sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"O que há em mim que alimenta o meu cansaço?"

Atrever-me-ia a dizer que a maior parte das pessoas não sofre do cansaço proveniente de um dia atarefado e cheio de actividades. Não são poucas as pessoas que começam o dia bem cedo, têm filhos, trabalhos exigentes, cuidam das tarefas domésticas e ainda têm tempo para actividades desportivas ou de lazer. É impressionante, mas dificilmente essas são as pessoas que se vão queixar de uma espécie de cansaço crónico e constante. Dificilmente serão essas pessoas que se vão queixar de acordar de manhã já com uma certa sensação de falta de energia. Como se as coisas que têm para fazer nesse dia, começassem desde logo a esmagá-las.

Do que me é possível perceber, as pessoas mais cansadas, são, na realidade, as pessoas que se confrontam diariamente com tarefas emocionais. E que, diariamente, se confrontam com um desejo de mudança que não se concretiza. O que nos cansa verdadeiramente? O desejo de que algo em nós e na nossa vida mude, quando em simultâneo, acreditamos que isso não vai acontecer.

Alguns dos maiores sugadores de energia nas nossas vidas são:
- Acreditar que temos pouco poder sobre as coisas que acontecem na nossa vida;
- Acreditar que deveríamos ser melhores e fazer melhor do que o que fazemos. A exigência excessiva, rígida e desmesurada é um aspirador gigante de energia (seja auto-dirigida ou dirigida a outros);
- Travar lutas no exterior que pertencem ao interior. Isto acontece quando negamos o nosso estado emocional e o projectamos nos acontecimentos à nossa volta (p. e. quando saio de casa zangada e culpo o trânsito, a antipatia das pessoas, os buracos na rua pela causa do meu mal estar. Ou se estou deprimida e digo que é o frio, a chuva ou os meus colegas que nem notaram que cheguei ao trabalho);
- Estados emocionais como a tristeza, zanga, raiva, ressentimento, também são "bons" sugadores de energia;
- A falta de recursos como a assertividade, capacidade de pedir ajuda, definição de metas, auto-estima e gratidão;
- Querer cumprir as expectativas que os outros têm relativamente a nós ou dar demasiada importância ao que os outros pensam.

Tirando todos estes factores, é importante percebermos porque é que algumas pessoas parecem manter-se em estado de desorganização permanente. Não se esqueça que, simplificar a vida é aproximar-se de si mesmo(a). Será que está preparado(a) para isso? Quer verdadeiramente abrir esse espaço?

Em suma, nós alimentamos o cansaço e o cansaço alimenta-se a si mesmo quando nos recusamos a olhar para aquilo que verdadeiramente está na sua origem. Não vale a pena combater as limitações que encontramos no exterior se não ultrapassarmos primeiro as nossas próprias limitações. Se queremos ultrapassar o cansaço, de uma vez por todas, então temos que o reconhecer como sendo fundamentalmente de origem emocional. E, é aí, nas emoções que o mesmo se trabalha e ultrapassa. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Pais seguros, procuram-se!"


É pai? mãe? Como é que vive o seu papel? Como se sente e vive o exercício da sua parentalidade? Ultimamente tenho estranhado a forma como alguns pais se sentem meio perdidos, procurando respostas aqui e ali, procurando apoio de outros pais, amigos, técnicos, gurus... Não vejo que isso seja mau. Procurar saber mais, conhecer formas diferentes de fazer as coisas, parece-me até muito bem. Eu faço-o todos os dias. O que estranho, é o sentimento que move estes pais. Muitos não o fazem por assumirem o seu papel plenamente, com uma segurança, determinação e confiança, que os leva a querer fazer mais e melhor a cada dia (daí a procura de novas estratégias). O que vejo, é que muitos pais fazem estes "apelos" sustentados num sentimento de profundo desespero, insegurança e medo.

Os pais fragilizados nos seus papeis e aprisionados pelos seus medos, refugiam-se num de dois movimentos possíveis. Ou exercem uma parentalidade muito apoiada na severidade, autoritarismo e/ou manipulação, ou, pelo contrário, numa parentalidade permissiva e com uma passividade tal, que leva a uma inversão de papéis. No primeiro caso, a vida em conjunto é conduzida com base nas expectativas dos pais (e a criança, na sua essência, perde-se). No segundo, os filhos e as suas necessidades passam a orientar e determinar a vida em família.

O equilíbrio (onde se encontra a saúde e o bem estar de todos os elementos) está no exercício de uma parentalidade assente em valores de partilha, solidariedade, colaboração e comunicação. Nestes casos, as necessidades dos pais e as necessidades dos filhos são ambas importantes. E ambas, devem ser determinantes para a organização e estruturação da vida familiar. Devem também ser os pilares que fundamentam as regras e as interacções.

É importante que os pais percebam que, num momento inicial, só o adulto consegue fazer essa gestão. Os bebés (e as crianças até certa idade), encontram-se numa fase de um egocentrismo que é natural e saudável. Isso mantém-nos centrados em si mesmos e nas suas necessidades e/ou vontades. É precisamente por ficarem a conhecer algumas das suas "limitações", e por verem os pais respeitar os seus próprios valores, que a criança se sente cada vez mais parte da estrutura (e vai ganhando cada vez mais poder sobre ela à medida das suas capacidades). Pais seguros, dão a conhecer à criança (ou apenas confirmam o que ela já sabe) a importância de dimensões como auto-estima, segurança, respeito e, principalmente, amor-próprio, vivendo-o na primeira pessoa.

Os nossos filhos não vão ser aquilo que nós lhes damos! ... Já a forma como nós os tratamos é importante, sim, sem dúvida! ... Mas o que é que é igualmente importante e, tantas vezes, negligenciado por nós? Pois é... as crianças vão relacionar-se consigo mesmas da mesma forma que nós o fazemos com nós próprios. Isto porque em última análise, a criança tem um profundo desejo de ser como os "crescidos" e, os principais "crescidos" da vida deles, são os pais! Já alguma vez ouviu uma mãe dizer "sempre tratei a minha filha tão bem e com tanto carinho, e ela trata-me tão mal!". Agora entende?

A regra é "eu amo e amo-me, porque sou amado e os meus pais se amaram a si mesmos".

Esta máxima só é possível, se nos permitirmos viver os nossos papeis de pais, sem medos ou interferências de velhas crenças e velhos padrões com os quais já não nos identificamos (mas que temos medo de deixar, sob pena de nos sentirmos órfãos ou perdidos). O que dizemos a nós mesmos, às vezes é -"eu não quero educar como os meus pais e avós fizeram, mas não sei fazê-lo de outra forma... e agora?". Se não nos sentirmos seguros, determinados e não confiarmos nas nossas capacidades como pais, passamos a viver numa "terra de ninguém", com efeito negativo para toda a estrutura familiar.
Os medos e as dúvidas fazem parte, mas há que mantê-las no seu devido lugar! Os pais autoritários, têm na essência, medo de perder o controlo e/ou medo de perder a sua estrutura (o que aprenderam com os pais). Pais permissivos ou passivos, têm medo de dizer "não". Temem que o "não" deixe o seu filho zangado, e que assim, corram o risco de perder o seu amor. Mais confuso ainda, é quando o desespero faz-nos alternar entre uma posição e a outra,  numa vivência de parentalidade desgastante (para nós e para a criança) de tão confusa e incoerente que se torna. Os nossos filhos, esses, na melhor das hipóteses, vão se zangar tremendamente! E ainda bem!

Saiba que não existe ninguém melhor do que você para ser mãe/pai do seu filho. Não existe ninguém com mais força, conhecimento, nem amor. Saiba que não existe a "terra de ninguém" apenas existe a "sua terra"! E quando a abrir ao seu filho, marido/ mulher, passará a ser a vossa terra! Poderão assim, construir o espaço, as regras, a estrutura e o amor da vossa família. Faça as escolhas que fizer, mas faça-as em consciência e nunca esquecendo de se incluir e de incluir o seu filho.

Acredite que, ceder numa regra que só faz sentido para si, ou dizer "não" numa situação importante para a família, vão ajudar a manter a felicidade "sob controlo" e o amor sempre a crescer! Valorize-se, liberte-se e liberte, e viverá a parentalidade que verdadeiramente quer ter!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dica de Comunicação - Formular pela positiva



Substitua frases como:
- Não grites!
- Não batas nos outros meninos
- Não corras para a estrada
- Não saltes no sofá
- Não estragues o brinquedo
- Não faças birra
- Não tenhas medo (quando confrontado com uma coisa diferente)

Pela descrição do comportamento desejado:
- Fala baixinho/ com calma/ normalmente
- Sê simpático/a para os outros meninos/ faz festinhas/ brinca em conjunto com...
- Fica junto a mim / anda sempre pelo passeio como a mamã
- Salta no chão que é mais seguro/ saltas no sofá só quando eu estiver por perto para garantir que corre tudo bem
- Brinca com calma / cuida bem do teu brinquedo novo/ mexe antes assim...
- Consegues ajudar-me mantendo-te mais calmo?/ Eu sei que vais conseguir acalmar-te
- Eu sei que é uma coisa nova mas vai correr tudo bem /  Tu és tão corajoso/a, vamos fazer disto uma aventura! (Se o medo já for real, não o desvalorize!).

sábado, 8 de novembro de 2014

Recomendação Especial - Workshop "Comunicar no Amor"

Tudo o que passamos aos nossos filhos, a forma como nos relacionamos e a forma como eles se relacionam com eles próprios e com o mundo, tem a ver com a forma como é vivida a comunicação em família. Por isso, fica aqui a recomendação de uma das minhas próximas actividades.
Até breve,


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dificuldades de aprendizagem | iOnline

Um texto absolutamente perfeito! Com uma clareza e (auto)análise brilhantes. Sucesso escolar (e mais tarde profissional) e sucesso pessoal (que é cumpri-se na sua verdadeira essência) são coisas muito diferentes, mas demasiadas vezes confundidas!

Um leitura que recomendo vivamente : Dificuldades de aprendizagem | iOnline

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Tranquilidade Começa nos Pais

Este post tem uma vertente um pouco diferente da habitual. Ainda assim, escrevo-o porque acredito muito sinceramente que é interessante e tem resultados excelentes na sua vida e no equilíbrio familiar.

Já lhe aconteceu pensar "logo agora que estou tão cansada é que vem esta birra?!" ou dizer "eu que já estou tão irritada e tu com esses comportamentos?!". Pois a questão é que é precisamente por se encontrar nesse estado, que o seu filho, apanhado no turbilhão de emoções e contagiado por elas, reage. Ele quer e precisa de sentir que os pais estão bem, estão seguros e que mesmo nos momentos difíceis, continuam a amá-lo. É tão simples e tão complexo quanto isto!

Uma das formas mais brilhantes e eficazes de reduzir a tensão familiar, as birras e algumas reacções intensas por parte dos nossos filhos, passa na realidade por nós, PAIS, estarmos também mais tranquilos, plenos e a sentir-nos cheios de energia (uma energia boa e equilibrada). Passa por outro lado, por aprendermos a focar-nos no que é realmente importante em cada momento que estamos a viver.

No dia 13 de Novembro, vou dar uma Sessão de Relaxamento em grupo para adultos no NaturAjna, em Almada. Quer começar por algum lado? Então este é mais um excelente passo no seu caminho! Conto consigo!

Abraço,




quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Obrigar ou não o meu filho a partilhar?!

Faço aqui uma reflexão, a propósito de um texto que foi escrito por uma mãe, que afirma não obrigar o seu filho pequeno a partilhar, seja em que circunstância for (nem mesmo nas situações em que o bem é "público", como um escorrega ou baloiço num parque). Isto porque, aparentemente, esta mãe sente-se no dever de ensinar as outras crianças a esperar e a perceber que não podem te os objectos sempre que querem e como querem. Por outro lado, a autora alega que um adulto nunca seria obrigado a partilhar o seu telemóvel com alguém que desconhece e, como tal, não devemos obrigar uma criança a emprestar o que lhe pertence a não ser que ela assim o entenda.

Antes de mais, quando estou perante um desafio na educação da minha filha, a única coisa que tenho em conta é a aprendizagem e a importância que aquele momento pode ter para ela. Não me compete a mim estar a pensar no quanto as outras crianças ficam mimadas ou deixam de ficar, se a minha filha lhes emprestar as suas coisas. Isso é, e deverá ser, responsabilidade das suas famílias. Ainda assim, acredito que esta discussão é muito interessante. Os tempos estão a mudar e são muitos os pais que pensam sobre estas coisas. Não queremos continuar a fazer como se fazia no tempo dos nossos avós ou pais, no entanto, não temos ainda interiorizado um novo modelo e, aí, ficamos confusos e por vezes acabamos por cair num dos extremos.

Ainda assim, a minha opinião difere da desta autora, em duas dimensões que penso serem muito importantes. Primeiro, uma criança não é um adulto e como tal, deve ser vista pelas características que a sua condição de criança lhe dá. Encarar a criança como um adulto em ponto pequeno é voltar muitos séculos atrás na forma como a infância é encarada. É fácil perceber estas diferenças. Para isso, basta pensarmos que se eu for a um café, não começo imediatamente a falar e/ou a interagir com as pessoas que estão à minha volta. E, salvo algo que saia da normalidade, os adultos não vêem os "estranhos" na rua como potenciais amigos (não estou a avaliar se isso é bom ou mau). Já os nossos filhos, se virem outra criança, ficam normalmente curiosos e com vontade de interagir. Mais timidamente ou menos timidamente, uma outra criança, para si, é sempre um potencial de "brincadeira". É por essa razão que, desejar partilhar ou não os brinquedos,  ganha uma enorme relevância. A forma como vai resolver a situação que está a viver, vai influenciar a forma como aprende a relacionar-se com os pares. Para mim, coloca-se aqui então outra questão. Não cabe aos pais ajudar a criança na vivência dos vários desafios que se lhe são colocados nestes primeiros anos da vida? 

E o que é ajudar? Para muitos pais, ajudar é decidir no lugar da criança e, determinar o comportamento adequado. Para outros, será deixar que a criança passe pelo processo sozinha e não intervêm independentemente da escolha que faça. Outros, ajudarão a criança a pensar sobre o(s) significado(s) do momento e sobre as escolhas que pode fazer (com as suas respectivas vantagens e consequências). 

Por exemplo, a minha filha está no parque a brincar com a sua boneca e outra menina aproxima-se e tenta mexer nessa mesma boneca. A reacção imediata, considerando o seu temperamento e os seus dois anos, é afastar a boneca e dizer "não mexe, é minha". Perante esta situação, o que faria eu? Primeiro explicava à menina que se aproximou: "sabes, a boneca é dela e ela gosta mesmo muito desta boneca. Por isso é difícil para ela emprestá-la". Desta forma, estou também a dizer à minha filha que não condeno a reacção dela e até a compreendo. Isso ajuda a que não fique tão defensiva e a pensar que alguém lhe vai tirar a boneca da mão sem que ela o queira. Mas não me fico por aqui, pois cabe a mim também mostrar-lhe porque é que emprestar a boneca poderia ser interessante. É por essa razão que lhe diria algo do género "gostavas de brincar com a menina?" e se ela me respondesse que sim, responder-lhe-ia "para poderem brincar juntas e divertirem-se as duas é importante que a menina também possa brincar com as tuas coisas". A reacção de partilha pode até não ser imediata (normalmente a A. escolhe emprestar um brinquedo que não seja tão especial). Mas a verdade é que ajudo-a a pensar sobre a situação e a ver que o que é dela, continuará a sê-lo, mesmo que o empreste por uns momentos. E que, por outro lado, emprestar permite que não esteja a brincar sozinha, poderá divertir-se mais e ainda fazer uma "nova amiga". Se a resposta for um belo e redondo "não, quero brincar sozinha" (o que às vezes acontece), então não obrigo. Limito-me a dizer à outra criança que naquele dia ela está com vontade de brincar sozinha e que talvez noutro dia seja diferente. E pronto, respeito.

Obrigo a partilhar? Não. Não quando o objecto é propriedade dela. Se o fizesse, estaria a dizer-lhe que o que é dela num momento pode deixar de o ser noutro. Se eu decido no lugar dela, então estou a agir como se o uso do brinquedo ou do objecto em causa, fosse um direito meu ou da outra criança. Assim estaria a confirmar-lhe os seus receios. 

A segunda questão, é que considero diferente (e acho importante que a minha filha aprenda a fazê-lo também), o que é propriedade da minha filha e o que é público. Porque neste último caso, para mim, a conversa fica muito diferente. Acho que é fundamental ensinar uma criança que há objectos que são dela e objectos que são de todos os meninos que estão ali (que é o caso dos parques, creche, etc.). Se quer estar sentada no cimo ou na ponta do escorrega, impedindo outros meninos de o utilizarem, então explico que tem que sair e dar passagem. Se estiver num carrinho durante muito tempo, estando outra criança à espera, explico que poderá andar mais um bocadinho mas que já está uma criança à espera e que, como tal, seria interessante pensar em experimentar outros brinquedos. Quando possível, pode-se sugerir que ela própria defina um certo número de voltas no carro ou de elevações no baloiço, antes de o passar para outra criança. Se no final se recusar a sair, explico que tem mesmo que ser, explico porquê (se todos os meninos ficassem muito tempo nos brinquedos, então ela também não teria conseguido usá-lo) e tiro-a, tentando ser firme mas sem ser brusca (é normal que seja difícil para uma criança acabar com um momento que lhe está a dar prazer).

Partilhar é bom porque é também uma forma de entrar em relação com o outro e aprender a respeitar a sua presença. É sem dúvida uma aprendizagem importante para os nossos filhos, temos é que saber também nos, respeitá-los nesse processo. Apenas isso.

Um abraço daqui deste lado,
Ana Guilhas
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Poderão ler o texto original aqui.
Existe uma versão portuguesa aqui.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Estas a viajar... por isso, aproveita e tira fotografias bonitas!

joão lavrador santo: Em viagem: “Diálogo sobre a viagem (Gonçalo M. Tavares) ― O que é viajar? ― É irmos do sítio A para o sítio B. ― E se depois voltarmos para o s...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"Stresso Logo Existo" - Reflexão Sobre o Stress Familiar


O Stress costuma ser visto como um dos grandes "papões" do século XXI e, na grande maioria das vezes, as pessoas acreditam que têm de se ver livres dele. Na realidade, o stress é um mecanismo psicofisiológico, que de base, é necessário à vida humana. A reacção de stress desencadeia-se sempre que somos confrontados com uma situação perante a qual precisamos de reagir, e se quiserem saber a minha opinião, esse processo é constante. Não existe um dia na vida em que não tenhamos que reagir a alguma coisa, de uma forma ou de outra. Onde está o mal então?

Vamos imaginar a seguinte situação. Estou a passear numa savana (vai-se lá saber porquê!) e deparo-me com um leão. Imediatamente o meu organismo reage e prepara-se para "lutar ou fugir". De repente, lá estou eu a correr que nem uma gazela e a trepar uma árvore com a agilidade de um macaco. Como é que eu consegui fazer isso? O stress desencadeou no meu organismo um conjunto de reacções complexas, que ainda que temporariamente, me deram uma espécie de "super-poderes". Num cenário ideal, o leão vai-se embora e o stress salvou a minha vida. Claramente, esta é uma situação de stress benigno.

Agora, vamos imaginar que sempre que desço da árvore, o leão volta a aparecer e eu tenho que voltar a subir. Isso, vezes e vezes sem conta. Todas as reacções fisiológicas que inicialmente me salvaram (p. ex. aumento do ritmo cardíaco, respiração rápida e superficial, alterações na produção de hormonas), vão agora começar a desgastar o meu organismo. Quanto mais a situação se prolongar no tempo, maior o desgaste. E eu pergunto-vos, o que é que me está a passar pela cabeça de cada vez que subo à árvore? A única coisa que consigo dizer a mim mesma é que "eu não sou capaz de ultrapassar esta situação. Estou encurralada e não existe uma solução".

Vamos continuar no domínio da imaginação e pensar agora no seguinte cenário: Estou no meu quarto e percebo que está uma barata à porta. É a única saída daquele espaço. E, de repente, a barata vê-me e começa a olha-me fixamente com um ar ameaçador. O que é que me passa pela cabeça? A única coisa que consigo dizer a mim mesma é que "eu não sou capaz de ultrapassar esta situação. Estou encurralada e não existe uma solução".  Acreditem, ficaria ali, sentada num canto do quarto à espera de socorro, paralisada, porque a minha cabeça me diz que não há nada que possa fazer. Exactamente como se de um leão se tratasse (talvez com um pouco menos de desespero, apenas).

Estes dois últimos exemplos, representam situações de quando o stress se torna maligno, atingindo-nos física, psicológica e emocionalmente. E o que os torna comuns, é que independentemente de ser real ou não, achamos que não existe uma saída para aquela situação. Pelo menos não uma que passe pelas nossas mãos ou como eu costumo dizer, pela nossa "área de poder".

Nestes casos, os mecanismos fisiológicos e psicológicos do stress mantêm-se para além do confronto inicial, provocando agora um desgaste generalizado. Se estivermos permanentemente neste estado, as consequências a longo prazo são gravíssimas, e podem ir da doença física à doença mental. O que liga as diferentes realidades, é sem dúvida a percepção que fazemos do que acontece nas nossas vidas. Pessoas diferentes vão viver uma mesma situação de formas completamente diferentes, e com níveis de stress igualmente diferentes. Decididamente, hoje sabe-se que a chave para gerir o stress (do século XXI), está em ultrapassar determinadas crenças e pensamentos que temos enraizados em nós.

Transpor este conhecimento para a vida em família, dá que pensar. Ora vejamos... surge a gravidez e com ela, o entusiasmo e os receios.  Depois vem o bebé, e descobrimos que chora, é exigente e nos dá noites difíceis. Passo a passo, vamos reagindo com o stress necessário a uma boa adaptação. O stress (positivo) ajuda-nos a reagir numa fase inicial, dando aos pais uma energia que não sabiam ter. Passam um mês, dois meses, três meses de noites mal dormidas. Acrescentam-se as doenças, as birras, as exigências, o trabalho...  Ainda respira? Então acrescente-lhe mais:
Stress na hora do banho...
Stress para sair de casa...
Stress ao jantar...
Stress porque sim...
E depois, não esquecer que na família há a soma de "todos os stresses" (mãe, pai, filho ou filhos em stress). Quantas vezes no nosso íntimo pensamos "eu não sou capaz de ultrapassar esta situação. Estou encurralada e não existe uma solução".

Não se sente no canto do quarto à espera que alguma coisa mude. Acredite que na maior parte das vezes, o que lhe está a provocar o stress não tem a ferocidade de um leão. A forma como pensamos a vida, isso sim, esmaga-nos com pensamentos de insegurança, impotência, culpa e desespero!

Anda stressado/a?! O que acha que deve começar a mudar em si?
Tente! Você é capaz!

Abraço,

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Compreender e lidar com o ciúme entre irmãos

Quando dizemos que "um irmão é um presente que se dá a um filho" estamos, naturalmente, a simplificar e a idealizar uma realidade que, a bem da verdade, normalmente é sentido como "presente envenenado". Se pensarmos bem, com a chegada de um irmão, a criança vê o seu "reino" ameaçado, quando uma criatura pequenina, enrugadinha e que (diga-se de passagem), numa fase inicial come, dorme, chora e pouco mais, se vem instalar na sua casa e pior, nos braços da sua mãe! Antes do nascimento do irmão, são muitas as pessoas que lhe dizem "agora vais ter um mano para brincar" e, na sua fantasia, a criança imagina que vai nascer um irmão prontinho para a brincadeira. E assim, a relação começa logo marcada por uma grande desilusão.
Este ser que é um estranho, inicialmente, ainda que activando na criança já alguns receios (p.e. perder a mãe e o pai, perder a exclusividade, perder a propriedade dos seus brinquedos e roupas),  pode até beneficiar de um enamoramento inicial. Fase em que a "guerra", ainda não foi formalmente declarada. Depois, por vezes de forma gradual, outras de forma mais violenta, surgem os primeiros sinais de desconforto, com as regressões, birras, choros e agressividade com o recém chegado. Ainda assim, justiça seja feita, depois de ultrapassado o reboliço "inicial" (que pode durar alguns tempo), criam-se as condições para que se manifestem todas as coisas boas que um irmão pode trazer à vida de uma criança, em termos de aprendizagem, cumplicidade e companheirismo. Mas primeiro, há que ultrapassar as dificuldades.

Antes de intervir, compreender
Com a chegada de um irmão, "baralham-se os amores" e, por essa razão, inicialmente, mais do que gerir a relação, será importante ensinar os seus filhos a lidarem com as suas próprias emoções. As queixas dos seus filhos, por mais estranhas ou afastadas da realidade que lhe pareçam, são formas dele exprimir o que sente e, principalmente, os medos que o perturbam naquele momento. Por essa razão, é importante que as oiça, e que as considere como válidas, reagindo com empatia. Durante estes períodos de "crise", é muito importante que escute com particular atenção para que possa ajudar o seu filho a elaborar, ao seu ritmo, esta nova realidade.
Hoje sabe-se que os sentimentos são sempre melhores manifestos do que reprimidos. No entanto, quando ralhamos, argumentamos ou pressionamos uma criança a deixar de ter determinados comportamentos (de agressividade por exemplo), estamos precisamente a levá-la a reprimir a manifestação e não o sentimento que lhe é subjacente. Este tende até a intensificar-se. Por outro lado, sempre que fazemos juízos de valor acerca da forma como a criança está a reagir, punimos e/ou censuramos, estamos a atingir a criança na sua auto-estima, o que virá confirmar os seus receios de que está a "perder" o amor dos seus pais.
Alguns autores, consideram que a rivalidade entre irmãos, se deve a uma ameaça à sua individualidade. "Eu devo ser como sou, ou devo ser como o meu irmão?", "se formos diferentes, seremos igualmente amados?" são algumas das questões que, ainda que não seja de forma consciente, inquietam a criança. Respeitar as diferenças e ajudar os seus filhos a desenvolver a sua individualidade terá um papel muito importante no processo de aceitação. Cada um é, e deve ser, como é! Se o seu filho sentir que ser ele próprio não é bom e que, o melhor é ser como o irmão, vai, inicialmente, tentar mudar. Deste movimento podem surgir as regressões como por exemplo, pedir chucha, gatinhar ou querer voltar ao biberão, ou a imitação de gostos, brincadeiras, entre muitas outras coisas. Com o fracasso da tentativa de ser como o irmão (porque de facto não é possível, nem desejável) vem a zanga, a frustração e a rejeição. O ideal será então que os pais reforcem as diferenças, mostrando que todas as formas de ser, sexo e idades, são importantes e têm lugar na família. Mostre que essas diferenças são precisamente o que torna a família especial, pois assim, ser como ele é, é ser especial. Ultrapassar os ciúmes de um irmão corresponde a uma conquista gradual de auto-estima, segurança e individualidade. A criança percebe que é amada como é, e independentemente do que faça. E pode, a partir daí, passar a amar livremente e sem medos este pequeno "invasor" que, rapidamente, se pode tornar no seu melhor e mais especial amigo.

Conselhos para lidar com o ciúme
1. Escute sempre as queixas do seu filho de coração aberto, sem julgamentos e agindo de forma empática. Diga coisas como "percebo que estejas triste, a mamã tem estado muito tempo com o mano e tu gostarias que pudesse estar esse tempo todo contigo também" e "compreendo que seja muito chato ter um irmão mais novo". Note-se que dizer "ter um irmão é chato", é diferente de dizer "o teu irmão é chato".
2. Nunca tome partido nos conflitos e evite interferir. Se não for mesmo possível, então separe-os. Não com forma de castigo mas para os levar a fazer actividades diferentes. Se se tiverem magoado, então envolva os dois na reparação de igual forma.
3. Não condene o mais velho por ter uma atitude hostil ou exprimir sentimentos negativos. Eu sei que é difícil resistir à tendência fortemente enraízada para dizer coisas como "isso é feio!", "não digas isso do teu irmão que ele gosta tanto de ti", "temos que gostar dos irmãos e tratar bem deles", etc. Ao invés disso, experimente "traduzir" as acções, revelando os sentimentos que estão por detrás do comportamento, usando frases como "compreendo que estejas irritado porque o teu irmão está a estragar a tua brincadeira" ou "vejo que estás zangado porque o teu irmão está a precisar da atenção da mamã", "se neste momento não te apetece brincar com o teu irmão, não brinques".
4. Não tente, de forma alguma, convencê-lo que gosta mais do irmão do que o que pensa. o seu filho está zangado e é só nisso que está focado. Se tentar convencê-lo do contrário, vai fazê-lo sentir-se culpado e isso pode agravar ainda mais a situação.
5. Para lidar com as regressões, promova actividades com o mais velho que estejam de acordo com a sua idade (brincar com os amigos, fazer jogos mais complexos e que lhe dêem prazer, ir passear só com o pai ou só com a mãe).
6. Se o seu filho acha que o irmão está a ser beneficiado relativamente a alguma coisa, não negue. É assim que ele está a sentir a situação e, para já, não consegue analisá-la sob outro ponto de vista. A negação só vai aumentar o sentimento de injustiça e incompreensão. Explique apenas que as coisas não são, nem têm que ser sempre feitas de forma igual e que, isso nada tem a ver com o que sentimos pelas pessoas. Pode dizer coisas como "quando nasceste também recebeste muitos presentes como o teu mano está a receber. Não sei se foram mais, se foram menos. Só sei que foram muitos, muitos" e "é chato quando sentimos que estamos a ser prejudicados. Eu lembro-me de sentir isso quando era pequenina".
7. Para o ajudar a lidar com as diferenças e respectivas vantagens e desvantagens, pode dar exemplos que o ajudem a perceber que também ele já viveu as etapas pelas quais o irmão está agora a passar. Alguns exemplos seriam "as pessoas gostam muito de olhar e falar com os bebés na rua. Quando tinhas a idade do teu irmão também era assim contigo", "quando eras pequenino, não podias brincar no parque como fazes agora. Só podias passear no carrinho como o teu irmão".
8. Promova a individualidade e diferença nos seus filhos. Dê exemplos de formas de ser diferentes como "o papá adora lavar o cabelo. Já eu sou como tu, não gosto nada". Evite comprar roupas iguais ou a combinar. Quando já for possível, peça para que sejam eles a escolher e ajude-os a fazê-lo de acordo com os seus gostos individuais. Se possível, evite as heranças "passivas" de roupa e brinquedos. Pergunte ao mais velho o que é que já não quer para ele e que queira dar ao mais novo. Depois, confirme se o mais novo o quer receber ou se interessa.
9. Se os níveis de agressividade são muito intensos, então pense em ajudar o seu filho a desenvolver uma boa auto-estima e auto-confiança e leve-o para actividades ao ar livre e físicas que o vão ajudar a descarregar alguma energia.

Do lado dos pais
Lembre-se de como foi a sua infância. Muito da forma como reagimos aos ciúmes dos nossos filhos, passa pelo que nós próprios experienciámos em criança. Foi filho/a único/a ou tem irmãos? Tem tendência para defender o mais velho? O mais novo? Irrita-se e desvaloriza as queixas? Age passivamente ou é demasiado interventivo/a? O que é que sente em cada um dos momentos de ciúme com que é confrontado/a? Espreite dentro de si mesmo/a. Depois de encontrar estas respostas, tente separar o que é seu e o que é dos seus filhos. Cada um deles é um ser único e especial e vão viver a existência de um irmão de forma igualmente única e especial.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

5 Dicas para acabar com as guerras às refeições

Os momentos das "grandes" refeições são óptimos para a criança ter os pais à sua volta, atentos, focados e preocupados. E estes momentos às vezes são tão raros! É por isso que tantos pais têm dificuldades com a alimentação dos filhos. Estes, precisam de sentir que têm algum controlo para acalmar a insegurança provocada pelo desejo de conquistar mais independência. Nada melhor do que ser "um pisco" a comer para manter os pais em alerta e poder exercer esta certa forma de "poder".


Como ultrapassar?

Dica nº 1 - Tão simples e tão difícil como: "Quer comer? come. Não quer? Não come." 
Chegou o momento de ter coragem para se libertar daquela vozinha interior que lhe diz “mas ele/a tem que comer, se não, vai ficar magrinho/a e frágil e vai adoecer e..., e....., e.....”. Estes pensamentos insistentes, não passam de crenças enraizadas que nos levam a sentir medo, sem um verdadeiro fundamento. O primeiro passo é sem dúvida, não obrigar o seu filho a comer. Se a resistência a comer é uma forma de oposição e luta pelo poder, assim que deixar de ser uma obrigação, a "guerra" deixa de fazer sentido. Salvaguardando alguns casos que ultrapassam a "normalidade" (e esses casos devem ser devidamente avaliados e acompanhados clinicamente), a verdade é que qualquer criança vai comer exactamente o necessário para estar bem e saciar a sua fome. O meu lema é sempre: "comer tem que ser mais importante para a criança do que para os seus pais". Quando os pais ficam muito ansiosos com a alimentação de um filho, invertem-se as prioridades. Para os pais, a prioridade é fazer a criança comer. Para a criança, a prioridade é sentir-se em controlo da situação (claro que não é uma questão consciente para ela). O papel do seu filho é o de comer porque precisa e, porque tem fome. O papel dos pais é o de providenciar as condições para que isso aconteça. O cenário ideal é que ambos colaborem para que tudo se desenrole de forma tão saudável, quanto agradável.

Dica nº 2 - Mude a forma de comunicação à mesa. 
Acabe com as ameaças do tipo "vais ficar doente". Acabe com as insistências do tipo "come mais um pouquinho", "come a carne" ou "come os legumes". Todos os temas e conversas são válidos durante os momentos de refeição (de preferência divertidos) desde que não se toque no assunto "filho não estás a comer nada de jeito”. Nos primeiros dias deixe que o seu filho se surpreenda com a falta de atenção que o “não comer” desperta.  Já quando acontecer o contrário, e o seu filho começar a comer mais do que o habitual, então aí sim, será interessante reforçar com um “estás a gostar?”, "ficou saboroso?" ou "parece que estavas mesmo com fome...". Numa fase inicial, pretende que a criança desbloqueie a resistência a comer. Por isso, deixe as aprendizagens de "boas maneiras" para quando esta etapa estiver ultrapassada.

Dica nº 3 - Tenha em consideração os gostos do seu filho
Pense nas coisas que não gosta de comer... Quando vai a um restaurante é isso que pede? Como seria se alguém o forçasse a comê-las? As crianças estão numa fase em que ainda estão a explorar sabores e para o fazerem de forma mais aberta e ousada, é importante que sintam que o estão a fazer porque querem. Isso vai dar-lhes mais segurança para arriscarem novos sabores. Importa sim, na medida do possível, manter uma alimentação saudável e variada. Mas essa aprendizagem virá do exemplo que houver em casa e não de obrigarmos os nossos  filhos a comer algo que não gostam.
A minha filha, como tantas outras crianças, avalia se gosta ou não de um alimento por "olhómetro" e, só depois de passar neste primeiro teste, segue para a prova efectiva. Devo confessar que esta é uma insistência da qual ainda não me consegui libertar. Por vezes, lá dou comigo a suplicar "prova só um bocadinho... vais gostar..." e a insistir "já sabes que se não gostares, não tens que comer...". Às vezes, por "caridade", lá me faz o "favor". Mas a verdade é que, quando me sento distraída a saborear qualquer coisa e me esqueço de lhe perguntar se quer provar, ela fica curiosa, aproxima-se, observa e pede para eu lhe dar um bocadinho. Foi assim que, só a titulo de exemplo, começou a comer os pêssegos com a casca (porque é assim que eu os como) e provou bolinhos de gengibre, canela e limão (que detestou claro).
Ainda relativamente ao "gosto" e "não gosto", é fundamental neste processo que não haja substituição do almoço e jantar por "guloseimas" como biberão, bolachas, iogurtes, etc. Essas substituições vão ter um efeito contraproducente e levarão a criança a adquirir maus hábitos alimentares. Evite também que a criança coma outras coisas antes da hora da refeição, vai reduzir-lhe o apetite e a vontade de experimentar outros sabores. Ter realmente fome quando chega a hora de comer é fundamental para que as coisas corram bem.

Dica nº 4 - Ajude o seu filho a desenvolver outras áreas de poder
Se o seu filho está a sentir necessidade de se afirmar e estabelecer a sua posição na estrutura familiar, então ajude-o a passar por essa etapa de forma saudável. Incluí-lo em todo o processo que envolva a refeição vai valorizá-lo. Ajudar a pôr a mesa, escolher o prato que quer usar (quando existem vários disponíveis), dar-lhe a hipótese de escolher entre vários alimentos (sem exageros), são alguns exemplos. Envolvê-lo na compra dos ingredientes também resulta muito bem. Posso partilhar por exemplo, que as melhores sopas que a minha filha comeu até hoje foram sem dúvida aquelas em que ela é que escolheu as cebolas e as batatas. Parece que, como que por magia, isso lhes confere um sabor especial. Por outro lado, quando percebi que a A. não gostava da sopa com muita cenoura, fiz questão de lhe dizer "já vi que não gostas que eu ponha muita cenoura na sopa". Desde então, quando me vê a fazer sopa ou quando a sirvo, pergunta-me sempre "tem muita cenoura, mãe?" e gosta de me ouvir responder "não, só um bocadinho. Porque tu não gostas quando ponho muita". Isto fá-la sentir que o gosto dela foi tido em consideração no planeamento e na preparação do jantar.

Dica nº 5 -  Aceite que o caos pode ser desejável, e assim, preserve a sua sanidade mental.
Se queremos verdadeiramente desbloquear certos comportamentos nos nossos filhos, então é fundamental que possamos olhar também para nós e para as emoções e dificuldades que trazemos à situação. Tente perceber como se sente nos momentos da refeição. Tente perceber se de alguma forma, não existe também da sua parte alguma necessidade de controlo e poder. Se assim for, corre o risco de cair em braços de ferro sem sentido, em que todos ficam necessariamente a perder.
Lembre-se que insistência gera resistência, que gera mais insistência, e segue em crescendo.
É difícil para si ouvir o NÃO do seu filho? Aceite-se como é e reconheça as suas próprias dificuldades. Depois, respire fundo. Muitas vezes e muito profundamente. É um primeiro passo e, acredite, vai ajudar muito!
É difícil para si ver a sua casa num pequeno caos? Acredite que no inicio, quando a criança é mais pequena, uma cozinha muito suja depois da refeição, é muito bom sinal. É sinal de que o seu filho está a explorar e autonomizar-se. Acredite que limpar uma cozinha (vezes e vezes sem conta) é bem mais fácil do que lidar com a dependência (fora de horas) do seu filho. Claro que estamos a falar de situações em que a criança explora, tenta fazer coisas novas e comer sozinha. Quando o comportamento vai para além disso, então é importante estabelecer algumas regras. Mas atenção, porque é preciso saber medir muito bem esta avaliação. Lembre-se que é normal para uma criança (que está ainda a ganhar noção do seu corpo e do espaço) derrubar acidentalmente o copo, o prato ou outras coisas, e é importante que não se sinta punida por isso. Aceite que para o seu filho, crescer sujando é mais importante do que estar sempre limpinho e com medo de fazer novas conquistas! Hoje pagará o preço de ter a casa num pequeno caos. No futuro, ganha em ter um filho autónomo, com uma boa auto-estima e seguramente mais feliz.

Agora, é avançar com segurança e determinação.
Se está efectivamente a pensar implementar um novo sistema, fale disso com a sua família. Explique apenas que o mais importante é que se sintam todos bem e que os momentos de refeição possam ser de alegria. Acima de tudo, confie nas suas escolhas e lembre-se que vai precisar de calma e paciência. Será uma conquista gradual para pais e filhos mas, sem dúvida uma que irá beneficiar toda a família num futuro próximo, quando começarem a ter momentos agradáveis de refeição em família, cheios de respeito, cumplicidade e muitos sorrisos.

Um abraço,

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

"Não Quero ir para a Escola!"

E depois dos sorrisos e mimos matinais, começam os zangados "não quero ir para a escola!", "não quero brincar com os amigos!" e "não quero ir pintar!". Sorrio e com carinho traduzo as suas palavras dizendo "eu sei que é muito saboroso estar em casa com a mamã e com o papá. Eu também gosto muito quando brincamos juntas. Mas agora é hora de tu, o papá e a mamã trabalharem. Tenho a certeza de que te vais divertir muito! Quando voltares da escola brincamos novamente juntas". É tão bom ver o olhar confuso da minha filhota como quem pensa "não foi isso que eu disse... mas foi isso que eu senti!". E lá segue ela, feliz e contente, para a escola que ela adora de paixão!

Por vezes, os pais tendem a interpretar o que ouvem dos filhos apenas pelo que dizem as suas palavras. No entanto, é o seu sentir que tenta revelar-se e libertar-se da forma como pode. Nem a própria criança consegue entender o que sente. Assim, um dos papeis dos pais passa por ajudar nesse processo, "traduzindo" e separando as diferentes dimensões do que está a ser dito.

A A. adora a escola, é um facto. Mas também adora estar em casa com os pais, e é muito difícil para ela e todas as crianças pequenas conviverem com essas ambivalências. Ajudá-las a compreender, ajuda-as a sentirem-se mais confortáveis e serenas. Mas, principalmente, ajuda-as a separar as coisas. Não é por querer prolongar um momento, que não gostamos do momento a seguir. E em crianças pequenas como a A. (2 anos) o momento é só o que existe. Finalizar com um "quando voltares da escola vamos brincar novamente juntas" ajuda-a a desenvolver gradualmente a consciência do "depois".

Abraço,
Ana Guilhas

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ser mais feliz com a sua família feliz!

Li recentemente num livro de Deepack Chopra que em determinada altura da sua carreira como médico, resolveu perguntar aos seus pacientes o que queriam obter na vida. A cada resposta como "ter muito dinheiro", "a segurança dos meus filhos" ou "para comprar isto ou aquilo", ele respondia com um insistente "porquê?". Fez isto, até chegar aquela que aparentava ser uma resposta final e que estaria na base de todos os outros objectivos ou necessidades, "porque quero ser feliz". Todos os pacientes, a quem submeteu o interrogatório, pareciam ter chegado a uma única e comum resposta.

Há algo que une todas as pessoas, e como tal também todas as famílias, que é o desejo mais assumido, ou menos assumido, mais visível ou mais escondido, de SER FELIZ. O autor Tal Ben-Shahar, professor na Universidade de Harvard, no seu livro "Aprenda a Ser Feliz"1 dá o exemplo do seu primeiro grande confronto com esta questão. Aos 16 anos, ganha o campeonato nacional israelita de squash e, depois de um dia e noite de euforia e comemoração, vê-se sozinho no quarto a chorar. Nos dias que se seguiram, essa desolação foi aumentando. E sentiu pela primeira vez que não seria criando outra meta (o campeonato do mundo p.ex.) que iria alcançar a felicidade e preencher o vazio que sentia.

Consegue imaginar uma pessoa com a carreira "perfeita", a família "perfeita", tudo muito lindo e organizado e, no entanto, um tremendo vazio por dentro? Sim, isso é perfeitamente possível e acontece tantas vezes! Esse sentimento causa-nos estranheza, e quanto mais olhamos para fora, mais estranho nos parece. Acabamos por negar a existência desta tristeza que guardamos bem lá no nosso íntimo. Quanto mais escondida está, mais parece invadir-nos. O que é que nos falta? Ser felizes?

Segundo Tal Ben-Sharar, antes de mais, a questão a ser colocada não é "como posso ser feliz" mas antes "como posso ser MAIS feliz?". Segundo este autor, a felicidade encontra-se no equilíbrio entre a experiência do prazer (vivência do presente) e a noção de significado/ propósito (investimento no futuro). Não basta ter noção de um propósito ou de um ideal. É necessário sim, ter também "à vista" do presente, acções específicas relacionadas com esse ideal e que sejam geradoras de prazer.

Ou seja, se eu quiser "ter uma família feliz" mas estiver focada em chegar lá pela estabilidade financeira, o sucesso escolar dos meus filhos, e o cumprimento de uma série de outras obrigações sociais, corro o risco de me distanciar dos factores que realmente caracterizam essa felicidade. Quanto tempo sobra para rirmos em conjunto, para dizermos e sentirmos que nos amamos? Quanto tempo, e com que qualidade, estou hoje com o meu filho/a?

Se um dos meus propósitos é ter uma família feliz, ou dizendo melhor ainda, ser mais feliz com a minha família feliz, não basta ter casado, não basta ter um filho e não basta ter mais outro e depois cumprir rigorosamente as expectativas sociais. Preciso sim, de saber hoje (e todos os dias), como vou viver (agindo) a minha relação amorosa? Como vou viver hoje, os meus filhos? Como vou viver esta família feliz, através de acções e prazeres concretos?

Organizar um pic-nic para o fim de semana; Combinado deixar os filhos com os avós ou com amigos enquanto vamos ao cinema com o/a companheiro/a; Escolher reunir a família todos os dias ao jantar e fazer desse momento um momento agradável; Porque não um jogo em família antes ou depois do jantar consoante os horários? Tudo isto são acções, concretas e reais que tornam um ideal numa realidade de hoje.

Pensarmos no ideal só por si poderia ser um pouco como um adolescente a quem se pergunta o que pretende fazer profissionalmente. Este, responde que quer ser actor. Quando lhe perguntamos se já teve algum tipo de aula de representação ou se já se inscreveu em algum grupo de teatro, responde que não. Esta forma idealizada de viver pode tornar-se até perigosa pelo vazio que trás consigo. Por outro lado, podemos ter um jovem que olha apenas à meta. Trabalha "desalmadamente" para tirar um curso de medicina, sacrifica as amizades pessoais, o seu tempo de lazer, isto por vários anos, e depois de ter o diploma na mão, já não tem bem certeza de querer ser médico. E aí vem novamente o vazio.

Não temos apenas um propósito na vida. É um facto. E nem sempre é possível retirar prazer de tudo o que fazemos. O segredo está em gerir os diferente ideais e respectivas acções de forma a que possamos investir em nós e retirar prazer não de tudo, mas sim do nosso dia-a-dia.

Tal como no exemplo referido no inicio, o prazer fugaz retirado do momento em que se atinge um objectivo, principalmente quando realizado às custas do sacrifício de vários anos, não compensa o que intimamente sentimos que perdemos. E neste ciclo de "competição desenfreada" com a vida, forçamo-nos a arranjar outro objectivo e repetir o sacrifício por mais uns anos. A felicidade vai sendo adiada e quando chega, não nos satisfaz. E assim sucessivamente.

Por uma questão de semântica, o futuro nunca é hoje e nós não existimos senão no hoje. Se nos sentimos em luta constante pelo futuro, então onde fica a nossa existência?

Se quer ser feliz e fazer parte de uma família feliz, o dia é hoje!
Abraço,


Referências bibliográficas:
1. Ben-Shahar, Tal. Aprenda a Ser Feliz, Porto, Edições ASA II, S. A. ,2008

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

"Socorro, a escola dos meus pais vai começar!"



A propósito do início das aulas, vou deixar aqui uma citação. Apenas para podermos reflectir acerca de algumas coisas... Se for do vosso interesse, posso depois alongar-me um pouco mais acerca desta questão.

No seu livro "A Criança Explicada Aos Pais - Segundo Dolto", Jean-Claude Liaudet (psicólogo e psicanalista) a propósito da escola refere:
"É uma escola-tipo para uma criança-tipo que não existe. O ritmo pessoal da criança, as suas motivações para aprender, ligadas à sua história afectiva singular, não são nem tidas em conta nem respeitadas.
Uma inadaptação escolar não é pois inquietante em si. Isso significa as mais das vezes que a escola não está adaptada à criança, e que se trata de lhe encontrar situações mais favoráveis para se desenvolver intelectualmente. (...)
Françoise Dolto muito cedo notou o caso de crianças profundamente inadaptadas, irrecuperáveis aos olhos dos docentes. A guerra de 1939-1945 salvou mais do que uma dessas situações interrompendo-lhes a escola. Ela cita o exemplo duma criança refugiada no campo e que o professor primário duma classe única aceita acolher, sem lhe exigir nenhum trabalho escolar, tendo o teste de inteligência de Binet-Simon diagnosticado um atraso mental importante. A criança não ia à escola senão quando queria, divertindo-se a fazer como os pequeninos quando lhe apetecia, a responder às perguntas da secção dos meios quando lhe dava no goto. Em três anos ela tinha atingido um nível normal sem que alguém se ocupasse dela.
Françoise Dolto cita igualmente o caso duma criança que não podia mais frequentar a sua classe. Ela toma a iniciativa de a fazer viver no campo longe de qualquer escola, onde ela depressa desaprende o pouco que sabia. Ao fim de um ano, a caseira encarrega-se de a ensinar a ler, à razão de uma meia hora por dia... Em três anos, ela recuperou o nível da sua classe de origem. mais tarde, terminou o secundário, depois veio a ser veterinário.
Foi porque os pouparam à pedagogia escolar que estas crianças consideradas irrecuperáveis puderam aprender."(Liaudet, 2000, p.133)

Não pretendo condenar a escola (sem direito a julgamento) e fingir que não nos trouxe tanto do bom que temos. Esta questão, para mim, não é linear. Fica apenas no ar o facto de que a escolarização tal como é vivida nos dias de hoje, não é necessariamente a melhor. Mas também acho, que para já, é a que existe e devemos saber reconhecer e agradecer o que nos dá.

Agora a grande questão para mim é - Não estão a sentir no ar a tensão crescer com o início das aulas? - E não estamos a falar de tensão nas crianças. Estamos a falar de tensão nos pais. Como se fossem os pais a voltar para a escola (uma escola que tantas vezes foi terrível para eles).

Porque é que isso acontece? Que dimensão é esta que a escola ganha na vida da família? No primeiro dia de escola, os nossos filhos carregam já com eles esta sensação, este peso das expectativas (suas, mas principalmente as dos pais), estes deveres e obrigações de sucesso, de fazer igual ou melhor que o ano passado, etc.

Será que, por vezes, não nos baralhamos um pouco e nos deixamos invadir pela sensação de que o sucesso ou insucesso escolar dos nossos filhos, nos define como pais? De que o seu sucesso ou insucesso é também o nosso sucesso ou insucesso?

Respiremos fundo e libertemos os nossos filhos de tanto, mas tanto, que é nosso!

Abraço apertado aos meninos pais e boa escola!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"Por favor, morde-me! " - Compreender e lidar com as dentadas na creche


A propósito de uma questão colocada no colégio da minha filha, deixo-vos aqui uma pequena reflexão sobre as dentadas em contexto de creche. Antes de mais, penso que posso dizer sem errar, que é consensual para os técnicos de saúde mental e acredito que também entre os pediatras, que as dentadas e os aranhões na escola são uma fase perfeitamente normal (e eu acrescentaria desejável) no desenvolvimento infantil. Acontece, nestes padrões de normalidade, mais ou menos até aos 3 anos (mas a fase dos 2 anos é habitualmente onde se manifesta com mais frequência).

Porque é que acontece?
Entre os 12 e os 24 meses, a criança encontra-se em plena fase de omnipotência, acreditando que é o centro do mundo. O mais importante da vida, é a gratificação dos seus desejos e necessidades físicas e psicológicas. Aliado à fase de descoberta, curiosidade e enorme aprendizagem em que se encontra, partilhar os objectos de interesse torna-se uma tarefa quase impossível. Por outro lado, os estados emocionais são para ela ainda um mistério. E ainda não consegue expressar zanga e frustração sem ser através de intensas birras ou de comportamentos que aos nossos olhos parecem muito agressivos. Todos estes factores combinados, fazem da dentada, dos empurrões e/ou aranhões a forma possível da criança se expressar em determinados momentos. Se dói a quem recebe a dentada? Dói. Mas o objectivo da criança não é necessariamente atingir o outro mas apenas libertar ou manifestar o que está em si. Frequentemente, quando se apercebe que provocou dor, a criança começa a chorar assustada com o seu próprio comportamento.
O adulto que assiste a uma dentada ou empurrão ou qualquer outra forma mais agressiva de expressão (e estamos a falar naturalmente de crianças até aos 3 anos) tende a pensar que a criança morde com a intenção de magoar, mas essa intenção, para já, não existe. Percebendo o mecanismo, é mais fácil para um pai de uma criança mordida ou para todos os adultos que se encontram por perto, reagir de forma mais tolerante à situação. Assim, um momento que pode tornar-se de grande tensão, revela-se apenas um  momento de grande aprendizagem para todos.

Uma questão de expressão
Em "O Grande Livro dos Medos e das Birras", o pediatra Mário Cordeiro explica as dificuldades de expressão na criança e as suas consequências no comportamento referindo que
"a linguagem receptiva média de uma criança com 2 anos é de milhares de palavras, enquanto a linguagem expressiva é de apenas 150 a 200 palavras. Só este dado causaria uma enorme frustração (um pouco à semelhança dos adultos que perdem a fala por qualquer razão). Tentar responder a uma frase complexa, que é entendida pelo bebé, mas não  tendo vocabulário suficiente ou imaginação gramatical para poder expressar os sentimentos ou verbalizar o que quer dizer, é muito traumatizante. E, falhando a linguagem verbal, só resta a linguagem corporal... agravado pelo desatino que existe pela nova frustração de não poder expressar verbalmente o que desejaria dizer." (Mário Cordeiro, 2013)
Vamos imaginar a seguinte situação, uma criança está a brincar com um carrinho... aquele carrinho novo do colégio que tinha estado nas mãos de outro menino e só agora teve a oportunidade de agarrar. Começa a estudar e a experimentar o brinquedo e simultâneamente começa a sentir o seu entusiasmo crescer com a descoberta e com a experimentação. Agora, aproxima-se outra criança também ela interessada no brinquedo (que ainda por cima é novo!) e começa a tentar tirar-lho (porque não? Encontra-se em plena fase de "quero, posso e mando", certo?). Perante essa situação, poderíamos imaginar um diálogo entre as duas crianças:
- Este brinquedo é muito giro, fiquei muito tempo à espera de o ter. Quero brincar com ele mais um bocadinho. Estou mesmo na fase em que estou a descobrir as coisas todas que dá para fazer com ele. Ainda por cima, ainda não aprendi a partilhar. Se mo tentares tirares, vou ficar muito zangada.
- Eu também quero experimentar esse brinquedo. Parece giro e divertido. Principalmente porque te vejo tão feliz com ele. Ainda não aprendi a esperar e, quando tenho que esperar por alguma coisa, fico muito irritado. Vou ficar zangado se não mo deixares agarrar.
Qual é o diálogo possível? Uma criança diz - Não!. A outra insiste - Quero!. Resultado? Uns empurrões, uma dentada e choro! Tudo em poucos minutos (às vezes menos). Nesta fase, o uso de força física substitui a comunicação oral, que ainda não consegue acompanhar o raciocínio e as emoções.

E da parte dos adultos?
Depois da mordida, é habitual ver ambas as crianças a olharem à volta como que a solicitar a intervenção do adulto. E, a forma como os adultos que estão por perto irão reagir, vai ser um factor chave para a aprendizagem retirada do momento. Para isso, é preciso reconhecer-lhe um o potencial de aprendizagem.
Antes de mais, é fundamental explicar que aquele comportamento não é adequado e, por isso, quem mordeu deverá naturalmente ouvir um firme e compreensivo NÃO. Por outro lado, será importante assumir o papel de "tradutor" da linguagem corporal, para ambas as criança. Assim, não tendo ainda capacidade para se exprimir nem compreender totalmente os seus estados emocionais, vão interiorizando um modelo alternativo.
Finalmente, pode ser importante explicar as posições, as consequências sobre cada um e as alternativas ao comportamento (de preferência explicando porque são  melhores).
Um exemplo seria - Não se morde! (introduzimos o interdito). Ficaste zangado porque querias continuar a brincar (damos nome ao estado emocional). Mas não se pode morder porque quando mordemos fazemos um dói dói ao amigo (apresentamos um efeito que não era o pretendido). O teu amigo também queria brincar com o mesmo brinquedo e não conseguiu esperar que acabasses (sem validar, explicamos o outro lado). Porque não tentam brincar juntos? (uma alternativa ao conflito).
Claro que a criança não deixa automaticamente de morder (é um processo). E claro que não começa imediatamente a exprimir as emoções. E claro que não começa logo a brincar em conjunto e a partilhar. Nesta fase, trata-se apenas de a ajudar a interiorizar e olhar para a situação de outra forma. Começamos a falar com um bebé muito antes dele ser capaz de nos responder ou reproduzir o nosso discurso, não é? Aqui trata-se de fazer o mesmo.
Fundamental será evitar comentários como "és mau", "não brinques mais com ele", etc... Para além de não resolver nada, dá à situação uma carga de culpa, intencionalidade e negativismo que não existe à partida, mas que pode passar a fazer parte das situações seguintes. Desta forma, uma reacção inofensiva e que à partida é normal, pode tornar-se aí sim, um problema.
Se for uma situação repetida e com uma criança mais crescida (2 a 3 anos) então afastá-la do grupo por uns minutos (2 a 5 minutos) pode ser uma forma de a ajudar a perceber que aquele comportamento não é aceitável. Se for um comportamento persistente e que ultrapasse a vertente de expressão, então talvez tenha chegado o momento dos pais e da equipa conversarem.

Impedir as mordidas?
Acreditar que é possível por parte da equipa pedagógica que acompanha o grupo, impedir que isso aconteça é ilusório e muito distante da realidade da interacção infantil. Quando duas crianças pequeninas brincam em conjunto (o que, em certas fases do desenvolvimento, só por si já é uma proeza), uma interacção pacífica muda de "figura" numa fracção de segundos e sem que por vezes seja possível para o adulto prever. Ainda bem que assim o é. Imaginem este mundo, se impedíssemos o Ser Humano de experimentar os seus limites e os do outro, quando ainda é pequeno e sem que isso represente danos de maior para nenhum das partes!
Será assim tão desejável impedir completamente as mordidas, empurrões e aranhões? Imagine, por exemplo, o que é para uma criança confrontar-se com a agressividade dos outros apenas aos 6 anos. Aí, possivelmente já sob a forma de agressão mais elaborada e organizada. Este "ataque feroz" pode passar por um "não gosto de ti", "não quero ser teu amigo", "és gorda ou feia", etc. Uma criança que nunca foi "atacada" não saberia que aquelas acções reflectem muito mais o outro e aquilo que ele está a sentir (zanga, frustração, medo, tristeza) do que a definem a ela. Não tendo levado "dentadas" quando podia, mais tarde, fica a mercê de palavras e comportamentos (potencialmente) devoradores da sua auto-estima. Mais ainda, se crescer sem "morder" ninguém, poderia tardiamente descobrir em si mesma uma agressividade com a qual ela não aprendeu a lidar. Essa agressividade desconhecida pode ser também demasiado pesada para ela carregar. Por um lado, é importante que a criança esteja preparada para receber um ataque mantendo a sua auto-estima intacta e, por outro, é fundamental que fique a conhecer os seus limites e aprenda a gerir a sua própria agressividade. Claro que os pais preferem, em certa medida, negar a existência de agressividade nos seus filhos. Mas não esqueçamos que a agressividade tem muitas formas de se manifestar e piores ainda de se não manifestar.

Importante
É frequente nesta fase as crianças adoptarem comportamentos de desafio, quase que como dizendo "por favor morde-me, porque eu não sei ainda até onde posso ir, e também não sei até onde tu podes ir". A saúde leva-os a querer aprender a vida. Isso é tão bom! Assim tenham os adultos a capacidade de entender estas crises, pelo potencial de aprendizagem que trazem à criança.
E ambos aprendem que por vezes, este mundo dói, e que, por vezes, fazemos doer o mundo. É por essa razão que, enquanto podemos, o melhor é aprender a defender-mo-nos dos outros e de nós mesmos. O nosso presente e o nosso futuro agradecem!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Entrada para o 1º ciclo - Ultrapassar o "nó na barriga"

O seu filho vai entrar para o 1º ciclo? Quando pensa nisso, como é que se sente? Fica com um brilho nos olhos, sente um aperto no estômago ou dá-lhe um friozinho na barriga?

Esta etapa na vida de uma família, costuma trazer consigo entusiasmo, expectativas e sobretudo, muitos receios. Todas as etapas de transição implicam, por natureza, expectativas, dúvidas, medos e às vezes até alguma angústia. Todos os elementos implicados no processo sabem que têm um papel a assumir e querem cumpri-lo melhor que ninguém. No entanto, todos se debatem com as suas próprias dúvidas e inseguranças e é isso que torna estes "grandes" momentos tão ambivalentes.

Não pretendo alongar-me acerca do que vai mudar da realidade do pré-escolar para o 1º ciclo. Até porque na realidade esse será um factor de menor importância em todo o processo. Ainda assim, importa referir que existem efectivamente diferenças relevantes como a forma como o seu filho vai passar a viver o espaço (agora e cada vez mais, centrado numa mesa, num quadro, em folhas/ cadernos) e adquirir novos hábitos de trabalho e novas regras. Passarão a existir sobre a criança expectativas de um certo “bom” comportamento e de aprendizagem e é aí que, subtilmente (ou nem por isso), se introduz o conceito de sucesso (e insucesso) escolar. Os critérios de avaliação do percurso do seu filho deixam de se centrar no domínio sócio-afectivo (linguagem, capacidade de estabelecer boas relações com os pares e com o adulto, persistência, autonomia, etc.) e passam a centrar-se em critérios académicos (produção escolar e atitude face ao trabalho e às regras). Mas, como dizia, mais importante do que estes aspectos, hoje sabe-se que o sucesso ou insucesso escolar corresponde (muito) frequentemente a uma adaptação escolar bem, ou menos bem, sucedida. Ou seja, sucesso escolar é na realidade sucesso no processo de adaptação escolar e, o contrário, é igualmente válido.


Como é que os pais podem ajudar?


Antes de mais, é fundamental que toda a família reconheça e compreenda que medos, dúvidas e insegurança não são vividas exclusivamente pela criança, antes pelo contrário. Também os pais transportam para o processo as suas próprias vivências, medos e inseguranças. Por isso mesmo, este talvez seja um momento interessante para que os pais se recordem de como foi vivida a sua própria escolaridade em todas as suas etapas. A tendência será para projectar muito do que é nosso nos nossos filhos. É importante compreender que este é um novo caminho que se inicia. Pensar se o seu filho vai fazer amigos com facilidade, gostar do professor, ter dificuldades com esta ou outra disciplina, é viver hoje o que ainda não existe. E quando vivemos no que poderá, eventualmente, estar para vir, temos menos disponibilidade para viver o que hoje está a acontecer.

Depois, é necessário ter em linha de conta que também os seus próprios receios e inseguranças como pais poderão interferir. Isto porque deixar crescer os nossos filhos não é um processo necessariamente pacífico e livre de conflitos internos. A entrada de um filho para a escola é mais um confronto com o facto de que a vida dele não nos pertence, e que a nossa função é apenas a de o preparar para que um dia possa seguir o seu caminho (de preferência, com a qualificação máxima de doutoramento em amor).

Posto isto, a verdade é que se estivermos alerta para as nossas próprias emoções, então estão criadas as condições para separarmos as águas e evitar que as mesmas interfiram no processo de adaptação do nosso filho, que deve ser livre e vivido apenas à sua imagem.


Ficam algumas dicas...
  1. Sinta que é fundamental que o seu filho aprenda a crescer. E para aprender a crescer, é importante que viva conflitos e aprenda a ultrapassar os seus desafios. Proteger demasiado o seu filho de frustrações e dificuldades pode torná-lo mais frágil e vulnerável. Vai entrar para a escola? Que desafio maravilho que aí vem!
  2. Incentive e fale sobre a entrada para a escola, mas evite longas e insistentes explicações que poderão gerar desconfiança e ansiedade;
  3. Evite mensagens contraditórias como dar recompensas ao seu filho por ter ido à escola. Se ir para a escola é bom e normal, então porque é que tem que ser (re)compensada? Estas prendas revelam muitas vezes a culpabilidade dos pais e a sua ambivalência;
  4. Seja carinhoso mas firme mostrando que não tem dúvidas de que o seu filho vai ficar bem;
  5. Organize a rotina de forma a garantir alguma tranquilidade (nada pior do que chegar à escola depois de uma manhã de correrias e zangas por causa de atrasos);
  6. Para uma boa adaptação é imprescindível que a criança esteja estável física e emocionalmente (se existirem conflitos latentes ou abertos em casa, a criança tenderá a transportar essa desarmonia para a escola);
  7. Converse com o seu filho sobre o seu dia-a-dia. A melhor estratégias será falar do seu próprio dia de forma emocional (e não apenas sob a forma de relato). Assim estará a ensinar-lhe a fazer o mesmo (por exemplo “hoje fiquei triste com X" ou "aconteceu Y que me deixou muito feliz e orgulhosa”);
  8. Dê sempre, prioridade à pessoa que o seu filho é e não aos resultados que obtém. Se se esforçou muito e os resultados não foram os desejados, então o mais importante no processo foi de facto o esforço. Os resultados podem ser bons hoje e maus amanhã. Continuar a esforçar-se e aprender a corrigir o que não correu bem é a única forma de chegar onde pretende.
  9. O seu filho entrou para a escola mas continua a ser uma criança, precisa acima de tudo de brincar muito e sentir-se profundamente amado, sempre;
  10. Saiba que o conceito de sucesso escolar está sobrevalorizado. Não existe uma relação directa entre sucesso escolar e sucesso na vida (principalmente se considerarmos que ter sucesso na vida é ser feliz);
  11. Mantenha-se focado no que é verdadeiramente importante. O seu amor e atenção serão os dois factores mais estruturantes ao longo de todo e qualquer processo de adaptação pelo qual o seu filho possa passar. Mais do que isso, são os elementos mais protectores da vida dele.

Agora chegou o momento para perguntar: Sente-se preparado/a para que seu filho entre no 1º ciclo?

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Com um brilho nos olhos...

Queria ser bióloga e estudar os animais. Descobri depois, e porque as dicas da vida às vezes até são muito óbvias, que o  meu caminho era a psicologia. Fui então parar ao estudo do animal mais complexo de todos, o Ser Humano. Fascinante! Hoje sei que nunca poderia ter sido diferente. Foi só mais tarde que descobri a minha grande paixão, a formação. E se quiserem saber o que me deixa verdadeiramente com um brilho nos olhos é sem dúvida formação parental.

O grande desafio foi quando fui mãe, há 2 anos atrás. Nasceu o meu maior AMOR incondicional. Com o nascimento da minha "piolinha maluca" a minha vida mudou porque o meu olhar sobre o mundo mudou. Aventurar-me na formação parental depois disto é a maior prova de fogo de sempre. Principalmente porque, mais do que nunca, significa trabalhar-me a mim todos os dias! 

Tão bom e tão difícil que é!

Está com coragem para se juntar a mim?