas. Mais tempo viveremos condenados e aprisionados em nós mesmos. Longe, muito longe (pensamos nós) da pureza, do impulso criador e do desejo de um amor que cuida, protege e nutre, com que chegámos a esta vida.

Originalmente publicado no Jornal de "Notícias de Cá e de Lá", nº 33.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Escolhas Educativas - Parte 3


O que os pais podem dar de mais precioso a um filho, são sem dúvida AMOR e RESPONSABILIDADE. Com isto, estão reunidas duas grandes condições para que a criança possa ser, na sua infância, e mais tarde, na vida adulta, uma pessoa madura, capaz de amar a si mesma e ao outro (com as respectivas empatias, solidariedade, inteligência emocional) e capaz de fazer escolhas que a permitam assumir a sua vida, para si mesma (enquadrando direitos e deveres no grupo a que pertence, e equilibrando o que cabe a si e o que cabe ao outro).

Vimos anteriormente (Escolhas educativas, parte 1 e parte 2que a repressão, a força e a manipulação dificilmente nos levarão a esse objectivo. Não têm um efeito verdadeiramente educativo, os resultados são de curto prazo, e prejudicam a relação pais-filhos e a auto-estima da criança. Então, como fazer para educar um filho baseando a nossa actuação no respeito e na confiança?


1. Clareza nas intenções, regras e comportamento esperado

É fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança sabe qual é o comportamento "mais adequado" a assumir numa determinada situação. É também fundamental que os pais tenham a certeza de que a criança já tem, em si, os recursos para o fazer. Por exemplo, só por volta dos 2 anos de idade é que a criança começa a integrar a noção de regra. Até lá, está apenas a tentar desvendar o misterioso e incómodo "NÃO". Por isso, formular regras elaboradas antes deste período, e esperar que a criança as cumpra, é irrealista. Até esta altura, devemos manter a simplicidade do permitido vs interdito. Depois, e gradualmente, podemos avançar para uma organização mais elaborada das regras, apresentando-as da seguinte forma:

  • O discurso deve ser, sempre que possível, formulado pela positiva (ver porquê aqui)
  • Usar as orientações e as regras numa vertente preventiva. Por exemplo, antes de ir ao supermercado com a criança, diga-lhe o que é que vão lá fazer e o que é que vai ser possível ou não fazer, com frases como: "vamos ao sítio x, para comprar coisas para a casa. Temos pouco tempo e por isso vou precisar da tua ajuda. Preciso que fiques perto de mim. Podes ajudar-me a pôr as coisas no carrinho, ajudar a lembrar-me das coisas que temos que comprar e ajudar-me a escolher os teus iogurtes. Podemos parar um bocadinho para veres as novidades na zona dos brinquedos, mas hoje, não vamos comprar nenhum. Combinado?". Neste exemplo, está a envolver a criança na tarefa, o que a vai ajudar a sentir-se parcialmente responsável pelo sucesso da saída. Para além disso, estará muito mais motivada e com vontade de colaborar. Sabe, à partida, que não vai comprar nenhum brinquedo, o que evita que essa frustração seja vivida no momento. No entanto, poderá ver o que há de giro, e quem sabe poderão comprá-lo, numa outra oportunidade.
  • Devemos avisar com antecedência as mudanças de actividade. Por exemplo, é frequente os pais chegarem à sala e dizerem "desliga a televisão porque vamos jantar". A criança que pode estar a meio do episódio, e que, muitas vezes, ainda não tem noção da hora de jantar, sente-se frustrada e injustiçada porque não compreende a arbitrariedade dos horários. Se por um lado, existem situações em que não é possível avisar com antecedência, por outro, é muito importante que quando isso seja possível, os pais o façam. É uma forma de demonstrar que existem horários, sim, mas que os pais compreendem o facto dos filhos terem o seu próprio tempo e que respeitam aquilo que estão a fazer. Por isso, é importante dizer coisas como "vamos jantar daqui a um quarto de hora. Isso quer dizer que, nessa altura,vais ter que desligar a televisão. Talvez seja melhor não começares a ver o episódio que se segue" ou "mais 10 minutos e vamos para casa. Talvez queiras aproveitar para andares, uma última vez, nas coisas que mais gostas aqui no parque".


2. Confiar no nosso filho
Na grande maioria das vezes, colocamo-nos numa espécie de campo oposto ao do nosso filho, como se tivéssemos que travar uma espécie de luta de poderes. Na realidade, é fundamental confiarmos na criança e expressarmos essa mesma confiança na sua capacidade de colaborar positiva e activamente, na estrutura familiar em geral, e connosco em particular. Dizer coisas como "estou a contar contigo para me ajudares na arrumação" ou "como estamos atrasados preciso da tua ajuda para sermos mais rápidos", permite dar responsabilidade à criança. Simultaneamente, estamos a reforçar a sua auto-estima e confiança.


3. Desenvolver uma comunicação genuína e emocional

É muito importante para a criança que os pais exprimam o que sentem perante os comportamentos dela. Mais do que fazer acusações, diga coisas como "depois de um dia de trabalho, sinto-me ainda mais cansada quando tenho que apanhar todos os teus brinquedos" ou "é muito frustrante para mim quando voltas a fazer uma coisa que eu te pedi para não fazeres". Desta forma, estará a ajuda a criança a perceber o impacto que as suas acções têm nos outros. Para além disso, estamos a ensiná-lhe a fazer o mesmo, e a aprender a perceber e expressar o que sente, relativamente aos comportamentos que os outros têm com ela.


4. Apresentar o que tem que ser feito, sob a forma de escolhas

Resulta muito bem, responsabilizar os nossos filhos pelas suas escolhas. Querer uma coisa, muitas vezes, significa abdicar de outras. E é importante deixar claro que são as escolhas da criança que farão a diferença. Se a criança não quer sair do banho porque está a brincar, mais do que ficar numa eterna insistência, é importante mostrar-lhe que tem que optar - "queres sair do banho e ver uns desenhos animados antes do jantar ou queres ficar a brincar e jantar sem ver os desenhos?"À medida que o seu filho for crescendo, as opções podem ser discutidas directamente com ele.


5. As famosas consequências
Apesar de todas as estratégias de prevenção, "idealmente", o nosso filho vai, ainda assim, assumir comportamentos que devem ser "trabalhados". Uma boa forma de intervir, e ajudar o seu filho a desenvolver a noção de responsabilidade, é através do uso das consequências. Mais do que a punição, esta estratégia educativa permite uma aprendizagem e desenvolvimento efectivos do nosso filho. As consequências podem ser naturais ou lógicas.
As consequências naturais são aquelas que acontecem independentemente da nossa acção. Por exemplo, depois de avisar algumas vezes que, a plasticina, não sendo guardada depois da utilização, seca, então é importante que os pais deixem que a acção natural das coisas aconteça. Se a criança não arrumou, deixamos que a plasticina seque. A aprendizagem dar-se-á de forma natural, quando a criança, querendo brincar, não consegue. Para não perder o seu efeito, é importante que os pais não comprem outra plasticina no imediato (isso seria assumir a consequência pela criança, e gera uma aprendizagem muito perigosa). É fundamental que os nossos filhos possam sentir na pele as consequências das suas escolhas. Podemos acompanhar a situação com alguma empatia, o que ajuda a criança a entender o valor protector das regras - "A tua plasticina secou? Por isso é que te expliquei que quando não a arrumamos depois de usar, ela seca. Não deve ser fácil para ti ver que já não dá para brincares com ela".
As consequências lógicas, são aquelas em que os pais fazem uma ligação lógica a algo que fica em prejuízo, devido ao comportamento da criança. Por exemplo, "pintaste a parede do teu quarto, agora vou ter que ficar a limpá-la e já não vamos poder ir ao parque". Também podemos, quando é possível, e a criança já tem idade para isso, criar consequências reparadoras - "pintaste a parede do quarto, agora, em vez de brincares a outras coisas, terás que ficar a limpá-la".
Na realidade, as consequências lógicas, podem ser vistas como uma forma de castigo saudável e ligado ao comportamento. Dizer à criança "pintaste a parede do quarto, agora vais ficar no teu quarto a pensar!" funciona como uma punição, que gera essencialmente zanga por parte da criança. Muitas vezes, esta não entende porque é que pintar a parede é um problema, nem o que é que isso tem a ver com ficar fechado no quarto. A consequência lógica, permite à criança atribuir-lhe um sentido de justiça que vai ser fundamental para a integração da aprendizagem, mais do que alimentar a zanga com os pais.

6. Outras estratégias

É importante ter em consideração que, em crianças mais pequenas, poderão existir situações em que a intervenção dos pais pode ter que ser mais física. Se a criança faz algo que a magoa ou magoa outra criança, tenta subir a uma janela, ou faz outra coisa perigosa, os pais devem impedi-la, pegando-a ao colo, retirando-a da situação ou agarrando as suas mãos ou pés. É muito importante agir sem agressividade, o objectivo é ajudá-la a controlar-se quando ela ainda não é capaz de o fazer por si mesma. 

Nas crianças mais crescidas, é importante conversar com elas em momentos em que ambos estejam mais calmos. Explorar e procurar soluções conjuntas para as situações difíceis e que se têm vindo a repetir, é importante. Assim cria-se um plano conjunto, com responsabilidade de ambas as partes. Isso ajuda a envolver a criança e a motivá-la mais para a colaboração. Perguntas como "o que é que se passou à bocado? Como é que te sentiste? O que achas que podemos fazer para que não volte a acontecer?" vão ajudar a encontrar um espaço comum de entendimento.

Não esquecer que, acima de tudo, os pais devem focar-se em trabalhar a cooperação dos filhos. E os filhos cooperam, quando se sentem ligados e em sintonia com os seus pais. Relações de poder e força tornam a criança mais dependente e separam emocionalmente, relações de confiança e respeito, autonomizam, aproximando emocionalmente. E este é o "paradoxo" que queremos nas nossas vidas.

Autora: Ana Guilhas
Artigo escrito para o Blog "As Viagens dos V's"